SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Tem gente de olho nos minérios do Brasil e disposto a enfrentar a Vale para lucrar com eles, governadores torcem o nariz para a ideia do governo sobre ICMS e outros destaques do mercado nesta segunda-feira (10).
**BRIGA DE GENTE GRANDE**
Gigante e barulhento, o Brasil não passa despercebido (quase) nunca. As maiores mineradoras do mundo estão de olho no que o país pode oferecer e, para crescer aqui, estão dispostas a bater de frente com a Vale.
ENTENDA
O território brasileiro abriga reservas importantes de minérios que podem ganhar cada vez mais destaque nos próximos anos, com a expansão da tecnologia.
O ferro, o cobre e o lítio são exemplos.
A atividade está concentrada hoje em Minas Gerais e no sudeste do Pará. No segundo local, estão as cidades de e Canaã dos Carajás e Parauapebas, onde a Vale opera seus dois principais complexos minerários.
É de lá, segundo especialistas, que virá boa parte do minério responsável por descarbonizar a indústria mundial do aço, uma das mais difíceis de se livrar das emissões de combustíveis fósseis.
PRIMEIRO DESAFIANTE
A Rio Tinto, de origem anglo-australiana, é a segunda maior mineradora do mundo. Ela pesquisa a presença de lítio e titânio em Minas Gerais.
Hoje, a companhia não tem uma filial brasileira, mas trabalha aqui através de joint ventures com a Mineração Rio do Norte, que extrai bauxita no Pará, e a Alumar, que produz alumina no Maranhão. A Rio Tinto tem 22% da MRN e 10% da Alumar.
Uma joint venture é a junção entre duas empresas para criar uma terceira. Em geral, são criadas para cumprir um projeto específico em que as duas originárias desejam colaborar.
A empresa não quer perder tempo e amplia seus negócios na América Latina.
Terminou o processo de compra de US$ 6,7 bilhões da Arcadium Lithium, que tem minas de lítio na Argentina.
Opera joint ventures para coordenar projetos de extração de cobre no Peru e no Chile.
Muita calma nessa hora. A Rio Tinto ainda não bateu o martelo sobre de onde virá a diversificação do portfólio da empresa no Brasil, segundo a Jamile Cruz, responsável pela mineradora no país.
Mas tem aumentado seu foco em cobre, um mineral essencial para resfriamento de data centers e eletrificação. Pode ser um caminho escolhido aqui.
SEGUNDO RIVAL
A maior mineradora do mundo, BHP, também anglo-australiana. Ela tentou comprar a Anglo American, dona de uma das maiores operações de minério de ferro no Brasil.
A oferta, que acabou sendo recusada pelos britânicos, aconteceu poucos meses após a Vale adquirir 15% das operações brasileiras de ferro da Anglo American.
A tentativa de compra foi classificada como audaciosa por um membro do conselho de administração da Vale por ter ocorrido “na nossa porta”.
**AMIGOS, PERO NO MUCHO**
O vice-presidente, Geraldo Alckmin, anunciou na quinta-feira (6) que os impostos de importação de determinados alimentos seriam zerados.
Ele ainda pediu que os governadores considerassem reduzir o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços) de alguns produtos. A proposta não pegou bem entre os líderes estaduais o que detalharemos aqui.
RELEMBRE: Relembre: tentando driblar a inflação, o governo zerou a alíquota de itens considerados importantes para as famílias brasileiras.
Entre eles: carne, café, milho, óleo de girassol, óleo de palma (azeite de dendê), azeite de oliva, sardinha e açúcar.
Itens da cesta básica já têm os impostos de importação zerados.
Fantasmas do passado estão entre os principais motivos para os governadores não se entusiasmarem com a ideia do governo central.
A preocupação é que se repita no governo Lula o mesmo método usado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para baratear os preços dos combustíveis via redução do ICMS.
Na época, o Congresso Nacional aprovou a desoneração do ICMS dos combustíveis sem o abono dos estados, que tiveram uma queda brusca na sua arrecadação.
A perda de receitas acabou sendo mais tarde compensada em R$ 27 bilhões pelo governo federal após acordo homologado no STF (Supremo Tribunal Federal), já na gestão Lula.
QUE TI-TI-TI É ESSE?
Secretários de Fazenda ouvidos pela reportagem da Folha, na condição de anonimato, criticam a postura do vice-presidente.
Entre os críticos, há uma avaliação de que Lula e Alckmin deveriam ter chamado os governadores para uma reunião antes de tentar empurrar o problema para os estados.
