O ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite é alvo de mandado de prisão temporária, por 30 dias, em uma operação realizada nesta quinta-feira (17) para combater núcleos do PCC (Primeiro Comando da Capital) relacionados a empresas do transporte público paulistano. Ele não foi localizado pelos investigadores em seus endereços.
Em conversa com a reportagem por telefone, o ex-vereador afirmou que está fora de São Paulo e que não está foragido. “Vou me entregar em 24 horas. Estou me organizando com meus advogados”, disse. Leite negou todas as acusações, como a de que seria o proprietário da empresa de ônibus Transwolf.
“Nego veementemente, não conheço ninguém do PCC nessa vida. A minha relação com o setor (de transportes) foi institucional, a pedido do então prefeito Bruno Covas. Não há nenhuma hipótese de eu ser dono [da Transwolf]. Nunca tive um carro. A Transwolf tem 600 cooperados, como eu sou dono de um grupo de 600 cooperados?”, disse.
A operação mira suspeitas de que empresas de ônibus que prestam serviço de transporte coletivo em municípios paulistas passaram a ser administradas por integrantes da facção após a obtenção de licitações. Há também suspeita de corrupção de funcionários públicos.
Ao todo, 16 pessoas são alvo das ordens de prisão e há mandados de busca e apreensão em 18 endereços. Um dos presos é Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans entre 2022 e fevereiro de 2022. A investigação apontou que ele teve encontros periódicos com José Daniel Satilite, outro investigado por susposta ligação com a facção, com a finalidade de tratar de interesses do PCC relacionados a empresas de transporte público.
Paulo Korek, ex-presidente do clube de futebol Água Santa e apontado como proprietário da empresa A2 Transporte, também é alvo da investigação.
Operação Vectura Corrupta é realizada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil, em cumprimento a mandados expedidos pela 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo e pela Vara Estadual de Garantias de Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Direitos.
A decisão judicial que autorizou a operação, assinada pelo desembargador Sérgio Ribas, aponta que Leite seria “o dono de fato” da Transwolff, acusada de lavar dinheiro para o PCC. A Transwolff nega a acusação. O magistrado afirma que Leite “é citado nominalmente por diversas vezes como responsável direto pela operação de algumas das empresas controladas pelo PCC”.
O nome do político havia aparecido em um inquérito da Corregedoria da Polícia Militar que apontava supostas conexões com PMs presos por trabalharem na escolta particular de dirigentes da empresa.
Na ocasião, em fevereiro, Leite foi chamado de “chefe” pelo sargento da PM Nereu Aparecido Alves em uma mensagem enviada a Cícero de Oliveira, diretor da Transwolff.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirma que a intervenção determinada pela gestão na Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida firme e decisiva para proteger o sistema municipal de transporte. “Desde o início das investigações, a prefeitura agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada.”
“A operação realizada nesta quinta-feira (17) reforça a gravidade dos fatos que motivaram as providências adotadas pela Prefeitura. A administração colabora integralmente com o Ministério Público, fornecendo todos os documentos e esclarecimentos necessários.”
A investigação é um desdobramento de outra operação, chamada Decúrio, realizada em agosto de 2024, quando foi identificada uma rede de informações mantida pelo PCC para manter a comunicação entre seus integrantes, inclusive os que estão presos.
Na ocasião, foram identificadas supostas lideranças do PCC vinculadas às chamadas “Sintonia Restrita” e “Sintonia dos Gravatas”, assim como um projeto de infiltração de agentes do crime organizado nas eleições municipais de 2024, com o lançamento de candidatos aos cargos em disputa.
Segundo os investigadores, foi identificada a contaminação, pelo crime organizado, de empresas de transporte coletivo de passageiros na capital e no interior, com a participação de parte dos investigados.
