RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Lucien Zahar Filho não presenciou a detenção de seu pai no auge dos anos de chumbo. Mas de tanto que ouviu a história da família, narra a cena como se tivesse estado lá.
“Era fim do dia e um caminhão do Exército parou aqui na porta. Tínhamos acabado de receber uma edição resumida de ‘O Capital’, de Karl Marx. Eles sabiam”, diz o proprietário da livraria Galáxia, no centro carioca. Ele é o último integrante de sua família no negócio dos livros -a editora Zahar e a livraria, que antes se chamava LER (Livraria e Editores Reunidos), foram fundadas por seu pai, Lucien, e seus tios, Jorge e Ernesto.
Diferentemente do ex-deputado Rubens Paiva, que inspirou o agora oscarizado “Ainda Estou Aqui”, o Lucien Zahar pai não chegou a ser torturado. Foi solto por intervenção de um cliente da livraria, que “era general mas frequentava a loja e gostava muito dos irmãos”, conta o filho.
Mas, assim como Paiva e outros dos personagens que surgem no filme -incluindo Fernando Gasparian, que depois criaria a livraria Argumento-, os Zahar foram perseguidos pela ditadura.
Não por acaso: fundada em 1956, a editora que traduziu e editou livros de nomes como Sigmund Freud, Jean-Paul Sartre e Eric Hobsbawm, passou a ser, nas décadas seguintes, referência na publicação de títulos das ciências sociais e humanas.
Não apenas gerações de intelectuais da oposição foram formadas e alimentadas por suas obras, como muitos destes personagens se reuniam no andar de cima da livraria, situada no mesmo prédio da editora, para longas conversas regadas a uísque.
“Nossa livraria ficava em frente ao Consulado dos Estados Unidos, próximo da Faculdade Nacional de Filosofia. Esta região do centro já foi bem rica e efervescente culturalmente, frequentada por intelectuais, políticos, a nata da inteligência”, conta Lucien, que manteve a pequena loja da família depois que a editora foi comprada pela Penguin Random House, em 2019, e transformada em um selo da Companhia das Letras.
A Galáxia de hoje tem a cara e o jeito da LER de outrora. Os títulos seguem trazendo o suprassumo da sociologia, filosofia, economia, política e artes. Ali estão as mesmas estantes até o teto, a mesma escada de madeira, o mesmo letreiro ao fundo com o nome da livraria, um antigo peso de papel de vidro com o nome Lucien -do pai.
Além disso, o papel com que Lucien embrulha cuidadosamente os livros ainda traz o número de telefone da livraria com sete dígitos. Um convite à nostalgia.
Avesso às novas regras da modernidade, Lucien não se rendeu à venda pela internet e nem às redes sociais. Fala com tristeza do baque sofrido com o advento da Amazon e das megalojas.
Se há dez anos conseguia vender 1.400 livros por mês, hoje a conta mal chega a 300 exemplares. À moda antiga, o livreiro é daqueles que conhece bem o seu acervo e gosta de conversar com os clientes sobre as obras. Sobrevive naquele espaço congelado no tempo por amor.
“Como a loja é própria, consigo seguir. Mas mantenho o negócio por prazer, gosto de vender leitura. No dia que for para fechar, fecho”, conclui.
No país que lê cada vez menos -a sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou que, só nos últimos quatro anos, o país perdeu 7 milhões de leitores-, vender livros, sobretudo em lojas de rua, é resistência.
No centro do Rio, ainda existem sebos e livrarias abertos em meados do século passado como a Galáxia. Mas são cada vez mais raros. A pandemia levou embora espaços como a tradicional livraria e sebo São José, com seus 85 anos de história.
A Elizart, sebo fundado em 1952 por Manoel Mattos, é hoje mantida por seus netos, Ana Cristina de Melo Pinho e Arthur Reis, com táticas de guerrilha. O sobrado na avenida Marechal Floriano, de propriedade da família, mostra sinais da mudança dos tempos.
A placa de “vende-se” esquecida no alto da fachada há anos, os pisos hidráulicos quebrados, as pilhas de livros nunca catalogados que seguem em um canto, o trânsito de clientes cada vez mais raro -tudo dá conta de um presente que nem de longe se assemelha ao passado de glórias da livraria, frequentada por nomes como Nei Lopes, Ruy Castro e Paulinho da Viola.
Mas ainda há pérolas guardadas no acervo de quase 40 mil livros, que já foi especializada em livros técnicos sobre o Rio de Janeiro. Vendido a R$ 5.000, está lá um dos únicos 250 exemplares já publicados de uma edição do Plano Agache, sobre a construção e remodelação da avenida Presidente Vargas.
“A rua mudou muito. Com a construção do VLT, muitas lojas fecharam, não há mais circulação. O home office, na pandemia, tirou de vez as pessoas da região. Tem dia em que só vendemos livros virtualmente”, lamenta Ana Cristina, que passou a investir, desde setembro do ano passado, em novos canais de venda pela internet, como Mercado Livre e Shopee. “Seguimos lutando.”
Um recálculo de rota foi o que fez reviver a livraria Leonardo Da Vinci, instalada no subsolo do edifício modernista Marquês do Herval, na avenida Rio Branco, um projeto dos irmãos MMM Roberto.
Em seus 72 anos de história, a livraria já passou por maus bocados, de crises a ameaças de fechamento, sendo a mais recente em 2015. Mas ela foi mais uma vez salva naquela ocasião, tendo sido comprada e reformada pelo editor Daniel Louzada.
Uma das principais ações dele foi mudar o modelo de negócios da livraria. Antes, ela se baseava em importados, o que “não pagava mais as contas”, diz o proprietário. Hoje, a Da Vinci trabalha apenas com livros brasileiros.
Louzada também montou um bistrô no espaço para ajudar a pagar as contas e mantém uma intensa agenda de eventos nele -são mais de 150 por ano. Em 2021, criou uma editora Da Vinci, que já lançou dez títulos nas áreas de ciências sociais, e em 2024 lançou um podcast, “Subsolo”, apresentado por Louzada e pelo jornalista Leonardo Cazes. Novos tempos.
“De alguma forma, a história da livraria simboliza a história do país: a necessidade de administrar sucessivas crises em um ambiente desfavorável, sem nenhum apoio, em uma cidade que perdeu protagonismo e, mais recentemente, em um contexto de nivelamento por baixo e de espetacularização da cultura”, afirma.
“Felizmente, ela tem uma comunidade engajada que a sustenta, a apoia, e que foi responsável por sua sobrevivência. A Leonardo da Vinci é mais que uma livraria. É, modestamente, um grão de areia do país que pode ser”, conclui Louzada.
LIVRARIA GALÁXIA
Quando Seg. a sex., de 9h às 17h
Onde r. México, 31, Centro, Rio de Janeiro
Telefone (21) 2240-0926
ELIZART LIVROS
Quando Seg. a sex., de 9h às 18h; sáb, de 9h às 13h
Onde av. Marechal Floriano, 63, Centro, Rio de Janeiro
Telefone (21) 2263-7334
LIVRARIA LEONARDO DA VINCI
Quando Seg. a sex., de 9h30 às 18h30; sáb., de 10h às 13h30
Onde av. Rio Branco, 185, subsolo, Centro, Rio de Janeiro
Telefone (21) 2533-2237
PAULA LACERDA / Folhapress
