Hospital público do Rio Grande do Norte tem surto de bactérias e oito mortes entre pacientes

O surto de bactérias acontece em um momento crítico da saúde pública, a pasta acumula uma dívida de R$ 545,31 milhões com fornecedores e prestadores de serviço.

Imagem: pexels

Um surto de bactérias multirresistentes foi registrado em um hospital estadual do Rio Grande do Norte. Entre maio e julho deste ano, foram infectados 15 pacientes internados no Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho, em Macaíba, na região metropolitana de Natal. Oito deles morreram, de acordo com relatório do Núcleo de Segurança do Paciente da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) concluído neste mês.

O documento aponta que a maioria das infecções ocorreu dentro da unidade, mas que os quatro primeiros casos foram registrados em pacientes transferidos de outras unidades.

As bactérias identificadas no hospital são a Pseudomonas aeruginosa, a Acinetobacter baumannii e a Klebsiella pneumoniae. Um dos pacientes, infectado por duas delas enquanto estava na UTI, morreu em 22 de julho. A última morte ocorreu em 28 de julho.

No dia 14 de junho foi registrada a primeira infecção ocorrida dentro do hospital, ainda segundo o relatório, que aponta um “cenário grave de infecções e colonizações, culminando na ocorrência de oito óbitos”. A secretaria afirma, no entanto, que as mortes estão sendo investigadas e ainda não é possível concluir que têm relação com as bactérias.

A contaminação é atribuída a uma série de falhas estruturais, operacionais e assistenciais do hospital. Segundo o relatório da Sesap, equipes da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar e do Núcleo de Segurança do Pacientes identificaram “severa fragilidade operacional e processual” na UTI e na Clínica Médica, os dois setores afetados na unidade.

Entre os problemas relatados estão manejo inadequado de dispositivos invasivos, como acesso e sondas; déficit crônico de recursos humanos, com carga excessiva para os profissionais; infraestrutura e equipamentos comprometidos, com presença de mofo nas paredes da enfermaria; ineficácia técnica dos processos de limpeza; falta de leitos de isolamento; e constante de revezamento e circulação de cuidadores entre diferentes leitos nas enfermarias, entre outros.

A secretaria de Saúde Pública afirma que um plano de ação foi colocado em prática em maio, quando a primeira contaminação foi identificada. A pasta diz ainda que a situação é considerada controlada desde o dia 12, quando o hospital completou 15 dias sem novas infecções –o período é definido pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Segundo o infectologista Klinger Faíco, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), as bactérias multirresistentes são imunes a diferentes tipos de antibióticos que normalmente poderiam ser utilizados para o tratamento. “Não significa que nenhum antibiótico funcione. Significa que o número de opções terapêuticas disponíveis é reduzido, podendo tornar o tratamento mais difícil, mais tóxico, mais caro ou menos efetivo”, afirma.

Saúde em crise no RN

O surto de bactérias no Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho acontece em um momento crítico da saúde pública do Rio Grande do Norte. A pasta acumula uma dívida de R$ 545,31 milhões com fornecedores e prestadores de serviço, segundo relatório apresentado em julho ao Ministério Público Estadual em julho.

No primeiro semestre deste ano, o Estado destinou apenas 7,04% das receitas em saúde, a menor aplicação de recursos próprios dos últimos dez anos. A Sesap afirma que priorizou o pagamento de dívidas no período e que adota medidas para cumprir até o fim do ano o mínimo de 12% estabelecido pela Constituição para despesas em saúde.

Em um vídeo publicado em julho, o secretário Alexandre Motta afirmou que priorizar o pagamento da dívida não tem impactado os serviços. “A saúde continua funcionando de forma adequada, os hospitais continuam sendo, mesmo com as dificuldades eventuais, abastecidos, e o nosso fluxo de atendimento não parou e nem deixou de ser realizado para nenhum paciente”, afirmou.

 

LUIZ HENRIQUE GOMES / Folhapress

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