RÁDIO AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO Ícone TV
RÁDIO AO VIVO Ícone Rádio

Carnaval de rua de SP vira disputa entre marcas e entra na tendência do naming rights

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Diante de um Carnaval de rua cada vez mais caro, em que os blocos praticamente não vão para a rua sem patrocínio, as empresas que aproveitam os dias de desfile em São Paulo para expor suas marcas têm inovado em estratégias e acirrado a disputa por espaço publicitário na cidade.

As tradicionais ativações de marca, que em anos anteriores se restringiam à exibição de logotipos e cores em trios elétricos e guarda-sóis de ambulantes, avançaram e, hoje, incluem até adquirir os direitos sobre o nome de um bloco e dividir sua gestão artística.

Fundado em 2015, o bloco Agrada Gregos irá desfilar neste Carnaval como Bloco do TikTok com Agrada Gregos, após a rede social oferecer parceria de naming rights. “Mais do que um patrocinador, o TikTok neste ano criou o bloco junto com a gente”, diz a sócia Nathalia Takenobu.

Com um repertório pop, inspirado nas baladas paulistanas onde a fundadora tocava como DJ, o Agrada Gregos reuniu 500 mil pessoas no desfile do ano passado em frente ao parque Ibirapuera —a maioria jovens, mesmo público da rede social.

Além de batizar o bloco, a marca teve participação na escolha das atrações musicais e vai transmitir o desfile em live na plataforma. Sobre o risco de perda de identidade com o acordo comercial, Nathalia compara a situação a um casamento “em que cada um precisa abrir mão um pouco do que é para dar certo”. “Estamos ganhando muita exposição e a possibilidade de desfilar em um ano em que muito bloco cancelou”, diz a sócia.

Neste ano, ao menos 129 blocos foram cancelados pelos organizadores até o pré-Carnaval, realizado no último fim de semana. Blocos tradicionais, como Domingo Ela Não Vai e Meu Santo É Pop, desistiram por dificuldades em fechar as contas. A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que confirmou 536 desfiles neste ano.

Segundo Gabriel Simas, líder de marketing do TikTok na América Latina, este é o segundo ano de investimento da marca no Carnaval e o primeiro em São Paulo. Em 2023, a rede social produziu um bloco próprio em Salvador. Agora, além do Agrada Gregos, o TikTok fechou parceria de naming rights com os blocos A Favorita, no Rio de Janeiro, e NuOutro, na capital baiana, sempre com participações de famosos. “É um momento relevante para a cultura, que traz impacto socioeconômico”, diz o líder. “Um momento que a gente leva nossa marca para conectar com as pessoas.”

Em São Paulo, os desfiles dos blocos representam uma oportunidade única para as marcas porque o edital do Carnaval de rua flexibiliza a lei Cidade Limpa durante os dias de festa, quando é permitida a exposição de propaganda em locais públicos proibida por lei municipal desde 2007 para combater a poluição visual na cidade.

Diferentemente da rede social que “comprou” o Agrada Gregos, há outra modalidade de negócio gerenciada por agências que funcionam como produtoras de blocos. A GoFun, por exemplo, vai levar para as ruas de São Paulo dez blocos próprios com atrações famosas de pagode universitário, sertanejo e axé. Ao menos três grandes marcas patrocinam as produções.

“Começamos com atrações famosas em 2015, levando para a avenida Faria Lima o Bloco do Rindo à Toa, com a Banda Falamansa. Desde então, já trouxemos Claudia Leitte, Anitta, Baile da Favorita, Gustavo Mioto, entre outros”, diz o dono da agência, Gustavo Gomes Pereira.

Neste ano, ele afirma que a empresa irá investir 30% a mais do que em 2023. “A explosão de blocos em São Paulo inflacionou muito o mercado nos últimos anos. Um trio que pagamos R$ 8.000 em 2015 hoje está em R$ 60 mil. Com a queda de alguns blocos parece que os fornecedores estão voltando à realidade”, opina.

A maior demanda dos blocos por patrocínio atraiu neste ano novo segmento de empresas interessadas em participar, como sites de apostas e de conteúdo adulto. Maior plataforma de busca de profissionais do sexo do Brasil, a Fatal Model vai patrocinar ao menos dois blocos de rua de São Paulo.

Procurada, a gestão do prefeito Ricardo Nunes afirmou que cada bloco é responsável pelo próprio patrocínio, e que disponibiliza um guia de regras para os blocos e outro para os patrocinadores.

A comunicação visual das marcas nos dias de festa, neste ano, inclui também uma espécie de disputa pelas cabeças dos foliões, com o aumento de distribuição de brindes para proteger do sol, como viseiras e bonés. A tática foi lançada no Carnaval de rua pelo aplicativo de entregas iFood em 2019 e, desde então, todo ano o acessório vermelho com a logomarca se espalha pela cidade até depois dos desfiles, quando o brinde é usado pelo público no dia a dia.

“A ideia foi dar uma conveniência para o público já que o aplicativo também é de conveniência”, diz Fernanda Neder, gerente de brand experience do iFood. “Foi a forma que encontramos para sair do online para o offline”, continua.

Diante do sucesso de engajamento, ao menos duas marcas também vão aderir à distribuição de acessórios para a cabeça neste ano no Carnaval. O aplicativo chinês de compartilhamento de vídeos Kwai afirmou que irá oferecer cerca de 100 mil brindes nas ruas da capital paulista, além de Rio de Janeiro e Salvador. Entre os itens estão viseiras com o logotipo da marca. A Hering também prepara ação parecida com a oferta de bonés. Procurada, a marca não respondeu.

Para o pesquisador Guilherme Varella, autor do recém-lançado livro “Direito à Folia”, essas estratégias refletem o modelo de financiamento do Carnaval paulistano em que as empresas usam o espaço público para exibir a marca e se apropriar da paisagem urbana por meio dos blocos. “É uma distorção da espontaneidade do Carnaval de rua”, diz. “Passa a tratar o Carnaval como fenômeno político e econômico, não cultural, esvazia o sentido cultural da política pública”, continua.

O folião Bruno Vilaça, que usava uma das muitas viseiras vermelhas no pré-Carnaval, disse que está acostumado com a entrega de lembranças em festivais, não no Carnaval. “Só de viseiras acho que tenho umas dez em casa. Eu acho legal. É brinde eu estou pegando.”

No mesmo desfile, havia oferta gratuita de pochetes e mochilas com o nome de uma rede social, copos com o nome de uma marca de cerveja e óculos de comprimido para evitar a ressaca.

MARIANA ZYLBERKAN / Folhapress

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS