SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Donald Trump duplica a taxa de importação de aço e alumínio para os EUA, levando-a a 50%, Volkswagen traz planos para sair da pindaíba e outros destaques do mercado nesta quarta-feira (4).
**FORJADO NO AÇO**
Mais uma boa nova de Donald Trump. Surpreso? Sabemos que não.
O presidente americano assinou ontem um decreto que dobra as tarifas de importação sobre o aço e o alumínio sai de 25%, para 50%. A medida já entrou em vigor enquanto você lê a newsletter.
A única exceção é o Reino Unido, que mantém a tarifa de 25% por conta do acordo firmado entre os dois países em maio.
E O BRASIL COM ISSO?
Tem tudo a ver com esta história, afinal, é o segundo maior fornecedor de aço ao mercado dos EUA.
O produto mais exportado pelo Brasil é o aço semiacabado, aquele que passou por alguns processos iniciais, mas ainda precisa de outros trabalhos, como a laminação, forjagem e outros.
MUTUALISMO
Dá para chamar assim a relação entre as indústrias do aço brasileira e americana. Enquanto exporta o produto semiacabado, o Brasil importa muito carvão mineral (ou coque) dos EUA para a siderurgia. Ainda, compra produtos finalizados deles.
O governo brasileiro espera conseguir um acordo melhor para este comércio usando o argumento de que ambos se beneficiam da troca.
As mais golpeadas são Ternium, ArcelorMittal e Usiminas, segundo analistas ouvidos pela Folha. A Gerdau pode sair menos ferida da briga. Menos de 10% das exportações da produção da empresa no Brasil vão para a América do Norte.
Até a conclusão desta edição, o governo brasileiro e o Instituto Aço Brasil, que representa a siderurgia no país, ainda não haviam se manifestado sobre a decisão.
SEM SUSTO
A indústria já esperava o aumento das tarifas. O presidente americano prometeu-o em um comício na sexta-feira (29), em uma unidade da siderúrgica US Steel.
NÃO VAI DAR BOM
É o que pensam alguns especialistas sobre a sobretaxa. A imposição de tarifas, sem mais nem menos, é uma forma pouco sofisticada de regular o comércio.
Uma tarifa de 50% é praticamente proibitiva, que vai ter que ser repassada para o preço [ao consumidor final]. A grande questão é que os EUA não são autossuficientes em aço, inclusive, alguns tipos de aço que não são fabricados lá, disse Welber Barral, ex-secretário de comércio exterior.
** ‘SEM TEMPO, IRMÃO’**
Falou ou não falou? Segundo o que disse ontem o presidente Lula, o Planalto não teve tempo de debater o decreto de elevação do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) antes que ele fosse anunciado.
Mas o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já havia dito que a medida foi discutida na mesa do presidente. E aí?
Não acho que tenha sido erro, não, foi momento político e em nenhum momento o companheiro Haddad teve qualquer problema de rediscutir o assunto. A apresentação do IOF foi o que pensaram naquele instante, disse o chefe de estado.
RECAPITULANDO
O governo publicou um decreto em 22 de maio que eleva o imposto para diversas operações, mas recuou em outras. Você pode ler a medida aqui, com todos os seus detalhes.
Desde então, o chefe da pasta da economia discute com o Congresso e outros atores da economia mudanças na proposta e/ou alternativas para equilibrar o Orçamento sem a arrecadação que ela traria.
Sustar o decreto do IOF, como defende a cúpula do Legislativo, pode reduzir a R$ 72 bilhões o espaço que o governo tem para realizar investimentos e honrar despesas ligadas ao funcionamento de órgãos.
Dorme com essa. Lula rebateu as críticas à medida lembrando que o Senado aprovou a desoneração gradual da folha de pagamento.
Quando aprovaram, sabiam da decisão que obrigava a compensação [da arrecadação], disse.
A desoneração da folha de pagamento surgiu para reduzir os custos do emprego formal aos empregadores. Em vez de pagar o imposto para o INSS sobre cada funcionário, as empresas de determinados setores pagam uma alíquota menor calculada sobre toda a sua receita. Isso significa que o governo arrecada bem menos do que antes.
SEM TRÉGUA
O presidente ainda apontou o dedo para outros benefícios concedidos a empresas, como cortes de impostos e outros tributos. Segundo ele, o governo perde R$ 800 bilhões com esses benefícios fiscais.
Agora o governo fica se matando para cortar R$ 30 bilhões do Orçamento? Esse dinheiro poderia ser retirado da desoneração, desses R$ 800 bilhões. Acontece que as pessoas acham que é um direito adquirido.
**NA PINDAÍBA**
A vida da Volkswagen não está fácil. A maior montadora da Europa e uma das mais icônicas do mundo está aos trancos e barrancos na medida do que pode ser dito sobre uma das maiores empresas do mundo, claro.
Entre greves, demissões, fábricas fechadas e protestos, a saga da companhia alemã está longe de acabar. Vamos aos últimos desdobramentos da crise.
Ra, ré, ri, ró rua. A empresa anunciou ontem que 20 mil funcionários devem deixar voluntariamente a empresa até o final da década, como parte de um processo de reestruturação de suas operações na Alemanha diante da demanda.
