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Com Angelina Jolie, ‘Maria Callas’ investiga últimos dias da soprano

FOLHAPRESS – Pablo Larraín parece ter a capacidade de criar cinebiografias femininas retratando apenas um momento-chave de suas vidas. Saber escolher esse momento é sua virtude. No caso de “Maria Callas”, isso resulta não só num filme sobre a “diva”, a música, o teatro, a voz, a perda, mas também, e sobretudo, sobre a melancolia, a morte, o desgosto.

Aqui encontramos Callas em seus últimos dias. Já não tem a voz, nem Aristóteles Onassis, magnata com quem teve um caso emblemático. Vive solitária em Paris. Sua glória permanece intacta, é verdade. Está longe de ser esquecida, mas isso só parece servir a ela como prova de sua decadência. É uma personagem trágica, que entende muito bem a tragédia, à força de tê-la cantado e representado com brio e com brilho.

O que lhe resta agora? A atenção do mordomo —papel de Pierfrancesco Favino, excelente) e da governanta, papel de Alba Rohrwacher, que pisoteia tanto quanto ama. As antigas interpretações gravadas, não suporta escutar. Porque são perfeitas ela diz. Callas prefere a imperfeição do humano. Mas têm talvez outro defeito: elas a eternizam, e a ex-cantora detesta o gravado, o já feito, morto.

Fora isso, seus últimos dias resumem-se a algumas memórias, ora das interpretações antológicas, ora das insinuantes cantadas de Onassis. Há também as visões, que não são poucas. São os fantasmas que cultiva e que a habitam —e de passagem, contam sua história—, e os comprimidos que consome com a avidez de quem pretende apressar a própria morte.

Seria desaparecer tão ruim assim? Que tal enfrentar ensaios que constatam, sempre e sempre, que sua voz desapareceu —apesar das palavras de entusiasmo do pianista? Ou ser abordada pelo sujeito que comprou um bilhete para uma récita em Nova York e ela não compareceu porque se sentia mal. Sabe esse homem o esforço que consiste em tirar a música de seu corpo?

Os salões vazios por onde transita servem apenas para que o piano seja levado de lá para cá da sala, e depois de volta para perto de outra janela e assim por diante. A Callas sofre o que sofre qualquer Maria diante da passagem do tempo, da proximidade da morte, ao fazer o balanço de seus fracassos —e nessas horas parece que só o fracasso conta, a impossibilidade de ter tudo e sempre.

Para o homem regular, de sentimentos médios, a vida pode ser um pouco decepcionante (como definiu o cineasta Yasujiro Ozu, certa vez). Para alguém com a sensibilidade de Callas, é tragédia. Essa palavra a rigor não é boa: está vulgarizada pelo excesso de uso. De fato, a palavra melancolia define melhor o tipo de desencanto que frequenta a protagonista e o próprio filme.

Nesse sentido, é preciso deter-se sobre Angelina Jolie. Existe alguma coisa que falta em seu tipo (e não é o nariz grego). É a natural arrogância de que era dotada Maria Callas. Onde a original carregava uma espécie de desprezo helênico pelos outros (e talvez por si mesma, por sua condição de humana), Jolie parece apenas uma ex-diva irritadiça. À parte isso, ela está bem.

No mais, o jogo entre realidade, visões e alucinações que afeta Maria Callas expande a personagem, como a lembrar que não somos únicos, mas somos também nossos pensamentos, nossos sonhos e pesadelos, personagens que inventamos —como o cineasta que a filma e que é uma espécie de duplo do próprio Pablo Larraín.

Do mesmo modo, os flash backs não se prestam a ilustrar o passado glorioso da cantora, mas para trazê-lo ao presente, seja como dor (por ser passado), seja como felicidade (por ter sido).

É estranho como as mulheres biografadas por Pablo Larraín sempre chegam a uma espécie de plenitude quando próximas da morte: Jackie, quando o marido é baleado, Lady Di, ao se aproximar da casa real, e Callas no conflito consigo mesma, com o tempo e com a memória.

Na soma dos três filmes, Larrain mostra com maestria como nossa finitude pode ser ao mesmo tempo magnífica e insignificante.

MARIA CALLAS

– Avaliação Muito bom

– Quando Estreia nos cinemas nesta quinta (16)

– Classificação 14 anos

– Elenco Angelina Jolie, Pierfrancesco Favino e Alba Rohrwacher

– Produção Itália, Alemanha, Chile, Estados Unidos, 2024

– Direção Pablo Larraín

INÁCIO ARAUJO / Folhapress

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