RÁDIO AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO Ícone TV
RÁDIO AO VIVO Ícone Rádio

Fala dúbia de Bolsonaro após eleição ganha novo olhar com revelações da PF

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A revelação de novas articulações golpistas no coração do governo Jair Bolsonaro (PL) joga luz sobre o que estava por trás de um discurso dúbio que o então presidente fez no fim do mandato na área externa do Palácio da Alvorada.

As mensagens obtidas pela Polícia Federal na Operação Tempus Veritatis reforçam a leitura de que Bolsonaro incitou seus apoiadores na ocasião a pressionar as Forças Armadas para que impedissem a posse de Lula (PT), candidato vitorioso na eleição presidencial de 2022.

Segundo a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), que autorizou as prisões e buscas, o então presidente Bolsonaro teve acesso e pediu modificações na chamada “minuta do golpe”, mantendo a previsão de prisão de Moraes e a realização de novas eleições.

Essas alterações, segundo mensagem que consta da decisão enviada por Mauro Cid, então ajudante de ordens de Bolsonaro, foram feitas na manhã do dia 9 de dezembro de 2022. Na mesma data, o presidente recebeu o general Estevam Teophilo, que teria lhe prometido colocar tropas na rua para garantir o golpe.

Entre o enxugamento da minuta e a reunião com o militar, houve o jogo em que o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo do Qatar pela Croácia. Após a partida, Bolsonaro se dirigiu à área externa e falou por cerca de 15 minutos a apoiadores. Foi seu pronunciamento público mais longo até então desde a derrota para Lula, quebrando um silêncio de 40 dias.

Em seu discurso, ele repetiu declarações já conhecidas e deixou vagos ou ambíguos outros pontos.

O presidente iniciou sua fala pedindo compreensão, no momento em que manifestantes acampados em frente a quartéis militares já demonstravam impaciência e frustração com a ausência de medidas para a reversão do resultado eleitoral.

“Muitas vezes vocês têm informações que não procedem e, pelo cansaço, pela angústia, pelo momento, passam a criticar”, disse o presidente.

O que estava acontecendo, e se soube com mais detalhes após a operação, era uma dificuldade de convencer os comandantes do Exército e da FAB (Força Aérea Brasileira) a embarcar na ideia de um golpe.

Segundo a PF, dois dias antes, em 7 de dezembro, Bolsonaro havia discutido com chefes militares a minuta do golpe.

Ainda segundo a investigação, o então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, colocou suas tropas à disposição de Bolsonaro, no que não foi seguido pelos demais —em um contexto de resistência de governos estrangeiros a uma ruptura institucional.

Mensagem de novembro enviada pelo general Walter Braga Netto (PL), ex-ministro da Defesa e postulante a vice de Bolsonaro em 2022, mostra até que ponto haviam chegado as tensões diante da divisão entre os comandantes das Forças.

Ele chama o então comandante do Exército, Marco Antônio Freire Gomes, de “cagão” e o então comandante da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Júnior, de “traidor da pátria”.

Esse contexto ajuda a entender outras frases de Bolsonaro a seus apoiadores naquele 9 de dezembro.

“As Forças Armadas devem, assim como eu, lealdade ao nosso povo, respeito à Constituição, e são um dos grandes responsáveis pela nossa liberdade”, disse.

“As decisões, quando são exclusivamente nossas, são menos difíceis e menos dolorosas, mas, quando elas passam por outros setores da sociedade, elas são mais difíceis e devem ser trabalhadas. Se algo der errado, é porque eu perdi a minha liderança. Eu me responsabilizo pelos meus erros, mas peço a vocês: não critiquem sem ter certeza absoluta do que está acontecendo.”

Apesar das dificuldades, naquele dia, segundo a decisão de Moraes, Bolsonaro parecia ainda não ter jogado a toalha em relação a uma intervenção militar.

“Hoje estamos vivendo um momento crucial”, disse a apoiadores.

“Quem decide para onde vai as Forças Armadas são vocês. Quem decide para onde vai a Câmara, o Senado, são vocês também. Se temos críticas, erramos, não tivemos o devido cuidado para escolher a pessoa certa, mas as coisas vão mudando.”

Por volta do mesmo horário em que o presidente falava diante do Alvorada, seu ajudante de ordens mandava áudio com informações relevantes para o então comandante Freire Gomes.

Conforme os registros que constam da decisão de Moraes, a mensagem foi enviada às 15h35, menos de uma hora após a seleção perder o jogo para a Croácia nos pênaltis.

Nela, Cid diz a Freire Gomes que “o presidente tem recebido várias pressões para tomar uma medida mais, mais pesada onde ele vai, obviamente, utilizando as Forças”.

“É hoje o que ele fez hoje de manhã?”, continua Cid. “Ele enxugou o decreto né? Aqueles considerandos que o senhor viu e enxugou o decreto, fez um decreto muito mais, é, resumido, né?”

Segundo a Polícia Federal, a investigação revelou que, inicialmente, a minuta de decreto determinava a realização de novas eleições e a prisão de Moraes, do também ministro do STF Gilmar Mendes e do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

Posteriormente, diz a PF, foram feitas alterações no texto a pedido de Bolsonaro, mantendo-se apenas a previsão de novas eleições e a prisão de Moraes.

A transcrição do áudio de Cid a Freire Gomes mostra ainda que o então ajudante de ordens afirma que Bolsonaro receberia naquele dia o general Teophilo, tido como um dos mais próximos do bolsonarismo radical.

Segundo Cid, o presidente iria “desabafar” e “desopilar”, em meio à tensão por estar “preso” no Alvorada.

Fez mais que isso, segundo a decisão de Moraes. Naquele mesmo dia 9, segundo a PF, diálogos encontrados no celular de Cid mostram que Teophilo concordou com a adesão ao golpe de Estado, desde que o presidente assinasse a medida.

Por volta de 19h, a reunião ainda estava acontecendo, segundo mensagem do ajudante de ordens a outro interlocutor.

Teophilo foi alvo de buscas na operação realizada pela PF na quinta-feira (8). A PF investiga se o Comando de Operações Terrestres do Exército, à época chefiado por ele, preparou um plano operacional para cumprir eventuais ordens que Bolsonaro determinasse no decreto golpista.

ANGELA PINHO / Folhapress

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS