FOLHAPRESS – Acaba de sair “More”, o oitavo álbum da banda britânica Pulp e o primeiro desde “We Love Life”, lançado há 24 anos. Nem a banda esperava lançar um disco de inéditas. Segundo entrevistas recentes, as novas canções surgiram em ensaios e passagens de som durante uma turnê em 2023. “More” é mais um capítulo na singular história do Pulp.
Liderado por Jarvis Cocker, um carismático nerd obcecado por música que moldou seu visual nos óculos de aros grossos de Elvis Costello e nos cabelos desgrenhados de Ian McCulloch, cantor do Echo and the Bunnymen, o Pulp surgiu para o grande público na primeira metade dos anos 1990 na onda do britpop, a geração de bandas inglesas que revelou Oasis, Blur e Suede.
Mas a verdade é que o Pulp tinha pouco em comum com as bandas do britpop. Cocker era sete anos mais velho que seus colegas de Blur e Oasis e fundou o Pulp em 1978, ainda na época do punk rock. Enquanto o britpop celebrava a nostalgia e idolatrava bandas de rock britânicas como Beatles e Kinks, Jarvis Cocker amava o pós-punk de The Fall, as batidas sintéticas da discoteca do italiano Giorgio Moroder e a eletrônica suja de grupos como Cabaret Voltaire, seus conterrâneos de Sheffield.
“More” levou 24 anos para ser feito e parece saído de algum lugar no meio dos anos 1990, quando o Pulp fez seus discos mais marcantes ”Different Class” (1995) e “This is Hardcore” (1998). A faixa que abre o disco, “Spike Island”, é puro Jarvis Cocker: uma batida dançante de discoteca com um vocal à David Bowie (em alguns momentos, a voz é impressionantemente parecida com a do Camaleão) e uma letra misteriosa que vai deixar os fãs tentando adivinhar seu significado, mas que parece versar sobre os últimos anos do Pulp e a decisão de prosseguir com a banda.
“Não um xamã ou um showman / eu dei um tempo e decidi não arruinar minha vida / eu estava obedecendo a um desenho cósmico / vivendo o papel que era esperado de mim (…) Eu nasci para ser um performer / é um chamado / é para isso que eu existo / para gritar e apontar”, diz a letra. Quem já viu o Pulp ao vivo sabe que um dos movimentos de palco mais característicos de Cocker é apontar para seu público.
Cocker é um dos letristas mais originais e pessoais do rock dos últimos 30 anos, autor de pequenas joias sobre sexo e paixões violentas com letras impregnadas de um humor sardônico tipicamente inglês. Em “Tina”, ele relata a paixão platônica por uma mulher sedutora que encontra regularmente no trem ou na rua, mas que nunca teve a coragem de abordar.
“Eu a vi de novo no trem / ele está brincando comigo / às vezes ela muda a cor do cabelo / ou da pele (…) Tina é sempre atenciosa comigo / somos muito bons juntos / porque nunca nos falamos (…) Em todos aqueles lugares onde nunca nos encontramos / transando em lojas de caridade / em cima de sacos pretos de doações”, diz a letra.
Musicalmente, “More” não difere de outros discos do Pulp. É pop elegante feito por pessoas cultas e inteligentes, que bebe tanto no Bowie da fase pop-oitentista de “Scary Monsters” (1980) e “Lets Dance” (1982) quanto em bandas como Roxy Music.
Os temas abordados por Cocker continuam os mesmos sexo (há uma faixa chamada simplesmente “My Sex”), polaroides autobiográficas (a linda “Grown Ups”, que narra uma noite em 1985 quando ele percebeu que já tinha virado adulto) e encontros casuais que mudam vidas (“Farmers Market”, relato da primeira vez em que Cocker deitou os olhos no amor de sua vida).
Para quem se interessa pelo universo lírico de Jarvis Cocker, uma sugestão é o livro “Good Pop, Bad Pop”, lançado no Brasil pela editora Terreno Estranho. A exemplo de tudo que Cocker faz, não é uma autobiografia convencional. O autor visita um velho sótão da família em Sheffield lotado de brinquedos, roupas, cadernos, diários, gomas de mascar e sabonetes ainda na embalagem, e relata as memórias reavivadas por cada objeto.
Descobrimos como o pequeno Jarvis, aos sete anos de idade, foi abandonado pelo pai, que foi viver na Austrália, e acabou criado em meio a um lar 100% feminino com a irmã, a mãe boêmia e a avó. E como ele, aos 13 anos, escreveu em um caderno escolar um guia de como seria sua banda de rock, com descrições detalhadas do estilo musical e visual do Pulp.
MORE
– Avaliação Muito bom
– Onde Nas plataformas digitais
– Autoria Pulp
– Produção James Ford
– Gravadora Rough Trade
ANDRÉ BARCINSKI / Folhapress
