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João Batista Natali acompanhou 1ª visita de um papa a Cuba; leia reportagem

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Morto na madrugada deste sábado (21) em São Paulo em decorrência de complicações de um câncer, o repórter, editor e colunista João Batista Natali participou uma série de coberturas marcantes ao longo de mais de quatro décadas em que trabalhou na Folha.

Uma delas foi a viagem de João Paulo 2º a Havana, a primeira de um papa a Cuba, que ele acompanhou de perto em 1998.

O clima era de incerteza. Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e da própria União Soviética, em 1991, pairava a suspeita de que a combalida ilha, alvo de embargos econômicos desde os anos 1960, seria a próxima a cair.

A ida de João Paulo 2º, que nas duas décadas anteriores tinha proferido palavras duras contra o comunismo na Europa na sua Polônia natal, parecia ter menos um objetivo religioso e mais político, escreveu Natali.

Ao chegar na capital, Havana, porém, o pontífice foi muito mais comedido do que o esperado, e poupou até mesmo o dirigente Fidel Castro (1926-2016) em certa medida. Leia abaixo o relato do início da visita na íntegra, publicado em 22 de janeiro de 1998.

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O papa João Paulo 2º não esperou chegar a Cuba para dar sua primeira declaração de teor político.

No avião que o levava a Havana, na tarde de ontem, ele disse que se preparava para se manifestar sobre os direitos humanos durante a visita que começou ontem e vai até domingo.

“Vocês sabem bem o que eu penso sobre os direitos humanos. É o mesmo que eu disse na Polônia e em outros países desde 1979. Os direitos humanos são direitos fundamentais e a base de toda a civilização. Levei esta crença à Polônia no meu embate com um sistema comunista totalitário.”

A referência à Polônia, seu país natal, não é casual: o combate ao comunismo, especialmente ao então rígido regime polonês, foi o principal mote da primeira parte de seu pontificado, que em 1998 completa 20 anos.

Essas declarações demonstram que a viagem pode ser menos pastoral (e portanto mais política) do que vinha anunciando, por exemplo, o cardeal-arcebispo de Havana, dom Jaime Ortega.

Os repórteres quiseram saber se sua viagem significaria o começo do fim do comunismo na ilha. “Não sou profeta. Quem viver verá”, respondeu o papa.

Mas em pronunciamento de 14 minutos ao desembarcar ontem em Havana, João Paulo 2º usou expressões bastante amenas ao criticar o regime comunista cubano.

O papa se referiu às “circunstâncias difíceis” e aos “sofrimentos” da igreja local, sobretudo em razão da falta de sacerdotes.

Sem criticar o regime local, pediu que Cuba possa “oferecer a todos uma atmosfera de liberdade, de confiança recíproca, de justiça social e de paz duradoura”.

O dirigente Fidel Castro tentou roubar a cena. Disse em seu discurso que Cuba é o país com melhores indicadores sociais (menos crianças sem escola ou enfermos sem hospitais) “que qualquer outro” que o papa já visitou.

Todo o protocolo montado pelo governo cubano consistiu em fazer do papa bem mais um chefe de Estado estrangeiro –o Vaticano– que um dirigente espiritual.

O papa aparentava estar bem de saúde. Desceu a escada do MD-11 mais rapidamente que o fizera há meses no Rio. Curvou-se sem dificuldades para beijar quatro crianças que o esperavam na pista.

Críticas aos EUA

Durante o voo, o papa também fez referências críticas à posição americana em sua disputa ideológica com Cuba. Um jornalista perguntou qual era a mensagem que ele enviaria a Washington. “Que mudem”, foi a resposta.

Era uma referência ao embargo econômico contra Cuba, iniciado em 1962 e frequentemente questionado pelo Vaticano.

A reação dos Estados Unidos foi dizer que o embargo “é uma questão da lei americana que recebe forte apoio bipartidário”, segundo comunicado do Departamento de Estado.

O papa também fez referência ao maior herói do comunismo cubano, o guerrilheiro argentino Ernesto “Che” Guevara. “Ele desejava seguramente ajudar os pobres. ‘Che’ se acha agora diante do tribunal do Senhor, deixemos com Ele a tarefa de julgá-lo.”

Do presidente Fidel Castro, o papa disse que espera ouvir “a verdade” –“Sua própria verdade como homem, como presidente, o chamado comandante da revolução”, disse ainda no avião.

João Paulo 2º, 77, fez um comentário irônico sobre sua saúde. Admitiu que ela já não é mais a mesma do início do pontificado. Mas provocou: “Quando quero saber de minha saúde, leio os jornais”.

Redação / Folhapress

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