SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Para alívio da literatura, a obra de Paulo Leminski sempre teve bem mais destaque que sua biografia. Graças em grande parte ao próprio poeta curitibano, autor prolífico e obcecado por divulgar sua produção, mas que pouco se lixava para sua imagem pessoal vestia-se com desleixo, mal cuidava dos dentes e não tinha documentos.
Completados quase 36 anos de sua morte em 1989, aos 44 anos, o interesse pelo trabalho do autor de “Caprichos & Relaxos” só cresceu, a partir sobretudo do lançamento da antologia “Toda Poesia”, em 2013. Fatalmente o fenômeno será potencializado pela próxima edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), de 30 de julho a 3 de agosto, que terá Leminski como homenageado.
Parece também inevitável que a movimentação atraia mais atenção à vida privada do poeta. É uma trajetória romanesca, com capítulos mirabolantes como o do filho que ele registrou como seu, mas não criou, cujos contornos dramáticos vieram à tona há pouco mais de um mês.
Em dificuldades financeiras, Paulo Leminski Neto estava vivendo com a esposa, Cláudia, nas ruas do Rio de Janeiro, como revelou o site Farofafá. Ela chegou a ser espancada por um delinquente que tentou estuprá-la. Ajudados por doações de amigos, conseguiram se fixar num hotel no centro do Rio e estão prestes a se mudar para Curitiba.
“Cansei de sofrer”, diz ele em entrevista, aludindo à batalha judicial que trava para ser reconhecido como herdeiro do poeta. Um escritório de Cascavel (PR) o representa na disputa contra as filhas de Leminski, Áurea e Estrela, e a mãe delas, a poeta Alice Ruiz. Numa ação que corre na Justiça do Paraná, Leminski Neto pede que elas prestem contas “sobre todos os valores recebidos a título de direitos autorais” a que ele teria direito.
Cantor e músico, Leminski Neto cresceu com outro nome, Luciano da Costa. Sua mãe é Nevair Maria de Souza, a Neiva, primeira mulher de Leminski. A controvérsia em torno de seu pai segue aberta. Quem o criou e registrou uma segunda certidão de nascimento junto com a mãe foi Ivan da Costa, um dos melhores amigos de Leminski, que nos anos 1960 fundou com ele o grupo Áporo,para combater o “provincianismo cultural” de Curitiba.
Quando Leminski começou a namorar Alice Ruiz, ainda era casado com Neiva, que por sua vez começou a namorar Ivan. Todos viviam num apartamento no centro da capital paranaense que era uma espécie de república hippie regida pelo espírito de amor livre daquele final dos anos 1960.
O bebê de Neiva nasceu em 1968, passou a ser chamado apenas de Kiko, e Leminski, além de registrá-lo, foi apresentado como o pai. Embora namorando Alice, que viria a ser a sua principal parceira de vida e ideias, o poeta se manteve casado oficialmente com Neiva até 1976 quando ela e Ivan já viviam com o pequeno Kiko/Luciano no Rio, onde ele cresceu e passou a maior parte da vida.
“Os quatro [Leminski, Neiva, Alice e Ivan] fizeram uma farsa para ajudar o garoto a ter um pai”, afirma o jornalista Toninho Vaz, autor da biografia “O Bandido que Sabia Latim”. Foi só por meio do livro, lançado em 2001, que Luciano soube que havia sido registrado como Leminski Neto. Tinha então 33 anos hoje tem 57. Depois do baque, adotou o nome do primeiro registro e com ele tirou novos documentos.
“Embora o garoto seja vítima disso tudo, ninguém teve a intenção de vitimá-lo. Mas quando ele acordou com a realidade de que não era filho do Ivan e soube pelo meu livro que era filho do Leminski, a cabeça dele fundiu”, diz Vaz.
Alice e as filhas, que responderam à reportagem juntas e por escrito, reconhecem que Leminski registrou a criança, “conforme exigia a legislação da época, em virtude de seu casamento” com Neiva, mas mantêm no ar a dúvida sobre quem é o pai biológico.
“Ivan da Costa foi quem, ao que nos consta, assumiu a paternidade e a exerceu. Seria necessário perguntar às pessoas que participaram do novo registro Paulo Leminski Filho, Neiva e Ivan (estes dois últimos ainda estão vivos). O que sabemos é que Paulo Leminski Filho e Neiva afirmaram não estar mais juntos no período em que a criança foi concebida.”
Dizem ainda que Leminski não deixou patrimônio material, só direitos autorais, cuja gestão é realizada por elas “com responsabilidade e dedicação à preservação e difusão da obra do autor”.
Leminski Neto guarda um exame de DNA feito em 2001 que provaria que Ivan não é seu pai. Procurados, Neiva e Ivan não responderam à reportagem. Entrevistada por Toninho Vaz para a biografia (há cerca de 25 anos, portanto), Neiva disse que o pai biológico é Ivan. Amigos de Leminski, incluindo o próprio biógrafo, ressaltam a semelhança física entre Leminski Neto/Luciano e o poeta. “É igual. Tem até as pernas arqueadas do Paulo”, comenta Vaz.
Em meio ao turbilhão, o músico rompeu com a mãe e Ivan, a quem cresceu chamando de pai e hoje trata por padrasto. Reserva palavras duras a ambos e diz que os está processando. “Eles tiveram a chance, quando ele [Leminski] estava vivo, quando eu estava crescendo, de pelo menos falar a verdade. Mas mantiveram essa mentira durante anos. E todo mundo sabia, menos eu”, queixa-se Leminski Neto.
Ex-integrante, como vocalista ou guitarrista, de bandas cariocas de heavy metal, ele prepara, em conjunto com Cláudia, o livro “Pela Desordem dos Fatos”, um “diário estético poético”, a ser lançado pela editora curitibana Toma Aí Um Poema.
A novela da qual faz parte é apenas um fragmento da vida nada ordinária do homem que o registrou como filho. Leminski tinha ascendência polonesa do lado paterno (era o primogênito do sargento do Exército Paulo Leminski) e portuguesa, afro e indígena do lado materno.
Adolescente, foi oblato no Mosteiro de São Bento, no centro de São Paulo, onde aprimorou o latim que começara a aprender no Colégio Paranaense. Após um ano, foi aconselhado pela direção a sair, quando restou claro que sua inquietação era incompatível com os hábitos monásticos entre outras transgressões, colecionava retratos de mulheres seminuas.
Poeta acima de tudo, Leminski foi um artista múltiplo, exercitando seu talento vulcânico como romancista (seu primeiro livro é o clássico experimental “Catatau”), compositor de canções (suas mais conhecidas são “Verdura”, gravada por Caetano, “Mudança de Estação”, por A Cor do Som, “Valeu”, por Moraes Moreira, e “Promessas Demais”, por Ney Matogrosso), crítico, ensaísta, tradutor, publicitário, colunista de jornal e TV, professor de cursinho e faixa preta de judô.
Qual um discípulo de William Blake, percorreu o caminho do excesso rumo à transcendência e à sabedoria. Morreu de cirrose hepática, saldo do alcoolismo que não conseguiu ou não quis interromper mesmo já doente, e teve a vida pontuada por outras tragédias familiares. O primeiro filho dele com Alice, Miguel, morreu de leucemia aos 10 anos. O único irmão, Pedro, suicidou-se aos 38, em meio à depressão e ao alcoolismo, numa época em que estavam brigados viviam entre tapas e beijos.
A principal chave para desbravar essa vida sui generis é justamente a biografia “O Bandido que Sabia Latim”, de Toninho Vaz. Noutro sinal do enrosco que paira sobre o legado do poeta, o livro em si é alvo de controvérsia. Nasceu de uma sugestão de Alice Ruiz, cujo depoimento Vaz reconhece ter sido fundamental para a obra, mas mais tarde seria censurado por ela e pelas filhas.
Em 2013, as três vetaram uma nova edição de “O Bandido ” quase idêntica à original, em que o o autor acrescentou umas poucas informações sobre o suicídio do irmão e de um livro biográfico de Leminski escrito por Domingos Pellegrini. Alegaram, entre outras coisas, que não concordavam “com a atitude de explorar fatos trágicos” e com a “inclusão de trechos nas biografias que violam a intimidade e honra do poeta”.
Uma nova edição do livro de Vaz só sairia em 2022, sete anos depois de o Supremo Tribunal Federal julgar inconstitucional a exigência de aprovação prévia para publicação de biografias. O agradecimento a “Alice, Áurea e Estrela, pontos de luz e referência desde o início”, que constava nas primeiras edições, foi excluído da atual. Vaz chegou a processá-las, mas terminou desistindo da ação.
Outro ex-parceiro das herdeiras legais e gestoras da obra de Leminski é o cenógrafo Miguel Paladino, responsável pela montagem de duas grandes exposições sobre o poeta, uma Ocupação no Itaú Cultural e “Múltiplo Leminski”, que percorreu várias cidades. A reportagem apurou que, após discordar de exigências de Alice quanto à montagem de uma das mostras, ele desistiu da parceria. Procurado, Paladino não quis comentar o caso.
Alheia às escaramuças, a última mulher de Leminski, a cineasta Berenice Mendes, com quem o poeta morava em Curitiba quando morreu, diz que lamenta a situação envolvendo Leminski Neto e torce para ele e a mulher se recuperarem.
Revela que estava grávida de Leminski e sofreu um aborto espontâneo em seguida à morte dele. “Com o susto da morte, perdi a criança. E logo perdi meu primeiro longa [com a extinção da Embrafilme], que estava pronto para ser filmado. Eu tinha 29 anos. Foi uma grande porrada para mim.”
Berenice conta que, como o rumor sobre o filho não reconhecido circulava por Curitiba, ela perguntou a Leminski a respeito. “Ele me disse: Bere, a gente era muito jovem, vivíamos em comunidade. Ela [Neiva] não tinha certeza de quem era a criança. Ela optou em assumir essa criança como sendo do Ivan. E foi embora com ele. A mim coube respeitar.”
E, para Berenice, quem é o pai de Leminski Neto/Luciano? “Não conheço Ivan pessoalmente, mas vejo muita semelhança [do músico] com o Paulo. O biotipo eslavo, os braços, as pernas, os olhos. O Paulo era aquele biótipo, como se tivesse as feições cortadas a faca, e vejo isso nesse menino.”
FABIO VICTOR / Folhapress