Hoje, conta com 671,5 mil funcionários ao redor do mundo;
No Brasil, são cerca de 10 mil colaboradores. Ou seja, serão desligados praticamente o dobro da filial brasileira da companhia.
O QUE ESTÁ ACONTECENDO, AFINAL?
Não está fácil ser uma montadora europeia em 2025, caro leitor. Há três sofrimentos principais:
[1] Aumento dos custos. A produção de carros fica cada vez mais cara. A transição para modelos elétricos traz investimentos altos em tecnologia, como baterias, semicondutores e motores. Some a isto o crescimento das legislações ambientais globalmente, que encarecem modelos à combustão.
[2] Demanda enfraquecida na Europa. Não como se os europeus tivessem parado de comprar carros. Eles continuam, e muito. A questão é que estão comprando menos.
[3] Rápida ascensão de concorrentes chineses. Nós vimos, você viu. Há carros elétricos de montadoras da China por todo o lado. BYD, GWM, GAC, entre outras, vieram para ficar. E ainda vendem mais barato a tal da tecnologia em elétricos que as europeias estão penando para agregar.
As marcas irmãs Audi e Porsche também passam por processos de redução de custos.
TIRANDO A PAZ
A Volkswagen, claro, não saiu ilesa dos anúncios. Desde 2023, quando começaram os sinais de crise, funcionários fazem greves e protestos contra a matriz.
No fim do ano passado, os trabalhadores de nove fábricas de automóveis e componentes da companhia fizeram paralisações de várias horas, interrompendo as linhas de montagem. A maioria se reuniu em Wolfsburg, sede original.
PODE PIORAR
É bom mesmo que a VW esteja se preocupando com custos, porque eles podem continuar aumentando. Vale lembrar que Donald Trump impôs uma tarifa de 25% sobre a importação de veículos para os EUA, que depois foi atenuada.
Ainda, a dificuldade em acessar as terras raras, minerais importantes para a produção de elétricos, pode causar lentidão nas entregas. Falamos melhor sobre o assunto na edição de ontem da newsletter.
**BISBILHOTANDO**
No Vale do Silício, tudo ganha um verniz de elegância. O novo nome para a boa e velha fofoca é espionagem. As empresas de tecnologia da região estão bisbilhotando o que as concorrentes fazem e levando para dentro.
As protagonistas desta anedota são duas startups vistas como promessas por quem acompanha este mercado de perto: as empresas de softwares RH Deel e Rippling.
A primeira afirma que a segunda mandou um de seus funcionários para furtar ativos da empresa fingindo ser um cliente. Vamos aos detalhes.
RAIO-X
Hora de conhecer as personagens.
A Rippling desenvolve um software para organização do ambiente de trabalho, com foco na área de Recursos Humanos. Na plataforma, dá para organizar pagamentos, contratos, benefícios, etc. e tal. Hoje, seu valor de mercado é estimado em US$ 16,8 bilhões (R$ 94,6 bilhões).
A RH Deel tem um software semelhante, mas com foco em organizar demandas do tipo para empresas multinacionais. Seu valor de mercado estimado é de US$ 12 bilhões (R$ 67,6 bilhões).
TOMA LÁ, DA CÁ
A troca de farpas é antiga. No início deste ano, a Rippling (a acusada) afirmou que um de seus funcionários estaria espionando para a Deel (a acusadora). Ou seja, dedos já foram apontados para todos os lados.
Segundo depoimentos, depois de ser confrontado com as acusações, o tal funcionário teria ido ao banheiro e destruído o celular dele com um machado. Como ele achou um machado no toilette é uma outra história.
A Deel contra-atacou dizendo que a rival está envolvida em uma campanha cuidadosamente coordenada de espionagem, por meio da qual se infiltrou na plataforma de clientes da empresa de forma fraudulenta e furtou os ativos proprietários mais valiosos da companhia.
A rivalidade nasce da semelhança. As duas trabalham em um setor pouco movimentado, sem concorrentes para distraí-las da antipatia direta. Ambas são financiadas por alguns dos investidores mais famosos dos Estados Unidos.
FOI PARAR NA JUSTIÇA
A Deel entrou com um processo alegando que a adversária tenta manchar sua imagem com acusações de futricagem. As acusações mais recentes foram protocoladas como adendos.
A Deel afirma que Brett Alexander Johnson, “gerente de inteligência competitiva” da Rippling, se passou por cliente e acessou informações sobre produtos e práticas comerciais da concorrente por seis meses. Essas informações teriam sido utilizadas no desenvolvimento de um dos produtos da Rippling.
E PROVA QUE É BOM?
Nada. Na verdade, a acusadora diz ter provas inequívocas do que aconteceu, mas ninguém as viu ainda.
**O QUE MAIS VOCÊ PRECISA SABER**
Chantagem emocional? Não, eletrônica. Modelos de IA tentaram chantagear pesquisadores quando estes ordenaram que se desligassem.
R$ 6,9 bilhões foi o lucro líquido dos planos de saúde no primeiro trimestre deste ano.
Alerta aceso. Um caso de gripe aviária foi confirmado dentro de um zoológico em Brasília.
Acabou-se o que era doce. O Ministério Público está investigando as denúncias contra a Cacau Show por suspeita de más condições de trabalho.
LUANA FRANZÃO / Folhapress
