SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Narradores não confiáveis são um recurso utilizado aos montes, seja na literatura, no teatro ou no cinema. Em “Dreams (Sex Love)”, o norueguês Dag Johan Haugerud demora um pouco para deixar transparecer que a sua protagonista é um deles, mas uma vez que o faz, o espectador se vê perdido entre fatos e imaginação.
Não por maldade. Johanne, afinal, é apenas uma adolescente, imatura emocionalmente e, portanto, incapaz de entender a complexidade de uma relação amorosa. Seus anseios juvenis de virar escritora, também, lhe dão licença poética para tornar situações sem muito significado em grandes dramas, enquanto as narra num livro que lê para o espectador.
Vencedor do Urso de Ouro, honraria máxima do Festival de Berlim, de onde saiu também com os prêmios dados pela associação de exibidores e pela Federação Internacional de Críticos de Cinema, “Dreams” encerra a trilogia formada ainda por “Sex” e “Love”. Mais uma vez, explora temas como sonhos, sexo e amor, é claro.
“Este é um filme sobre a versão da realidade desta personagem, ela controla o filme todo”, diz Haugerud. “Mas não é algo específico dela. Todos nós, quando contamos a nossa vida para alguém, criamos uma realidade misturamos fantasia e verdade. Todos temos áreas cinzentas em nossas vidas, e era isso que me interessava.”
Haugerud já foi, ele mesmo, um narrador não confiável. Antes de cineasta, o norueguês é romancista, com certo sucesso em seu país, mas sem obras traduzidas no Brasil. Quando escreve sobre si mesmo, ele diz, sua vida ganha leveza, parece mais interessante do que realmente é.
No novo filme, acompanhamos a relação de Johanne com sua professora de ensino médio, por quem se apaixona perdidamente. Após o furor romântico que a toma, e a desilusão que o sucede, a adolescente decide escrever sobre a experiência inicialmente para poder lidar com seus sentimentos, mas depois como forma de testar seu talento para a escrita.
Como num diário, ela narra passagens que de fato existiram, mas que tiveram interpretações diferentes para ela e para a amada. Nunca sabemos ao certo se o amor foi correspondido, nem mesmo se aquela relação entre aluna e professora foi abusiva.
“Temos o hábito de enxergar o amor como algo preto no branco, porque é mais fácil, mas as relações que temos uns com os outros são muito mais complexas”, diz Haugerud, que pôs um relacionamento homoafetivo em cena não apenas para discutir sexualidade, mas também porque a ligação entre um homem e uma mulher, nesse contexto, seria instantaneamente condenada.
Queria ainda dar espaço para discutir o amor não como um ato egoísta. Você idealiza o outro, o torna objetivo de um desejo pessoal, explica o diretor. “Eu realmente acredito nisso. Quando você ama alguém, você fica obcecado pela imagem que criou daquela pessoa, você não a deixa livre para ser quem ela realmente é.”
Como estes e outros questionamentos, Haugerud segue a linha de outro expoente do cinema norueguês contemporâneo, Joachim Trier, de “Sentimental Value” e “A Pior Pessoa do Mundo”, que vêm se debruçando sobre as complexidades das relações humanas ao filmar personagens em busca de afeto e conexão em meio a crises pessoais.
DREAMS (SEX LOVE)
– Quando Estreia nesta quinta (26), nos cinemas
– Classificação 14 anos
– Elenco Ella Overbye, Ane Dahl Torp e Selome Emnetu
– Produção Noruega, 2024
– Direção Dag Johan Haugerud
LEONARDO SANCHEZ / Folhapress
