Espécie de musgo do deserto se mostra promissora para colonização de Marte

SÃO CARLOS, SP (FOLHARESS) – Os sonhos de transformar Marte num planeta tão verdejante quanto a Terra talvez comecem a ser viabilizados com a ajuda de uma espécie de musgo do deserto. A plantinha é capaz de resistir à falta d’água, ao frio extremo e a bombardeios de radiação que fritariam o DNA humano, ou mesmo o de outros vegetais menos durões.

Esses e outros detalhes sobre a resiliência do Syntrichia caninervis, musgo que pode ser encontrado em boa parte das regiões desérticas do mundo e na Antártida, estão num estudo assinado por pesquisadores do Instituto de Ecologia e Geografia de Xinjiang, ligado à Academia Chinesa de Ciências. O trabalho, publicado no dia 1º deste mês no periódico científico The Innovation, não usa meias palavras: a espécie seria “uma planta pioneira promissora para a colonização de ambientes extraterrestres”.

Embora outros organismos terráqueos já tenham sido estudados de olho em sua capacidade de suportar as condições marcianas (é o caso de algas, líquens e micróbios), a equipe chinesa, liderada por Tingyun Kuang, resolveu estudar o musgo do deserto pela sua capacidade de desempenhar um papel mais ativo na formação de solos.

A presença do S. caninervis e outros organismos pioneiros do deserto aumenta a estabilidade do solo arenoso e sua capacidade de reter água. Assim, o musgo funcionaria como um andaime ecológico, abrindo caminho para que plantas mais exigentes em termos ambientais conseguissem se estabelecer ali mais tarde.

Em estudos de campo, mesmo as situações mais extremas do clima da Terra não parecem conseguir extirpar a pequena planta. O S. caninervis simplesmente “preteja” -fica negro, com aparência de morto-, mas o acesso à água faz com que a planta volte a ficar verde em questão de segundos, retomando seu crescimento.

Para investigar melhor as capacidades de resistência da planta, os cientistas chineses realizaram uma série de experimentos. Submeteram os musgos, por exemplo, ao congelamento em freezers ultrafrios (temperatura de 80 graus Celsius negativos) durante até cinco anos, e a um tanque de nitrogênio líquido mais de duas vezes mais gelado (196 graus Celsius negativos). Resultado: as plantas se regeneraram assim que foram descongeladas, ainda que o processo tenha sido lento.

Outra abordagem foi lançar sobre o musgo altas doses de radiação gama (famosa, nos quadrinhos e no cinema, por transformar um ser humano normal no Hulk, embora seu efeito costume ser mortífero na vida real, sem relação alguma com superpoderes). Enquanto os seres humanos morrem quando são expostos a uma taxa de radiação de 50 Gy (ou “grays”, unidade de medida para esse tipo de energia), doses de 500 Gy parecem até promover o crescimento das plantinhas.

O teste final combinou várias características do ambiente de Marte. Os musgos enfrentaram um ar composto de 95% de gás carbônico, flutuações de temperatura entre 60 graus Celsius negativos e 20 graus Celsius positivos, baixa pressão atmosférica e forte radiação ultravioleta. Exemplares secos do musgo, submetidos a essas condições por até uma semana, regeneraram-se totalmente num prazo de 30 dias.

É claro que a análise é só o começo do trabalho. Por ora, os pesquisadores demonstraram que o musgo provavelmente teria capacidade de sobrevivência de longo prazo no solo marciano, mas ainda não está claro se ele conseguiria se propagar com alguma eficiência por lá sem a ajuda constante de seus semeadores humanos.

Outra questão importante é a possível presença de micro-organismos no solo do planeta vermelho. Até que ponto seria lícito correr o risco de eliminá-los com a introdução de formas de vida da Terra? E qual seria a interação deles com as espécies terráqueas? Ainda é muito difícil responder essas perguntas.

REINALDO JOSÉ LOPES / Folhapress

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