Nas redes sociais, líderes de alguns estados reclamaram do pedido.
Ratinho Jr. (PSD), do Paraná, usou a oportunidade para ironizar o governo Lula.
Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul, também usou as redes sociais para falar que o ICMS dos produtos da cesta básica já é zerado no estado para as famílias “que mais precisam”.
Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, publicou um vídeo dizendo que em seu estado “já fazem a lição de casa há muito tempo”, se referindo ao fato de que itens da cesta básica são isentos do ICMS no estado.
**DESTEMIDO (?)**
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, recusou-se a descartar uma recessão ou uma piora da inflação no futuro. Ainda, defendeu as tarifas que aplicou e disse que não há motivo para reclamações sobre falta de clareza do seu governo.
CONTEXTO
Desde que assumiu a presidência dos EUA, Trump fez ameaças e aplicou tarifas à importação de diferentes produtos, oriundos de diferentes países.
O objetivo é estimular a produção industrial americana, em detrimento da importação de outros países. Fortalecendo a indústria, o republicano espera a geração de empregos.
Contudo, economistas se preocupam com a possibilidade de as novas medidas provocarem um aumento dos preços no país.
A inflação já está alta, no ponto de vista de muitos americanos. A perda do poder de compra nos últimos anos foi, inclusive, uma das principais pautas da campanha eleitoral de Trump.
TARIFAÇO
Na última semana, algumas tarifas entraram em efetividade após serem adiadas em fevereiro, como aquelas impostas a produtos vindos do México, do Canadá e da China.
Empresários e líderes globais reclamaram da falta de transparência do governo americano e da ausência de uma estratégia clara para guiá-los em alguns dias, taxas foram anunciadas, suspensas e adiadas, sem aviso prévio.
NO PASA NADA
O presidente insistiu que a indústria tinha “muita clareza” e atacou as “declarações simplistas” de empresas que expressavam confusão sobre seus planos.
“Elas sempre dizem isso isso é quase como uma declaração simplista elas sempre dizem: queremos clareza”, disse Trump em uma entrevista exibida no canal Fox News ontem.
Ele não descartou a possibilidade de uma recessão no país, mas destacou que isso faz parte de seu plano de redirecionar as cadeias produtivas para os EUA.
A divisão de Atlanta do Federal Reserve, o Banco Central americano, alertou para uma provável contração da economia no primeiro trimestre deste ano.
**DE ONDE VEM O SEU CAFÉ**
Seu café pode vir do Vietnã, da Etiópia ou da Colômbia, mas é provável que ele venha do Brasil quem sabe do Acre?
A cafeicultura cresceu no estado, e a ideia é não parar. Ele tornou-se o segundo maior produtor da Região Norte, atrás apenas de Rondônia.
O QUE ACONTECE?
Os primeiros cafeicultores chegaram ao Acre na década de 1970, mas, sem incentivo, abandonaram a produção, que só foi retomada por agricultores familiares há pouco mais de uma década, em meio à região amazônica e sem desmatamento.
No começo, a produção não ia muito bem: faltava técnica e tecnologia especializada o tal do know how.
Apenas 29 sacas (de 60 kg cada) foram geradas por hectare, em uma área de 1.200 hectares.
Na última safra, a média chegou a 47 sacas (63% mais), com uma área produtiva de mil hectares, segundo a Secretaria da Agricultura do Acre ou seja, ganhamos eficiência.
EM FAMÍLIA
As produções são pequenas, em geral, em propriedades familiares. Há cerca de mil produtores no estado e a estimativa é que cada um cuide hoje de um hectare.
O foco é produzir cafés especiais: nada de torras exageradas e retrogosto queimado. Eles focam no cultivo de grãos premium, que geram um produto de maior valor agregado.
Tudo começou em Rondônia. Nos dois estados, os cafeicultores cultivam plantas canéforas, variedade que é mais resistente ao calor que a arábica, predominante nas lavouras de Minas Gerais, maior produtor de café do mundo, e que se adapta mais a temperaturas amenas.
As condições do Acre são consideradas superiores aos de Rondônia por pesquisadores: o estado tem mais chuva e solos muito férteis e planos, com a vantagem de poder aproveitar o know-how dos produtores do estado vizinho e materiais genéticos de mesma origem.
“O fato de chover muito mais que no Sudeste, permite avançar sem depender da irrigação [artificial]”, disse Michelma Lima, coordenadora do núcleo de cafeicultura na Secretaria da Agricultura do Acre.
**O QUE MAIS VOCÊ PRECISA SABER**
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LUANA FRANZÃO / Folhapress
