RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Em 1999, a Berinjela tinha quatro anos de vida e caminhava para se tornar um dos melhores sebos do Rio de Janeiro. Daniel, o dono, depois de um dia cansativo de trabalho, ia baixar as portas quando o telefone tocou: “Gostaria de vender uns livros que estão no último andar do prédio, que antes era destinado aos empregados”.
Daniel perguntou se poderia passar no dia seguinte: “Preciso que seja hoje, vamos entregar o apartamento amanhã”. Pediu o endereço e o nome da pessoa a quem procurar e, ao ouvi-los -rua 2 de Dezembro, no Flamengo, e João Cabral-, saiu correndo.
Ao comprar das mãos de seu filho parte do acervo do poeta João Cabral de Melo Neto, morto naquele ano, Daniel acredita que fez o que um comerciante de livros de segunda mão necessita para se estabelecer na praça e definir um perfil para sua loja. Uma operação que mistura escolha deliberada de exemplares, pesquisa, faro e sorte. “O sebo do momento é aquele que consegue comprar a melhor biblioteca”, define.
“A família havia feito uma seleção de livros destinados a leilão, deixando outros espalhados no chão, cerca de 4.000, muitos assinados por João Cabral ou com dedicatórias para ele, inclusive de Carlos Drummond de Andrade”, conta.
Junto com o lote, veio o fardão da ABL (Academia Brasileira de Letras). “Consegui vender no dia seguinte, graças a Deus, porque dá azar.”
Filho de argentinos e neto de poloneses, Daniel Chomski nasceu no Brasil por acaso, quando a família veio acompanhar o pai no trabalho. Com sobrenome quase igual ao de Noam Chomsky, ele supõe ser primo distante do linguista. Os dois até se parecem um pouco.
Aos 17 anos, decidiu morar sozinho no Rio. Estudou jornalismo, escreveu resenhas para o Jornal do Brasil. Virou sócio de duas livrarias. A By The Book, no segundo andar de um mercadinho na praça Mauá, era visitada por duas ou três pessoas por dia. Na Brumário, a sociedade não funcionou, e ele saiu para abrir a Berinjela em 1994.
Queria um nome inusitado. Ter uma loja moderna, meio de tribo. E limpa. Na época, a maioria dos sebos no centro do Rio lembrava depósitos, com livros em mau estado e cheios de poeira e bolor.
O primeiro nome de batismo -Berinjela, Nabo e Jiló- felizmente foi descartado. O espaço é amplo, no subsolo do Marquês do Herval, na avenida Rio Branco, 185, um prédio-monstro com 21 andares, oito elevadores e 630 salas.
O importante era que ficava em frente à livraria Leonardo da Vinci, uma das mais conceituadas da cidade. Com Silvia, irmã e sócia, Daniel deu asas à imaginação para atrair a clientela, promovendo shows de rock e campeonatos de botão. A especialização em ciências humanas e sociais e literatura de ficção, além da oferta de vinis, CDs e DVDs, trouxe o reconhecimento.
À esquerda de quem entra, a primeira estante é dedicada à poesia. Apreciador do gênero, o livreiro bancou a revista Modos de Usar, que revelou Angélica Freitas e Marília Garcia, e abrigou os lançamentos da Inimigo Rumor, do amigo Carlito Azevedo.
Daniel compra livros todos os dias. Diz que 80% do trabalho é braçal, 20% intelectual. “Quando saio daqui, não tenho tempo para ler, vou fazer ginástica.”
O segredo do negócio é manter o estoque sempre renovado. O freguês que chega ao sebo pela terceira vez e encontra as mesmas ofertas não costuma voltar.
O estoque vai de 10 mil a 12 mil livros. Guardados numa sala do sétimo andar do edifício estão mais 24 mil exemplares. O site Berinjela, que é independente da loja, oferece cerca de 8.000 volumes. Todo primeiro sábado do mês acontece a Feirinha do Subsolo, com descontos, sucesso entre o público jovem; nessas datas, os livros vendidos podem chegar a 500, cinco vezes mais que um dia normal.
Mesmo antes da pandemia, Daniel apostou nas redes sociais para incentivar as vendas. No Instagram, diariamente são postadas pilhas de livros. “Devo ter sido o primeiro a fazer. Permite uma interação grande com o cliente.”
Ele se orgulha de ter formado novos profissionais. Ivan Costa, do sebo Belle Époque, no Méier, e Felippe Marchiori, da livraria Alento, aberta recentemente no Flamengo, aprenderam o ofício na Berinjela.
No mais, é aguardar outra sorte grande do tipo Cabral.
LIVRARIA BERINJELA
Quando Seg. a sex., de 9h às 18h
Onde av. Rio Branco, 185, loja A, Rio de Janeiro
Telefone (21) 2215-3528; (21) 2532-3646; (21) 99490-3166
Link https://www.livrariaberinjela.com.br/
Como doar ou vender Pessoalmente, de seg. a sex., de 12h às 14h; para grandes quantidades, agendar visita por telefone
ALVARO COSTA E SILVA / Folhapress
