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Misci propõe uma Tieta contemporânea em desfile com Betty Faria na passarela

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Enquanto o céu de São Paulo desabava em chuva, o que tornava o entorno do parque Ibirapuera um caos, nesta quinta-feira (24), a Misci lotava o Pavilhão da Bienal com uma apresentação inspirada na figura de “Tieta do Agreste”. A personagem de Jorge Amado, eternizada por Betty Faria na TV em 1989, serviu como fio condutor para a coleção de verão 2026 assinada por Airon Martin —e também como espelho da mulher nordestina que ele queria representar: forte, sensual e resiliente.

O desfile começou com os pés na areia. Literalmente. A passarela foi coberta com terra clara, evocando o agreste baiano, e antecipando o que viria: uma coleção que mistura memória afetiva, identidade brasileira e técnica refinada. Com o novo ateliê de costura da marca operando desde o fim de 2024, Airon demonstra mais controle sobre sua produção —e isso se reflete nas roupas. Alfaiataria ajustada, acabamentos mais sofisticados e uma execução que salta aos olhos.

As inovações em matéria-prima também chamaram atenção, em especial o uso do látex amazônico. Desenvolvido pela DaTribu, o biomaterial tem produção rastreável e sustentável, da extração à secagem ao Sol.

As estampas inspiradas na fauna da caatinga —com desenhos de quati, teju, onça-pintada e borboleta— apareceram em releituras contemporâneas, com novas tonalidades. Esses elementos visuais somam-se aos já conhecidos códigos da Misci —como assimetrias, cortes geométricos e o uso de materiais ambiental e socialmente responsáveis—, reafirmando a identidade da marca.

Entre as tendências destacadas: uso do couro, de tecidos fluidos, presença de volumes no quadril (também vistos em alguns desfiles da São Paulo Fashion Week), mix de texturas e estampas, transparências, jaquetas de corte quadrado e as bolsas maxi carregadas na mão.

A sensualidade masculina também ganha novos contornos, com blusas de tricô ou seda justinhas, blazer e alfaiataria levemente ajustada ao corpo, enquanto na parte debaixo, um tipo de shorts super curto, que mais parecia uma cueca boxer.

No feminino, a construção é mais complexa. Por vezes até demais. Recortes e volumes com formato de balão pesam o caimento e, em alguns casos, comprometem a movimentação. Por outro lado, quando a mão segura do designer prevalece, o resultado brilha. Um exemplo: vestidos com barra contínua que se liga aos tops de mangas extra longas, criando um efeito ajustável, elegante e nada óbvio.

Para homenagear Tieta, Martin entrou junto da atriz Betty Faria ao final do desfile, sendo ovacionados. A atriz de 83 anos eternizou no nosso imaginário a personagem escorraçada de sua cidade natal por ser sexualmente livre. A novela do final dos anos 1980 agora está em reprise na TV Globo, no Vale a Pena Ver de Novo.

Na passarela, a Tieta de Betty Faria era encontrada nos detalhes. Ora nas peças em couro, ora nos lenços colocados sobre a cabeça de maneira semelhante ao que foi usado na memorável cena de quando a personagem decide voltar ao agreste, em busca de vingança, após ser expulsa pelo pai.

Desde sua estreia em 2018, Martin vem construindo uma Misci que fala sobre território, memória e estilo com consistência. Mas nunca com tanta maturidade técnica. Ao reunir nomes como Erika Hilton, Seu Jorge, Luciana Gimenez, Sasha Meneghel, Mariana Ximenes, Dudu Bertholini e Roberta Miranda na fila A, mesmo debaixo de uma tempestade, a marca prova seu poder de mobilização. Agora, com estrutura consolidada e desejo de autonomia criativa, a roupa ocupa finalmente o centro da conversa.

NADINE NASCIMENTO / Folhapress

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