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Itália perde posições em ranking de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras

MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) – A imprensa da Itália vive um momento conturbado, no qual a gestão da premiê Giorgia Meloni tem sido acusada de aparelhamento crescente da mídia estatal e de ingerência editorial. A queixa chegou ao ápice nesta segunda (6), com uma paralisação de funcionários da RAI, a TV estatal italiana.

O quadro coincide com a recente divulgação do ranking mundial da liberdade de imprensa elaborado pelo ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), no qual o país caiu cinco posições, passando de situação satisfatória para problemática.

Na categoria anterior, a Itália era acompanhada por outros países da Europa Ocidental, como Alemanha, França e Espanha. Agora passa a fazer parte do grupo da Hungria, onde o primeiro-ministro Viktor Orbán controla a mídia, com a ajuda de aliados.

Enquanto os italianos caíram para o 46º lugar no ranking de 2024, divulgado na semana passada, os outros cinco fundadores da União Europeia –Alemanha, Bélgica, França, Holanda e Luxemburgo–, subiram. “Os problemas na Itália com a independência das mídias pública e privada sempre existiram, mas eles cresceram no ano passado”, diz à Folha Pavol Szalai, diretor da RSF responsável pela Europa.

“Nos outros fundadores da UE, as emissoras públicas são independentes, a máfia não ameaça a vida de jornalistas e não surgiram legislações que minam o jornalismo. Eles têm um nível maior de liberdade de imprensa”, afirma Szalai, citando questões que afligem o cenário italiano.

Entre as razões para a piora do desempenho italiano, o diretor cita nomeações politizadas para a cúpula da RAI, a emissora de TV pública, e o aumento de pressões políticas sobre os canais estatais. Outro aspecto é uma espécie de “lei da mordaça”, em fase de implementação, que impede a publicação pela imprensa de ordens de detenção provisória até o final da audiência preliminar, limitando reportagens sobre casos judiciais. A RSF cita ainda o caso de um parlamentar do partido governista Liga, já controlador de três jornais, que tenta comprar a agência de notícias AGI.

Mas é a situação da RAI que chama a atenção nas últimas semanas. Os jornalistas da emissora pública entraram em greve em protesto contra condições de trabalho e o que chamam de “controle asfixiante sobre o trabalho jornalístico” realizado pela cúpula dos canais, cujos cargos mais importantes foram ocupados por indicados do governo da ultradireitista Giorgia Meloni.

O protesto, com duração de 24 horas, até a manhã desta terça, contou com adesão da maioria dos jornalistas, representados pelo principal sindicato dos funcionários da emissora, o Usigrai.

Durante o dia, a programação dos canais RAI 1 e RAI 2 foi alterada, embora sem a suspensão completa dos telejornais ao vivo. Jornalistas de outro sindicato comandaram bancadas e reportagens, enquanto no canal Rainews24 foram exibidos programas não noticiosos com o aviso de que foram “gravados antes da greve”.

“Os motivos do protesto são o controle asfixiante sobre o trabalho jornalístico, com a tentativa de reduzir a RAI a megafone do governo, a carência de funcionários em todas as redações e o não da empresa a uma seleção pública de jornalistas”, anunciou o Usigrai, em nota.

“Em mais de 20 anos, nunca sofri pressões e censuras como as que tenho sofrido neste período”, disse a jornalista Enrica Agostini, um dos rostos mais conhecidos da cobertura política da Rainews24. “A política hoje não quer o confronto com as perguntas. Não fazemos mais perguntas, mandamos vídeos de pura propaganda”, disse ela durante entrevista coletiva dos grevistas.

Em comunicado transmitido nos telejornais, a RAI afirmou que os motivos da greve não têm a ver com o direito dos trabalhadores, mas são “ideológicos e políticos”. “Nenhuma censura foi feita à informação e convidamos o Usigrai a parar de promover fake news que geram danos à imagem da empresa.”

O movimento dos profissionais da RAI recebeu apoio público das redações de canais privados, como o Sky Tg24, e dos principais jornais italianos, como o La Repubblica e o Corriere della Sera.

Um dos estopins para a greve foi o cancelamento da participação do escritor Antonio Scurati na programação da emissora para a Festa da Liberação, em 25 de abril, quando são comemorados a queda do fascismo e o fim da ocupação nazista, em 1945. Autor do premiado “M – O Filho do Século” (ed. Intrínseca), sobre a chegada de Benito Mussolini ao poder, Scurati foi chamado para ler um monólogo, cancelado às vésperas pela cúpula da RAI.

“O grupo dirigente pós-fascista, tendo vencido as eleições de 2022, tinha diante de si dois caminhos: repudiar seu passado neofascista ou tentar reescrever a história. Sem dúvidas, escolheu o segundo”, diz o texto, que viralizou nos dias que se seguiram.

Até mesmo Meloni publicou a íntegra da mensagem em suas redes sociais, negando que a decisão da emissora tenha sido uma censura e alegando motivos econômicos.

Para a oposição, a RAI passou a ser uma “Tele Meloni”, com o serviço público transformado em porta-voz do governo. Para a primeira-ministra, trata-se de um reequilíbrio, depois de anos em que ela e seu partido, Irmãos da Itália, foram, na sua visão, ignorados. “Quem sempre foi condenado ao ostracismo e censurado pelo serviço público nunca pedirá a censura de ninguém”, escreveu Meloni na publicação sobre o caso Scurati.

Para Szalai, da Repórteres Sem Fronteiras, há um “risco de orbanização” da Itália, do ponto de vista da liberdade de imprensa, mas este é ainda um cenário distante. “Existe uma comunidade jornalística muito forte, o que é possível ver com essas greves e com a atuação de entidades e sindicatos. Não é o caso na Hungria, que é um deserto de democracia, onde Orbán também controla instituições como o Judiciário.”

Segundo ele, a Itália precisa de uma reforma profunda que garanta mais independência financeira e editorial para os canais de TV públicos, em linha com a nova Lei Europeia de Liberdade dos Meios de Comunicação, recém-aprovada na UE.

MICHELE OLIVEIRA / Folhapress

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