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Maracanã do atletismo, pista do Ibirapuera foi sucateada e enterrou sonhos olímpicos, dizem atletas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O Estádio Ícaro de Castro Mello, no Ibirapuera, é classificado pela comunidade do atletismo brasileiro como o templo brasileiro do esporte, o Maracanã da modalidade. Por lá, passaram campeões olímpicos e mundiais, que inclusive chegaram a morar dentro do complexo esportivo que abriga o estádio.

Nos últimos anos, no entanto, o equipamento esportivo tem sinais de abandono -em meio à tentativa de entregar o espaço à iniciativa privada–, o que prejudica a formação de novos atletas e a conquista de medalhas em competições.

Inaugurado em 1974 e tombado provisoriamente em 2021 pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o Ícaro de Castro Mello se viu no centro de uma polêmica nesta semana, ao ter sua pista de atletismo cedida pelo governo de São Paulo para a realização de uma corrida de carros.

A Ultimate Drift, responsável pela organização do evento, divulgou nas redes sociais o vídeo de um trator arrancando o piso emborrachado que revestia a pista. Foi o estopim para que a comunidade do atletismo se mobilizasse para impedir que o local tivesse desvirtuada por completa sua finalidade.

Diante da pressão da CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) e de atletas como a campeã olímpica Maurren Maggi, que morou e treinou no Ibirapuera, a secretaria voltou atrás e remanejou o evento automobilístico, que deve acontecer na área do estacionamento do complexo esportivo.

De acordo com o presidente da CBAt, Wlamir Campos, a última reforma da pista para a renovação do piso emborrachado aconteceu em 2010.

Embora a durabilidade de uma pista seja de aproximadamente dez anos, passados cerca de dois anos da intervenção, os problemas começaram a aparecer, com o surgimento de bolhas resultantes de infiltrações na base estrutural feita de concreto.

Responsável pela reforma, a empresa Recoma afirmou por meio de nota que a pista recebeu a certificação Classe 1 da WA (World Athletics), a associação internacional da modalidade.

“Há 45 anos no mercado, a empresa é líder neste segmento no Brasil e reconhecida internacionalmente pela qualidade dos seus produtos. Em todo o país, e ao longo de quase 30 anos, são mais de 70 pistas executadas com materiais aprovados pela World Athletics”, disse a Recoma.

Devido ao estado deteriorado do piso, a última competição oficial no local já está prestes há completar dez anos –o Campeonato Brasileiro mirim de atletismo, em 2015.

“Após a pista já ter apresentado alguns problemas, veio a gestão do ex-governador João Doria, que tinha a vontade de fazer a concessão do Ibirapuera à iniciativa privada. A partir desse momento, o estado deixou de fazer a manutenção do local”, afirma Campos. À época, o então governador apontou que o cuidado com o complexo gerava um custo anual de R$ 15 milhões aos cofres públicos. Procurado via assessoria de imprensa, João Doria não respondeu até a publicação deste texto.

Segundo o presidente da CBAt, na reunião que ocorreu na quarta-feira (14) entre representantes da modalidade e o governo paulista, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) reiterou que a restauração da pista de atletismo está entre as prioridades dentro dos planos de recuperação do complexo esportivo.

Em entrevista à Folha de S.Paulo na quinta-feira (15), a secretária de Esportes, coronel Helena Reis, afirmou que a reforma da pista de atletismo deve ocorrer somente após o término do processo de tombamento feito pelo Iphan.

“O objetivo da Secretaria é modernizar e adequar o Complexo Desportivo Constâncio Vaz Guimarães para o uso de toda comunidade esportiva e também para o recebimento de competições nacionais e internacionais, para transformá-lo em um centro de excelência do esporte”, disse a secretaria em nota.

Na sexta-feira (16), Tarcísio de Freitas defendeu a reversão do tombamento, com o objetivo de modernizar o espaço para competições esportivas.

Segundo o presidente da CBAt, hoje a pista de atletismo da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), em Cuiabá, tem as melhores condições para receber provas internacionais –o local sediará em maio o Campeonato Ibero-Americano de Atletismo, uma das principais competições da modalidade.

A pista da capital mato-grossense é revestida com um material emborrachado conhecido entre os esportistas como “mondo”, em referência à fabricante italiana responsável pelo produto.

Campos diz que se trata da tecnologia mais avançada hoje no esporte, utilizada nas últimas 14 edições dos Jogos Olímpicos. Ela é produzida com borracha natural e fabricada em rolos -em uma espécie de grande carpete- e é montada como se fosse um Lego ao longo de toda a pista.

No caso da pista do Ibirapuera, a composição é diferente, baseada em material asfáltico que é sobreposto em várias camadas com a aplicação de resina e borracha sintética granulada. Por isso, é possível identificar grandes blocos de asfalto nas imagens que circularam nas redes sociais de tratadores retirando a pista

Campeões e medalhistas olímpicos que treinaram e moraram no complexo esportivo enfatizam que a ausência do equipamento público prejudica o desenvolvimento de novos talentos e diminui as chances de medalhas do país nas Olimpíadas.

“A ausência do estádio reduz a formação de grandes atletas para um futuro próspero com medalhistas em Olimpíadas”, diz Maurren Maggi, ouro no salto em distância em Pequim-2008.

“Com certeza reduz as chances [de medalha] em qualquer esfera, não apenas em grandes competições. Além de ser uma referência histórica, o estádio é uma referência geográfica, que permitia aos atletas ter mais oportunidades de competir em alto nível”, diz Sandro Viana, bronze no revezamento 4×100 metros em Pequim.

O manauara saiu da capital amazonense para morar e treinar no complexo do Ibirapuera entre 2005 e 2007. Ele diz que o Ícaro de Castro Mello e o Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães como um todo estão para o esporte olímpico brasileiro assim como o Maracanã está para o futebol. “O complexo é como um pai para mim e vou defendê-lo para sempre.”

Maurren Maggi acrescenta que os treinos no estádio, ao lado de nomes referência na modalidade, como Robson Caetano, Arnaldo Oliveira e Marcelo Brivilati, serviu como motivação para que ela se desenvolvesse profissionalmente.

“Não seria campeã olímpica se não tivesse treinado e morado no Ibirapuera”, diz ela, que morou e treinou no espaço entre 1994 e 2000. Em 2011, ela voltou ao estádio para ficar com o ouro no Troféu Brasil.

Treinador do medalhista olímpico Vanderlei Cordeiro de Lima, Ricardo D´Angelo assinala que, entre 2002 e 2012, o Clube de Atletismo BM&F, por meio de um convênio com a Secretaria de Esportes, reformou a pista de atletismo e fez a gestão do espaço público.

“Talvez a solução seja essa, algum tipo de parceria com CBAt, COB, Ministério do Esporte e empresas privadas para que direcionem seus investimentos na reconstrução do estádio e restabeleçam a importância do equipamento para o atletismo brasileiro e, por fim, invistam no legado que o estádio trará para o esporte brasileiro”, diz D´Angelo.

LUCAS BOMBANA / Folhapress

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