EUA aprovam venda de caças F-35 para Arábia Saudita

A aquisição era desejada há anos por Riad, que opera uma frota mista de caças americanos e europeus.

Dois movimentos separados adicionaram dinâmica à nova geografia política do Oriente Médio nesta quinta-feira (17).

De um lado, os Estados Unidos aprovaram a venda de caças avançados F-35 à Arábia Saudita; por outro, Israel divulgou ter feito exercícios navais com a Grécia mirando a rival Turquia, aliada de Riad.

O negócio dos aviões furtivos ao radar havia sido anunciado por Donald Trump durante visita a Washington do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, em novembro. Mas só agora, em um momento de crise para o reino saudita, saiu a autorização.

Segundo o Departamento de Estado, foi aprovada a venda de 48 aeronaves e 49 motores por estimados US$ 24,9 bilhões (R$ 151,4 bilhões no câmbio desta quinta). A aquisição era desejada há anos por Riad, que opera uma frota mista de caças americanos e europeus, mas não tinha um modelo da chamada quinta geração.

No Oriente Médio, apenas Israel opera os F-35. O Estado judeu tem, contudo, uma experiência maior até do que a americana em empregar o caça em cenários reais de combate.

O anúncio vem logo após Trump negar apoio a Bin Salman no conflito entre os sauditas e os houthis do Iêmen. Desde julho, a guerra civil no país, congelada em 2022, havia sido reaberta com um bloqueio aéreo da capital ocupada pelos rebeldes pró-Irã.

Os sauditas apoiam o governo expulso pelos houthis em 2014. Os houthis passaram a trocar ataques com Riad e, na semana passada, fizeram uma ofensiva que tomou a costa iemenita no mar Vermelho, ameaçando impor de vez um bloqueio a portos sauditas.

O terminal de Yanbu, na região, era a principal alternativa de exportação de petróleo para a Arábia Saudita desde que o estreito de Hormuz foi obstruído pela guerra EUA-Irã, ainda inconclusa. Para piorar, drones lançados de aliados dos houthis no Iraque danificaram o oleoduto que alimentava o porto.

Os houthis também derrubaram um caça F-15 saudita e atacaram bases no vizinho. Os F-35 não chegarão a tempo para fazer diferença no conflito atual, mas sinalizam boa vontade de Trump em momento de crise.

Além disso, já está no Congresso americano um acordo que permitirá aos sauditas enriquecerem urânio em seu solo, embora o presidente condicione a autorização a uma improvável paz entre o reino e Israel.

Trump também estuda reincluir a Turquia no programa de fabricação do caça, do qual foi excluída em 2019 por adquirir sistemas antiaéreos da Rússia. Uma decisão sobre o assunto deve ocorrer logo, segundo ele disse na terça (15).

O Estado judeu, principal aliado dos EUA na região, protestou contra os dois negócios, alegando que afetam a sua segurança. A Turquia emergiu como principal rival estratégico de Tel Aviv no Oriente Médio pós-Trump, tendo firmado um pacto militar com a Arábia Saudita e o Paquistão.

Um primeiro teste de estresse dessa arquitetura ocorreu em agosto na Síria, onde Israel bombardeou uma base que disse que seria ocupado por turcos – que negaram a intenção, sem convencer muito.

Desde que Ancara apoiou a derrubada da ditadura de Bashar al-Assad em 2024, a Turquia tem incrementado sua posição no país árabe, que por sua vez viu a ocupação israelense em torno das Colinas de Golã ser expandida.

ISRAEL DÁ NOVO RECADO AOS TURCOS

Nesta quinta, os israelenses deram mais um recado para os turcos. Anunciaram ter feito, há duas semanas, um exercício naval não divulgado com a Grécia no Mediterrâneo, perto de águas contestadas por Atenas e Ancara em torno de Chipre.

A Grécia é rival histórica da Turquia desde que se libertou de quase 400 anos de jugo otomano, em 1830. Em 1974, se enfrentaram pelo controle de Chipre, que acabou dividida. Ambos os países são membros da Otan, a aliança militar liderada pelos EUA, mas alimentam forte desconfiança mútua.

A aproximação entre o Estado judeu e a Grécia remonta a 2011, quando participaram de um primeiro exercício conjunto, liderado pelos EUA. De lá para cá, tornaram manobras regulares e, no fim do ano passado, anunciaram a formação de uma força conjunta de 2.500 homens para ações aeronavais no Mediterrâneo.

No exercício recente, dois navios lançadores de mísseis de Israel se uniram a duas fragatas gregas, simulando coordenação e ataque.

Além disso, a Grécia tem aumentado seu papel como cliente militar de Tel Aviv. Em abril, Atenas comprou US$ 650 milhões (R$ 3,3 bilhões) em sistemas de artilharia com mísseis israelenses Puls. Os equipamentos serão posicionados em ilhas do mar Egeu que cobrem a costa turca.

Em agosto, o maior negócio entre os países foi anunciado, totalizando US$ 3,5 bilhões (R$ 18 bilhões): a compra de um sistema antiaéreo com três camadas de proteção, inédito na Europa, pelos gregos.

A aquisição é um dos pilares do programa de rearmamento grego, que segue a tendência da Europa após a Guerra da Ucrânia e o desengajamento de Trump da Otan. O país pretende gastar quase US$ 30 bilhões (R$ 150 bilhões) em dez anos.

 

IGOR GIELOW / Folhapress

 

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