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Dólar sobe com alta do IPCA-15, na contramão do exterior

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar e a Bolsa abriram em alta nesta terça-feira (25) com os investidores avaliando dados do IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15) e as novas declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a imposição de tarifas a produtos importados.

Pressionada pela conta de luz, a inflação medida pelo IPCA-15 acelerou a 1,23% em fevereiro, após marcar 0,11% em janeiro, apontam dados divulgados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). É o maior valor para o período desde 2016 e acumula alta de 4,96% em 12 meses, bem abaixo dos 5,10% esperados pelo mercado.

Na noite de segunda-feira, Trump afirmou que a negociação com Canadá e México segue “o (calendário) programado” com a data de 4 de março sendo mantida para ser alcançada uma solução sobre o combate à migração irregular e ao tráfico de fentanil. Caso contrário, os EUA prometem impor uma taxa de 25% sobre os produtos vindos dos dois países.

Às 11h29, a moeda norte-americana subia 0,31%, cotada a R$ 5,772, seguindo na contramão do restante do mundo, onde a divisa dos EUA se desvalorizava ante outras moedas. O DXY, índice que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas, caía 0,33%, a 106,32 pontos.

Já a Bolsa subia 0,77%, aos 126.374 pontos, depois que a companhia aérea japonesa ANA (All Nippon Airways) anunciou que vai encomendar 20 aeronaves da Embraer —um investimento de R$ 9,21 bilhões.

Na segunda-feira (24), o dólar fechou em alta de 0,44%, cotado a R$ 5,7545. Já o Ibovespa recuou 1,35%, a 125.401 pontos. Os juros futuros também refletiram a expectativa negativa sobre a inflação, encerrando o pregão em alta.

Começando pela ponta doméstica, os dados sobre a inflação de fevereiro, apesar de virem abaixo do esperado, sustentam uma percepção por parte do mercado de descontrole dos preços no país.

O centro da meta perseguida pelo BC é de 3%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

Nesta segunda, analistas consultados pelo Banco Central passaram a ver uma inflação mais alta ao fim deste ano e do próximo pela 19ª semana consecutiva.

Segundo o boletim Focus, a expectativa para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) é que suba do patamar de 5,60% para 5,65% ao fim deste ano. Para 2026, a projeção para a inflação brasileira é de 4,40%, de 4,35% anteriormente.

“Estamos chegando perto de 6% para uma expectativa inflacionária no ano. Nossa meta é 4,5%. Isso, sem dúvidas, deixou o mercado mais pessimista”, afirma Alison Correia, analista de investimentos e co-fundador da Dom Investimentos.

Entre os fatores que devem pressionar ainda mais a inflação está a criação de 100 mil vagas de empregos formais em janeiro, segundo informou o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, nesta segunda-feira. O dado é acima do previsto por analistas para a divulgação, nesta quarta, de 48 mil vagas.

Um mercado de trabalho mais forte significa aumento de consumo, o que deve aumentar os preços. Com preços mais resilientes, o Banco Central pode ter que subir mais, e por mais tempo, a taxa básica de juros (Selic), atualmente a 13,25%, para controlar a inflação.

Na avaliação de Correia, um superaquecimento de empregos significa um descontrole dos salários e dos preços.

“Fica mais difícil imaginar como o Banco Central vai conseguir controlar a inflação e acredito que talvez só aumentando a taxa de juros não seja suficiente também”, diz.

Também pode pressionar a inflação a liberação do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) de quem foi demitido e não conseguiu acessar os recursos na rescisão por ter optado pelo saque-aniversário, noticiada pela Folha de S.Paulo.

A medida colocaria mais renda à disposição da população, o que também aumentaria o consumo, podendo aumentar os preços e pressionar a inflação —consequentemente, pressionando a decisão do BC sobre os juros.

Além disso, o MEC (Ministério da Educação) começa a pagar nesta terça-feira (25) os incentivos do programa Pé-de-Meia aos alunos que concluíram o ensino médio em 2024 nas modalidades regular e EJA (Educação de Jovens e Adultos).

São R$ 1.000 pela aprovação no 3º e 4º ano e mais R$ 200 referentes à participação no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), totalizando R$ 1.200 para esses grupos.

“É uma somatória de ações que apontam para gastos atrás de gast os”, diz Correia.

O mercado ainda têm demonstrado um ceticismo com o governo, pois temem um descolamento ainda maior do compromisso fiscal. Os temores dos agentes em relação às medidas fiscais eleveram o dólar ao patamar histórico de R$ 6,267.

Somada a queda de popularidade de Lula, segundo um levantamento do Datafolha, e as eleições do próximo ano no horizonte, os agentes financeiros passam a precificar de forma mais pessimista.

“A queda de popularidade do governo pode ser um propulsor de mais gastos relacionados a benefícios sociais. Essa é a leitura do mercado. E aí, naturalmente, vem mais receio em relação ao fiscal”, disse Fernando Bergallo, diretor de operações da FB Capital.

Já na ponta internacional, o foco está em torno de novos comentários de Trump sobre seus planos tarifários.

Trump disse na segunda-feira que as tarifas de 25% sobre as importações de Canadá e México estão “dentro do prazo e do cronograma”, apesar dos esforços dos países para reforçar a segurança nas fronteiras e interromper o fluxo de fentanil para os EUA antes do prazo final de 4 de março.

As declarações acenderam alertas nos mercados globais, uma vez que muitos esperavam que os dois principais parceiros comerciais dos EUA pudessem persuadir o governo Trump a adiar ainda mais as tarifas que serão aplicadas.

“As declarações de Trump abalam os ativos de risco. No entanto, ainda há um certo grau de ceticismo, com a possibilidade de que manter a pressão até o último dia seja uma das estratégias e que as tarifas ainda possam ser evitadas”, disse Eduardo Moutinho, analista de mercados do Ebury Bank.

O México continua conversando com os Estados Unidos sobre questões de segurança e de comércio antes do prazo final de suspensão das tarifas do presidente Trump, disse a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, nesta terça-feira.

Falando em coletiva de imprensa, Sheinbaum disse que ainda espera chegar a um acordo com os EUA, mesmo depois de Trump ter garantido que as tarifas devem continuar.

VITOR HUGO BATISTA / Folhapress

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