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Juro deveria ter sido maior na crise de Dilma, e Copom precisa seguir vigilante, dizem ex-BCs

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O Copom (Comitê de Política Monetária) elevou na última quarta-feira (19) a taxa básica de juros (Selic) ao mesmo nível atingido durante a crise do governo de Dilma Rousseff (PT), de 14,25% ao ano. Apesar de a preocupação fiscal ser um ponto comum dos dois momentos, a conjuntura econômica tem diferenças.

A combinação conhecida como “estagflação” —quando o país mergulha em recessão e, ao mesmo tempo, convive com preços em alta— foi a principal marca dos meses que precederam o impeachment da petista. Atualmente, o cenário doméstico é de atividade econômica forte, taxa de desemprego na mínima histórica e inflação acima do teto, mas em um patamar mais baixo conforme a exigência de metas menores.

Ex-diretores do Banco Central ouvidos pela reportagem avaliam, retrospectivamente, que a política monetária foi insuficiente para evitar o cenário de inflação nas alturas e recessão econômica em 2015 e 2016 e que o juro deveria ter sido ainda mais alto na época.

Tony Volpon, ex-diretor do BC (2015-2016) e professor-adjunto da Georgetown University, vê a preocupação fiscal dos economistas e a deterioração das expectativas de inflação como pontos de semelhança entre os dois momentos distintos da economia brasileira.

Ele ressalta que o governo trabalhou, pela primeira vez, com uma meta de déficit primário no projeto de Orçamento de 2015 (de R$ 51,8 bilhões, podendo chegar a R$ 119,9 bilhões) e que havia dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida pública –ainda que o patamar de endividamento do país fosse inferior em relação aos dias atuais.

Já o restante da conjuntura era bastante diferente, na visão dele. Volpon cita a então queda dos preços dos commodities, provocada especialmente pela transição econômica da China (importador desses produtos) e pela forte valorização do dólar frente a outras moedas.

Já o tombo do PIB, segundo o economista, não era previsível no início de 2015. “O mercado começou o ano relativamente otimista, não tinha uma recessão precificada [esperada] pelo mercado nem pelo governo, as coisas foram piorando ao longo do ano”, conta.

Em meados de 2015, o Copom disse em ata que o ritmo de expansão da atividade doméstica seria “inferior ao potencial”. “O investimento tem-se retraído, influenciado, principalmente, pela ocorrência de eventos não econômicos”. Mas o comitê adotava um tom otimista: “Depois de um período necessário de ajustes, o ritmo de atividade tende a se intensificar, na medida em que a confiança de firmas e famílias se fortaleça.”

Em 2015, último ano completo sob o comando de Dilma, o PIB (Produto Interno Bruto) encolheu 3,5% (dado revistado), enquanto os preços subiram 10,67%.

Neste contexto, a Selic ficou estacionada em 14,25% durante um ano e três meses, entre julho de 2015 e outubro de 2016, atravessando o impeachment de Dilma.

Em meio à crise econômica e política, o Brasil teve a nota de crédito rebaixada pela agência S&P (Standard & Poor’s) e viu a agência de classificação de risco Fitch Ratings retirar seu grau de investimento (selo de bom pagador).

Volpon, que integrava o Copom naquela época, conta que houve discussão sobre a elevação da Selic para além de 14,25% ao ano.

Por três encontros consecutivos –novembro de 2015, janeiro e março de 2016–, ele divergiu da maioria em defesa de um aumento de 0,5 ponto percentual, mas acabou derrotado. “Eu tinha em mente colocar a Selic em 16%. Não sei se ia conseguir, mas aquela subida inicial que a gente ia fazer em janeiro [de 2016] claramente não teria sido a única”, diz.

O economista relembra o episódio em que havia consenso no Copom para aumentar a taxa básica de juros até que o então presidente do BC, Alexandre Tombini, fez uma comunicação inusual na manhã do primeiro dia de reunião, comentando a projeção de retração para a economia brasileira do FMI (Fundo Monetário Internacional), de menos 3,5% em 2016.

Membros do PT, entre eles Luiz Inácio Lula da Silva (na época ex-presidente), pressionavam o BC sob o argumento de que uma alta da taxa de juros dificultaria a retomada do crescimento.

Para Reinaldo Le Grazie, sócio da Panamby Capital e ex-diretor do BC (2016-2018), o colegiado errou na condução da política monetária ainda antes, entre 2013 e 2014, devido aos efeitos defasados da alta de juros sobre a economia.

A Selic ficou estacionada em 11% ao ano de abril a outubro de 2014 –período eleitoral– e voltou a escalar apenas três dias depois da reeleição de Dilma, até atingir o pico de 14,25% ao ano em julho de 2015.

“Se tivéssemos feito uma política monetária mais adequada em 2014, a gente provavelmente não teria tido a recessão que nós tivemos”, afirma. “Quando [a Selic] subiu para 14,25%, a recessão já estava chegando pelo desequilíbrio total da política econômica”, acrescenta.

Entre os desequilíbrios, Le Grazie cita a política de preços da Petrobras no governo Dilma. Na época, a variação dos preços internacionais de combustíveis era repassada de forma defasada ao mercado interno, como forma de tentar segurar o aumento da inflação.

Ele também menciona a política parafiscal “brutal” do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que atuou como um dos principais impulsionadores de crédito do governo petista com a concessão de subsídios.

O economista calcula que, naquele período, o BC trabalhou com uma taxa de juros real muito baixa –o juro real hoje é quase o dobro da taxa esperada na época.

“A política monetária resultou em uma inflação de 10% e uma recessão de dois anos, que acumulou quase 8% do PIB [6,8% no dado revisado]. Foi tudo errado. […] Para derrubar aquela inflação, a gente teria que ter feito um juro mais alto”, diz.

Le Grazie evita criticar a gestão de Tombini e avalia que o ex-presidente do BC “fez o que deu para fazer” em um contexto em que a autoridade monetária ainda não tinha autonomia formal –em vigor desde 2021.

Para o ex-diretor do BC, embora o nível da Selic seja o mesmo nos dois períodos, a conjuntura econômica hoje é mais favorável. “O juro agora é muito mais restritivo. […] Ninguém está falando de uma recessão forte no Brasil. Estamos falando de desaceleração”, afirma.

A economia brasileira fechou 2024 com alta de 3,4% no acumulado do ano, mas perdeu ritmo no quarto trimestre, segundo dados do PIB (Produto Interno Bruto) divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

Le Grazie, contudo, alerta que o Copom deve seguir vigilante. “Se afrouxar a política monetária e se tiver um deslize de política econômica, a inflação aqui vai a 10%”, diz.

Com os dados de fevereiro, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acelerou para 5,06% no acumulado de 12 meses. Conforme o sistema de alvo contínuo em vigor, o BC prevê para junho um novo estouro do teto da meta (4,5%), depois de ter terminado 2024 acima do limite superior do alvo.

No cenário de referência do Copom, a projeção de inflação para este ano é de 5,1%, bastante acima do teto da meta. Para o terceiro trimestre de 2026 –período hoje na mira do BC–, a estimativa está em 3,9%.

NATHALIA GARCIA / Folhapress

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