Uma semana depois de Ribeirão Preto viver um dos maiores temporais de sua história recente, que deixou uma pessoa morta, centenas de árvores derrubadas e levou a prefeitura a decretar estado de emergência, o Parque Permanente de Exposições reuniu milhares de pessoas. Com tempo firme e sol forte, o João Rock recebeu cerca de 65 mil espectadores neste sábado (1º), em uma edição com ingressos esgotados.
O resultado representa uma recuperação em relação ao ano passado, quando o festival não conseguiu vender toda sua capacidade. Depois de uma edição marcada pelo público reduzido, o João Rock voltou a lotar, reafirmando sua posição como um dos principais festivais dedicados exclusivamente à música brasileira.
Distribuído entre os palcos João Rock, Brasil, Aquarela, Fortalecendo a Cena e Eisen Rock Station, o festival reuniu mais de 30 atrações de diferentes gêneros. Ainda assim, a edição de 2026 apresentou um retrocesso na presença feminina. Apenas seis artistas eram mulheres, contra dez no ano anterior. No maior palco, o João Rock, não houve nenhuma apresentação feminina. As artistas permaneceram concentradas quase integralmente no Aquarela, espaço dedicado às mulheres.
Quem abriu o palco principal foi Chico Chico, seguido por Lagum e Detonautas, banda que aproveitou o festival para estrear a turnê do álbum “Rádio Love Nacional”. Entre sucessos como “Você Me Faz Tão Bem”, “Só por Hoje” e “Outro Lugar”, o vocalista Tico Santa Cruz fez um discurso sobre espiritualidade e criticou o excesso de tempo gasto nas redes sociais.
“Se Deus não estiver em você, ele não vai estar na igreja, no pastor, no padre, em nenhum líder religioso”, afirmou o cantor antes de pedir que o público se abraçasse. Antes, disse ter percebido que estava “se intoxicando” com o excesso de telas e que passou a priorizar o convívio com as pessoas próximas.
O momento mais contemplativo da programação veio com Zé Ramalho. Aos 77 anos e celebrando cinco décadas de carreira, o paraibano mostrou que poucos recursos bastam quando o repertório atravessa gerações. Com formação enxuta, violão, saxofone, teclado, bateria e contrabaixo, apresentou clássicos como “Beira-Mar”, “Táxi Lunar”, “Avôhai”, “Vida de Gado” e encerrou com “Sinônimos”, mais conhecida na voz de Chitãozinho & Xororó.
Na sequência, Alceu Valença reafirmou o espaço de encontro entre o rock e a música nordestina. Abriu com “Que Grilo Dá”, passou por “Pagode Russo”, “Estação da Luz”, “Girassol”, “Flor de Tangerina”, “Pisa na Fulô” e “Belle de Jour”, mostrando como guitarras, sanfona e flauta podem coexistir no mesmo espetáculo. Ao interpretar “Táxi Lunar”, fez questão de homenagear Zé Ramalho e Geraldo Azevedo, antigos parceiros de “O Grande Encontro”, embora uma reunião entre Valença e Ramalho no palco não tenha acontecido.
No palco Brasil, a Nação Zumbi, com duas alfaias, guitarra, baixo, bateria e percussão, apresentou um repertório centrado na obra de Chico Science, incluindo “Computadores Fazem Arte”, “Um Sonho”, “Cidadão do Mundo”, “A Praieira” e “Maracatu Atômico”. Houve poucas interações com o público, mas Jorge Du Peixe arrancou aplausos ao apontar para bandeiras de Pernambuco na plateia e afirmar que os pernambucanos são “muito bairristas”. Ao longo da apresentação, gritos de “Viva Chico” surgiam espontaneamente entre o público.
Já o palco Aquarela, contou com Marina Sena protagonizando um dos shows mais concorridos ao apresentar músicas do álbum “Coisas Naturais”, lançado no ano passado. Vestindo figurino metálico coberto por pedrarias, a cantora sustentou a apresentação com o magnetismo que marca sua nova fase artística. Foi também um dos poucos espetáculos do dia em que os leques, cada vez mais populares em shows com público LGBTQIA+, apareceram em peso entre os espectadores.
Foi justamente na transição entre o encerramento do show de Marina Sena e o início da apresentação de Djonga que ficou evidente um problema na infraestrutura do festival. Dispostos perpendicularmente um ao outro, os palcos Aquarela e Fortalecendo a Cena atraem públicos distintos, e a movimentação simultânea de milhares de pessoas entre os dois espaços acabou provocando pontos de estrangulamento, dificultando a circulação.
Ainda se apresentaram no Aquarela as cantoras Urias, Rachel Reis, Luedji Luna e Ana Carolina.
No Fortalecendo a Cena, Djonga reuniu uma plateia visivelmente mais jovem do que a observada no palco principal. O rapper apresentou sucessos como “Fome”, “Real Demais”, “Hat-Trick”, “Penumbra” e faixas de “O Menino que Queria Ser Deus”, reafirmando a força do hip-hop dentro do festival, que ainda contou com a presença de Ajullicosta, Criolo, Marcelo D2 e Rael.
Veterano na programação do festival, o CPM 22 esteve presente na primeira edição do João Rock e também na de 2024. Agora, a banda apresentou a turnê comemorativa de seus 30 anos de carreira. Clássicos como “Tarde de Outubro”, “O Mundo Dá Voltas” e “Um Minuto para o Fim do Mundo” embalaram o público, com participação especial de Di Ferrero na reta final do show.
Se em 2025 o debate girava em torno da dificuldade de atrair público em um cenário de saturação dos grandes festivais, a edição de 2026 mostrou que o João Rock recuperou sua capacidade de mobilização. Ao mesmo tempo, expôs um desequilíbrio que vai na contramão das discussões recentes sobre diversidade. Enquanto o festival voltou a lotar, a presença feminina diminuiu e permaneceu praticamente restrita a um palco secundário, deixando o principal dominado por atrações masculinas.
NADINE NASCIMENTO / Folhapress
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