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Cracolândia vira barril de pólvora com morte, protestos e brigas entre lojistas e usuários

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A indefinição sobre um local para a cracolândia se fixar tem transformado a região da Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, em um barril de pólvora. Cada migração do fluxo, como é chamada a concentração de usuários, aumenta a tensão na região.

Nesta terça-feira (15), foram registrados diversos focos de violência em apenas quatro quadras, entre a rua dos Protestantes e a avenida Rio Branco.

A ocorrência mais grave resultou na morte de João da Silva Sousa, 54, assassinado com um golpe de arma branca na lateral esquerda do tórax. O porteiro foi atingido no largo General Osório, por volta das 18h20, enquanto seguia para o trabalho.

Testemunhas relataram a guardas-civis metropolitanos que a vítima foi atacada por um ladrão que aparentava ser morador de rua e usuário de drogas. A abordagem ocorreu a poucos passos do fluxo, na rua dos Protestantes.

A intenção do bandido seria tomar a mochila da vítima, que resistiu. O criminoso, então, teria golpeado Sousa. A arma não foi encontrada.

A mochila foi levada, e a carteira e o celular do porteiro ficaram no local.

Cerca de 30 minutos antes do ataque contra Sousa, lojistas da rua Santa Ifigênia e dependentes químicos se envolveram em uma confusão no cruzamento da via com a rua dos Gusmões.

Durante a tarde, um grupo de lojistas montou um bloqueio na Santa Ifigênia para tentar impedir que os usuários de drogas voltassem a ocupar o trecho no entorno dos comércios.

No bloqueio, os comerciantes usaram grades de proteção que já estavam na rua. A ação, segundo eles, tinha como objetivo evitar que os usuários de drogas voltassem a se aglomerar na rua dos Gusmões, entre a avenida Rio Branco e a rua Santa Ifigênia. Os dependentes estavam até o último sábado (12) nesse ponto, de onde saíram rumo à rua dos Protestantes.

Durante a ação, um comerciante sofreu um corte na cabeça após ser atingido por um caixote de madeira jogado por um dependente químico. O homem ferido não quis conversar com a reportagem.

“Tem um mês que não entra um cliente na loja. Estou desesperado, sem ter o que fazer. Estou quebrado. Minha moto está com sete parcelas atrasadas. Minha esposa pediu para comprar banana para meu filho de dois anos e não tenho dinheiro para comprar”, relata Ede Carlos, 44, proprietário de um comércio na região.

Carlos, que atua na Santa Ifigênia há 30 anos, mostrou a tela de sua conta em um banco em que foi possível visualizar apenas R$ 6.

A ação dos comerciantes, no entanto, não impediu que os usuários retornassem para a onde havia sido barrados momentos antes. Por volta das 19 horas, quando já não havia mais lojistas no local, eles acessaram a rua e voltaram a tomar a Gusmões entre a avenida Rio Branco e a rua Santa Ifigênia.

A permanência do grupo durou cerca de três horas.

A Folha de S.Paulo presenciou quando, às 22 horas, um trio de guardas-civis usando capacetes desceu de um veículo parado na esquina da Gusmões com a rua Guaianases e correu em direção aos dependentes químicos, atirando bombas e disparando tiros de bala de borracha.

Ao menos quatro pessoas, sendo três mulheres e um homem, ficaram feridas por estilhaços de bombas e disparos de balas de borracha, que atingiram áreas como barriga, coxas e pé conforme relato de uma fonte que trabalha com redução de danos.

Os usuários correram e se dispersaram por ruas de Santa Ifigênia e Campos Elíseos.

Na tarde desta quarta-feira (16), os usuários já estavam novamente na rua dos Protestantes. Eles, entretanto, passaram a se deslocar novamente pela rua dos Gusmões no início da noite, concretizando mais um dia sem uma definição de onde o fluxo deve ficar.

PAULO EDUARDO DIAS / Folhapress

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