“Foram identificadas pelo menos 12 empresas de transporte coletivo de passageiros em operação na cidade de São Paulo que seriam controladas direta ou indiretamente pelo PCC, parte das quais já foram objeto de investigações anteriores por parte da Polícia Civil do Estado de São Paulo e do Ministério Público, inclusive com denúncias já ofertadas”, diz a Promotoria.
Outra ponta da apuração é o suposto envolvimento do PCC no financiamento de campanhas nas eleições para prefeitos e vereadores em 2024, assim como na atual disputa. A ação é realizada em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.
Leite é considerado figura influente da política paulistana, com eixo de atuação que vem da zona sul da cidade.
Ele foi o presidente mais longevo da Câmara desde a redemocratização, comandando o Legislativo da cidade em 2017 e 2018 e de 2021 a 2024, quando decidiu não disputar um novo mandato de vereador.
O inquérito também apontava supostas relações financeiras e políticas entre o ex-vereador e a empresa de ônibus municipal, que teve o contrato cancelado após a Operação Fim da Linha, do Ministério Público, como mostrou a Folha de S.Paulo.
Em fevereiro, Leite afirmou que não conhecia o sargento e que ele nunca trabalhou em sua escolta.
Segundo depoimentos de policiais, a escolta pessoal de dirigentes da Transwolff era organizada pelo capitão Alexandre Paulino Vieira, que atuava na Assessoria Policial Militar da Câmara desde outubro de 2014.
Em interrogatório no dia 4 de fevereiro, um dos policiais presos em operação da Corregedoria, o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezario disse que acreditava que o capitão Alexandre havia sido indicado para coordenar a segurança de dirigentes da Transwolff por Milton Leite.
Relatório da Corregedoria também cita “estreitas ligações” do vereador com o capitão Alexandre, pelo período em que ele trabalhou no Legislativo municipal. Questionado na data, Leite afirmou que nunca indicou PMs para prestação do serviço na empresa e disse que o manteve no cargo após ele ter permanecido ali por outras duas gestões da Câmara Municipal.
Em nota em fevereiro, a Câmara Municipal afirmou que o capitão Alexandre “atuou ininterruptamente nas gestões de cinco presidentes” e que “não há nenhum registro que o desabone”.
Trajetória
Milton Leite foi vereador por sete mandatos, de 1997 a 2024.
Nas redes sociais, os últimos meses de Milton Leite têm sido de campanha pelos filhos Alexandre Leite, que concorre a deputado estadual, e Milton Leite Filho, a federal. Alexandre foi secretário de Relações Institucionais da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), cargo que deixou para disputar o pleito de outubro.
Apesar de não estar mais no cotidiano da Câmara, Milton Leite mantém atuação política. Em novembro de 2025, por exemplo, a Folha de S.Paulo noticiou que ele havia convocado parlamentares da bancada para reforçar o desejo de que o afilhado Silvão Leite (União) assumisse a presidência da Casa. Em dezembro, o vereador Ricardo Teixeira (União), mais próximo do prefeito, foi reeleito para o cargo.
Em junho de 2025, a Alesp (Assembleia Legislativa de SP) concedeu a Milton Leite o Colar de Honra ao Mérito Legislativo, considerada a maior honraria da Casa.
O colar foi entregue “em reconhecimento às contribuições de Leite em pautas como preservação de mananciais, desenvolvimento urbano e habitação, com foco em regiões da periferia paulistana, sobretudo na zona sul”, como descreveu a publicação oficial em site da assembleia.
Na ocasião, o político citou a origem humilde como vendedor de pão no bairro do M’Boi Mirim. Quando chegou à Câmara Municipal, seguiu como vereador por mandatos seguidos, tendo sido presidente por seis anos.
“A carreira política deve ser pavimentada por uma coisa muito importante: a palavra. Procure não dar a palavra, mas se der, honre e faça valer a sua palavra”, disse na oportunidade, conforme o registro da Alesp.
TULIO KRUSE E LEANDRO MACHADO / Folhapress

