BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – “Drommer” começa com um devaneio adolescente. Johanne se sente como uma nuvem, às vezes carregada, às vezes leve, fragmentada ou mesmo invisível. Soa raso, mas aos 16 anos qualquer coisa mais profunda também pode significar preocupação, ao menos para os adultos em volta. Por exemplo, se no lugar das nuvens surgir algo mais intenso, como uma forte paixão pela nova professora da escola -que se transforma em relação.
A premissa do filme do norueguês Dag Johan Haugerud, exibido nesta semana na mostra competitiva do Festival de Berlim, parece complexa, só que os confrontados aqui são os adultos. Johanne sofre, mas por amor, como qualquer adolescente pela primeira vez apaixonada. É o que ela deixa claro em escritos de alta qualidade que acaba por mostrar a sua avó, uma poeta.
A coisa, é claro, rapidamente chega à mãe. Amor ou abuso? É real ou ficção o que ela escreveu? Johanne realmente transou com uma mulher muito mais velha que ela?
“Drommer”, sonhos, é a terceira parte de uma trilogia de Haugerud. As duas primeiras são “Sex” e “Love”, do ano passado, que também compõem o nome deste terceiro filme em inglês, “Dreams (Sex Love)”. Não são os sonhos apenas de Johanne que estão em cena, mas os de sua mãe e de sua avó. Envolvem sexo e amor, mas também outros muitos sentimentos. O livro que a adolescente escreveu parece bom demais para ser apenas uma invenção, um sonho.
Haugerud mostra as nuvens carregadas de Johanne, interpretada por Ella Overbye, com impressionante delicadeza. Apenas essa condução já vale o filme.
Suave também é a descrição das relações familiares em “What Does that Nature Say to You”, de Hong Sang-soo, também na competição oficial da Berlinale. O novo filme do prolífico cineasta sul-coreano, um veterano em Berlim, com dois Ursos de Prata de direção, não foge à regra de sua obra, com planos longos, zooms pontuando cenas e a câmera propositalmente em baixa resolução.
Não é a primeira vez que Hong usa o recurso, mas desta vez a imagem levemente borrada se refere à miopia do personagem principal. Parece exagero estético, mas o resultado é interessante, como a textura de um quadro.
Dongwha é poeta e vem de uma família de posses, mas vive de maneira frugal. Ao levar a namorada, Junhee, para a casa dos pais dela, se surpreende com o tamanho da residência. Ela sugere que o rapaz entre para conhecer. É a chance de o apresentar aos pais, já que namoram há três anos.
Um a um, Dongwha vai conhecendo os habitantes da casa, em longos diálogos, marcados por uma sinceridade que, afável no começo do dia, começa a se acumular e pesar com o passar do tempo. Registrar a dinâmica das relações é mais interessante para Hong do que o seu resultado.
O 75º Festival de Berlim define os vencedores neste sábado, e o brasileiro “O Último Azul” concorre na mostra competitiva.
JOSÉ HENRIQUE MARIANTE / Folhapress
