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Documentário ousa ao trazer lado de Eliza Samudio à tona no caso do goleiro Bruno

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Muitos criminosos ganham destaque em séries ou documentários sobre seus crimes e julgamentos. Em 2010, um caso que dominou o Brasil envolvia o ex-goleiro Bruno Fernandes de Souza, condenado pela morte de sua amante, a modelo Eliza Samudio. Mas só um lado da história era contado. O atleta, então ídolo do Flamengo, ganhou os holofotes, enquanto a vítima até hoje não teve seu corpo sepultado, pois ele nunca foi encontrado.

Agora, Eliza se torna protagonista do documentário “A Vítima Invisível”, da Netflix. O filme é centrado na trajetória de Eliza até o crime. “Foi uma perspectiva bastante ousada, porque a vítima não está aqui para contar o lado dela”, diz Adriana Gaspar, produtora da Boutique Filmes, responsável pelo projeto.

A modelo desapareceu com o filho de quatro meses em junho de 2010. O principal suspeito do assassinato era Bruno, o pai da criança, que estava noivo. Ele negava o envolvimento com o crime. Em 2013, ele foi considerado culpado por homicídio triplamente qualificado, sequestro e ocultação de cadáver.

Na tentativa de contar a história sem desequilíbrio do ponto de vista editorial, o documentário usa arquivos dos depoimentos dos acusados e entrevistas com pessoas que rodeavam Bruno, como um ex-técnico e a ex-mulher do goleiro, a única absolvida durante o julgamento, que tratou da intimidade dele sob uma perspectiva feminina.

Bruno não foi procurado em nenhum momento. Os produtores dizem que ele já teve o respaldo da mídia e amplo espaço para se defender. Agora, os destaques vão para a mãe e pai de Eliza, além de amigas de infância, advogadas e jornalistas que cobriram o caso.

A produção também teve acesso ao computador de Eliza, que estava em um cartório, após ser utilizado no processo. Para Gaspar, isso foi importante para trazer novos elementos à narrativa, além de retratar como ela enxergava aquele relacionamento. “A gente conseguiu enxergar ela”, diz a produtora.

Outro elemento com destaque no documentário é o sonho que Eliza tinha de ser goleira. “Vítima Invisível” traz fotos da modelo jogando futebol e relatos de uma amiga e companheira de time, Carla Bó.

A produção traça semelhanças e diferenças entre a vida de Bruno e Eliza. Ambos vieram de origem humilde, lares disfuncionais e sonhavam com a carreira de atleta. Mas só um pode realizar o sonho, diz a produtora. “Fico me perguntando: ‘E se ela fosse um homem?’”, afirma Bó, no documentário.

Cenas como essa fazem parte dos esforços da equipe para sensibilizar a audiência com a história de Eliza. “A gente investe tempo para falar sobre desejos, carreira, tudo aquilo que é universal e que ela tinha”, diz Gustavo Mello, produtor do documentário.

Segundo Gaspar, houve um grande trabalho e discussões na hora de filtrar as informações contidas no laptop, de modo a respeitar a privacidade da vítima, algo que ela afirma não ter sido feito anos atrás. “O que tinha à época era muito vago, pautado na narrativa do Bruno. Era uma visão enviesada da história”, diz.

Eliza foi chamada de interesseira e taxada como alguém que só queria fama, por meio de um golpe em Bruno. Foi preciso uma distância de 14 anos para analisar criticamente o estigma posto sobre ela, diz Mello. “Ela foi muito contemporânea naquela época. Usou a mídia como proteção, e isso foi usado contra ela.”

O documentário ainda critica o mundo do futebol e suas contradições relacionadas a jogadores acusados de crimes de violência contra mulheres. A discussão se mantém atual, com a prisão por estupro do ex-jogador Robinho, em março, e a condenação de Daniel Alves pelo mesmo crime, também neste ano. O primeiro permanece preso, enquanto o segundo foi liberado sob fiança de € 1 milhão.

Bruno conquistou o regime semiaberto em 2019 e está em liberdade condicional desde janeiro de 2023. Nesse meio tempo, ele jogou em times como o Rio Branco e o Atlético Carioca.

A VÍTIMA INVISÍVEL: O CASO ELIZA SAMUDIO

– Onde Disponível na Netflix

– Classificação 14 anos

– Produção Brasil, 2024

– Direção Juliana Antunes

VITÓRIA MACEDO / Folhapress

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