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Datena faz campanha apagada, não se firma como político e deixa eleição abalado após cadeirada

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em sua aventura política, José Luiz Datena (PSDB) falou sobre o Corinthians, ironizou o Palmeiras, citou Winston Churchill e Sêneca, afastou comparação com o profeta Moisés, posou para incontáveis selfies, gaguejou nos debates e entrou para o noticiário internacional por partir com uma cadeira sobre Pablo Marçal (PRTB).

Badalado nas ruas, o comunicador chegou a dizer que estava “parecendo o Silvio Santos” em visita ao bairro Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte —na semana seguinte à morte do dono do SBT. E, ao contrário do que se espera de um político, Datena repetia que não estava ali para pedir votos.

“Pedir votos é sequestrar votos das pessoas. Não adianta ficar aqui, vota no 45, faz o D”, disse o tucano, na sexta-feira (4) em sua última e breve caminhada da campanha.

Acostumado a brigar pela liderança do Ibope na televisão, o jornalista chega para o dia da votação frustrado com o próprio desempenho e abalado emocionalmente.

A eventual quinta colocação nas urnas neste domingo (6), como sugere as pesquisas de intenções de votos, é uma mancha na biografia do jornalista e coloca em xeque o seu futuro, inclusive na televisão.

O trauma é tanto que Datena já antecipou que, com a derrocada, está consumada a sua aposentadoria da vida política. “Para mim acabou a política, se não for eleito [prefeito de São Paulo]. Foi uma boa experiência, a gente fica muito baqueado quando vê resultado de pesquisa”, disse Datena no último dia 13, durante a sabatina realizada por Folha de S.Paulo e UOL.

Em seguida, ele chorou e deixou a entrevista. “Eu tentei ajudar as pessoas a votar em mim, até agora não consegui, porra, o que eu posso fazer?”

Antes de concorrer à Prefeitura de São Paulo, Datena já havia desistido quatro vezes no momento de oficializar a candidatura. E o seu sonho mesmo, sempre foi uma cadeira no Senado.

Em 2022, ele até avaliou a chance de se brigar pelo Congresso com apoio do então presidente Jair Bolsonaro (PL), mas não levou o plano adiante —assim como fez em 2016 quando anunciou que deveria concorrer ao Senado pelo DEM. Em 2020, foi cotado para ser o vice na chapa de Bruno Covas (PSDB) e, em 2016, chegou a ser pré-candidato à prefeitura pelo PP.

“Vou morrer sem cumprir o meu sonho. Escrevi um livro, fiz tudo na comunicação. O meu sonho era servir o povo como senador. Poderia me aperfeiçoar melhor, e não entrar de cara numa eleição majoritária”, falou Datena.

Pessoas próximas a ele dizem que, a cada rodada de pesquisas, o candidato é tomado por ansiedade. Nas primeiras sondagens e antes mesmo do início da campanha, ele vibrou quando chegou a aparecer empatado tecnicamente com o atual prefeito Ricardo Nunes (MDB) e o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL).

Datena, assim como o próprio Nunes e Boulos, não contava com a onda em torno de Marçal. Fora isso, o próprio tucano admite seus deslizes no percurso.

Comunicador há mais de 30 anos, Datena teve dificuldades para elencar suas propostas e promessas para o município, virou meme por gaguejar em público e só conseguiu o protagonismo em debate ao desferir uma cadeirada em Marçal.

“Quando eu estava em primeiro lugar, falavam: olha a força da televisão, o cara está em primeiro lugar sem fazer campanha e tal. Eu não sabia que eu ia entrar em campo e ia fazer um gol contra, como foi aquele debate da Band”, disse.

De quebra, a corrida eleitoral trouxe para o debate acusações contra Datena até então esquecidas. Entre elas por exemplo, a que mais desequilibra o jornalista e impacta a sua família, a denúncia de um suposto assédio sexual contra a repórter Bruna Drews, registrada em 2018.

Ela ingressou no Ministério Público com uma notícia-crime no dia 12 de dezembro de 2018. O episódio, porém, teria ocorrido no dia 7 de junho do mesmo ano. Pela legislação vigente à época, a denúncia de Bruna deveria ter sido feita no máximo até 6 de dezembro.

Com a disparidade de prazo, a acusação foi arquivada em 2019 sem a conclusão de qualquer procedimento investigatório. Na representação, Bruna narrou que Datena e que passou a ficar conhecida como “lanchinho do Datena” e “mina do Datena”.

A história foi o estopim para que Datena agredisse Marçal com a cadeira, no debate da TV Cultura. O candidato do PRTB chamou o tucano de de “Jack”, uma gíria usada em presídios para identificar acusados de estupro.

Após a agressão, o jornalista afirmou que “devia uma satisfação” para a família. “Minha sogra morreu depois dessas acusações, durante esse período que todos nós, da nossa família, sofremos”, afirmou Datena, após ser expulso do debate.

