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‘Levados pelas Marés’ faz inventário de 20 anos da China na Mostra de SP

(FOLHAPRESS) – Jia Zhangke é um retratista do seu tempo. Daí ele ser uma espécie de testemunha do instante, tal os historiadores. E tal Roberto Rossellini quando filmou “Roma, Cidade Aberta” em 1945, em ares ainda contaminados pela Segunda Guerra Mundial e suas violências.

A violência, aliás, está também nos filmes de Jia. E em várias formas. Seja um grupo de músicos sendo afetados pelas transformações vindas do alto —o governo da República Popular da China e seu projeto desenvolvimentista— em “Plataforma”, de 2000, ou todo um modo de vida e existência alterado, senão deslocado ou apagado, com o represamento da colossal hidrelétrica de Três Gargantas em Fengjie engolfando paisagens, lares, memórias e todo um estilo de vida em prol de uma “Nova China” em “Em Busca da Vida”, de 2006.

Mas o Rossellini de Jia Zhangke é mesmo o de “Viagem à Itália”, de 1954, que acompanha um casal em crise e, mais especificamente, a personagem de Ingrid Bergman sentindo o entorno, das obras de arte à paisagem. Porque o que importa mesmo para o cineasta chinês são as vidas e suas narrativas e sentimentos —o indivíduo e o meio ou, numa palavra, o tempo.

Esse tempo que comporta toda a experiência animal, vegetal e mineral aparece mais expandido em “Levados pelas Marés”, em cartaz na Mostra de Cinema de São Paulo. O filme acompanha, entre 2001 e 2022, a história de uma relação dissolvida pelas contingências materiais, ou seja, pela narrativa da vida. E entre a China enveredando no século 21 e seu colosso como potência econômica mundial.

Bin parte prometendo à namorada Qiaoqiao que a chamará quando acertar a vida. O sumiço faz com que ela parta atrás dele. A trajetória de Qiaoqiao, encarnada pela icônica atriz Tao Zhao, que está em quase todos os filmes de Jia, será novamente um meio encontrado pelo diretor para inventariar a China dessas duas últimas duas décadas. Num vagar errante e quase infinito bastante a ver com o neorrealismo italiano.

A busca de Qiaoqiao mostrará cidades ostentando grifes do capitalismo ocidental e outras, como a citada Fengjie e sua geografia, sendo apagadas pela empreitada desenvolvimentista. Entre um museu da época da Revolução Cultural de Mao Tsé-tung que, mesmo degradado, mantém suas atividades culturais como forma de resistência em pleno século 21 e a rua de uma Pequim embebida pelo ideário do ocidente capitalista ostentando lojas de grifes internacionais, tecnologia e música pop, está o estado de coisas dessa nova China.

Mas o que há de mais extraordinário neste “Levados pelas Marés” é a historicização que Jia Zhangke faz dessas duas décadas de China num arco temporal que perpassa seus filmes. A história de Qiaoqiao e Bin será contada, assim, pelos registros de época, materiais de filmes outrora feitos, os atores envelhecendo ao longo dos anos.

Veremos a narrativa desse país em registros de VHS ou câmeras digitais registrando a experiência entre seres e seus espaços naquele início de século. E outros, com o formato de tela mais largo e horizontal, que surge mais adiante com uma tecnologia da captação digital mais avançada. E, por conseguinte, avançando até a China de 2022 com o TikTok, robôs com inteligência artificial e a epidemia do Covid-19, máscaras etc. Uma gama de estéticas diversas inventariando a história de um país e suas vidas na aventura do século 21.

Não é um fetiche pela autenticidade, mas sim o diretor Jia Zhangke conseguindo extrair da experiência do mundo, entre natureza e tecnologia, uma forma cinematográfica. Uma estética que ascende do real, com corpos e rostos dos atores alterando-se com o tempo, com paisagens frutos da natureza e outras da tecnologia sendo adulteradas justamente por esse andar assombroso da história feita pelo homem.

“Levados pelas Marés” é o total comprometimento de um artista com seu instante no mundo, mais especificamente o da República Popular China. É uma espécie de insistência em capturar a condição de um país tal a dos seus personagens em resistir num eterno movimento mais conhecido como vida na Terra. É também uma espécie de autodescoberta, entender-se no mundo e com esse mundo.

LEVADOS PELAS MARÉS

– Avaliação Muito bom

– Quando Mostra de SP: Ter. (29), às 22h, no Frei Caneca

– Classificação Não indicada

– Elenco Zhao Tao, Liu Qiang, Liu Weixin

– Produção China, 2024

– Direção Jia Zhangke

PAULO SANTOS LIMA / Folhapress

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