Com a forte rejeição em torno de Marçal, Datena foi reverenciado nas ruas pelo ato violento e a campanha tucana tentou explorá-lo no horário eleitoral gratuito. O candidato vetou a propaganda.

Avesso às ordens e imprevisível diante das sugestões dos seus assessores, Datena literalmente caminhou sozinho na campanha. Em um PSDB esfacelado, o jornalista quase não teve a companhia de candidatos a vereador nas agendas.

Por sua vez, também não fez questão de se aproximar dos pares tucanos em São Paulo, a não ser José Aníbal, seu candidato a vice e presidente municipal do partido.

Como estratégia, a equipe tentou intensificar suas passeatas, mirando no tradicional corpo a corpo, na tentativa de apresentá-lo como candidato. E logo desistiu.

“Eu não sou obrigado andar todo o dia. Um dia que eu não ando, já tem gente me cobrando. Eu não sou Moisés para ficar andando todo dia”, rebateu o comunicador.

Apesar das cobranças, o candidato diz que entregou tudo o que podia e foi surpreendido com o ritmo da campanha, inclusive precisou ir para o Hospital Sírio-Libanês após ter sofrido um mal-estar no dia 3 de setembro. Enquanto passava por uma bateria de exames, surgiam rumores de que o jornalista anunciaria a sua desistência.

De alta, afastou esta possibilidade e o “risco de morte para azar de alguns candidatos”. “O homem nasce para aprender a morrer, como dizia o Sêneca”, recitou Datena, na calçada do Sírio-Libanês. E concluiu que o primeiro-ministro britânico Winston Churchill o ensinou que é possível se “recuperar do fracasso”, mas da “desistência, não”

Entre os principais postulantes ao Executivo paulistano, Datena é o único que se negou a adesivar o peito com seu número nas urnas. Ele ainda orientou cabos eleitorais para que entregassem santinho e bandeira somente para o eleitor que demonstrasse interesse.

O PSDB é o 11º em que o apresentador ingressa. Antes, Datena integrou o PT (de 1992 a 2015), PP, PRP, DEM, MDB, PSL, União Brasil, PSC, PDT e PSB.

“O PSDB parece o Corinthians. Tem camisa, já ganhou campeonato do mundo. Não vou falar do Palmeiras, que não tem [o Mundial], para não perder votos…”, disse. “É um partido muito forte, com grande chance de se reerguer.”

Agora, o seu futuro como apresentador também é imprevisível. O contrato de Datena com a Band é válido até o final deste ano, mas há um acerto verbal para que seja renovado. No entanto, a cúpula da emissora ficou apreensiva com o desempenho ruim na campanha, e em especial a cadeirada.

*

5 MOMENTOS DE DATENA NA CAMPANHA

1 – Visita à Aparecida

José Luiz Datena escolheu em agosto o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida para começar, de forma oficial, a sua campanha à Prefeitura de São Paulo. O palco de estreia, a 180 km da capital paulista, gerou curiosidade. “Ah, mas você vai começar a campanha a fora de São Paulo? Vou. Em todos os momentos importantes da minha vida, venho aqui”, explicou o tucano.

2 – É 45, né, Zé?

Datena se negou a pedir votos e até recomendou para o público não titubear caso encontre “candidato melhor”. Em uma caminhada, uma mulher prometeu que votaria em Datena e perguntou qual o seu número nas urnas. “É 45, né, Zé?”, perguntou Datena para José Aníbal, candidato a vice-prefeito e presidente municipal do PSDB.

3 – Moisés

Pressionado na campanha para popularizar a sua candidatura, a equipe do PSDB desejava intensificar as caminhadas de Datena pelos locais público. O apresentador, porém, não comprou totalmente a ideia. “Eu não sou obrigado andar todo o dia. Um dia que eu não ando, já tem gente me cobrando. Eu não sou Moisés para ficar andando todo dia.”

4 – Choro na sabatina Folha/UOL

Insatisfeito com a quinta colocação nas pesquisas, Datena encerrou a sua participação na sabatina Folha/UOL emocionado. “Eu ainda tenho esperança. Realmente, tenho esperança [nesta eleição]”, afirmou, ao ser questionado se a experiência na política serviu de algo neste momento. Na sequência, porém, parou e começou a chorar. “Eu tentei ajudar as pessoas a votar em mim, até agora não consegui, porra, o que eu posso fazer?”

5 – Cadeirada

No debate realizado pela TV Cultura, Datena agrediu Pablo Marçal com uma cadeirada e foi expulso do programa. Já Marçal deixou a emissora e seguiu para o hospital. Antes da agressão, Marçal havia dito que o jornalista foi acusado de assédio sexual —a denúncia foi arquivada em 2019. Marçal também chamou Datena de “arregão” e disse que o tucano “não é homem”. Datena afirmou que agiu em defesa da honra da sua família.

CARLOS PETROCILO / Folhapress

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