Em sua primeira atualização após o anúncio dos planos para a construção de uma base na Lua, a Nasa trouxe um misto de novos anúncios com uma boa dose de “rebranding”. Em ambos os casos, a mensagem da agência espacial dos Estados Unidos foi a de que os trabalhos de desenvolvimento do posto avançado na região polar sul lunar já estão em andamento.
A ação de “rebranding” veio com Jared Isaacman, administrador da Nasa e o primeiro a falar na entrevista coletiva realizada nesta terça-feira (26) no Quartel-General da agência, em Washington, e transmitida ao vivo pela internet. Ele anunciou que as próximas missões robóticas à Lua que faziam parte dos “carretos” contratados com empresas americanas bem antes do anúncio do plano da base lunar levarão a marca do novo projeto.
A primeira a voar será Moon Base 1, missão a ser conduzida pelo módulo de pouso Blue Moon Mark 1, da empresa Blue Origin. A espaçonave está em fase final de preparação para o lançamento e deve voar na primavera (daqui, outono do hemisfério Norte), na primeira tentativa da companhia de Jeff Bezos de pousar um artefato na Lua.
A missão é muito importante para o futuro envio de astronautas, já que a Blue Origin é uma das empresas contratadas para fornecer módulos de pouso tripulados, ao lado da SpaceX. O Blue Moon Mark 2 tem herança tecnológica do Mark 1, de modo que um pouso bem-sucedido ajuda a criar confiança para a futura alunissagem tripulada.
As outras duas missões, rebatizadas Moon Base 2 e 3, também já estavam em fase final de preparação e envolvem módulos da Astrobotic (que até o momento tentou uma vez lançar uma espaçonave à Lua, mas falhou logo após o lançamento) e da Intuitive Machines (que já realizou dois pousos semi-bem-sucedidos, com os módulos tombando na superfície, mas ainda funcionando por algum tempo), e ambos devem voar até o fim do ano.
AS NOVIDADES
O maior destaque foi, contudo, para o anúncio da contratação das empresas responsáveis por desenvolver os rovers que serão usados por astronautas para explorar a região da futura base lunar e levá-los à superfície lunar. O anúncio coube a Carlos Garcia-Galán, gerente do programa da base lunar.
Para o transporte, a Blue Origin foi a escolhida, mais uma vez usando o Blue Moon Mark 1. Quanto aos rovers em si, serão fornecidos pelas empresas Astrolab e Lunar Outpost. Ambos serão capazes de transportar dois astronautas e andar a até 10 km/h, com um alcance de até 200 km, quatro vezes mais do que qualquer rover já andou em qualquer lugar.
As empresas formaram parcerias com subcontratantes para a entrega, e há de se notar o envolvimento da General Motors com a Lunar Outpost. Os LTVs (sigla para Lunar Terrain Vehicles) serão bem mais avançados que os antigos rovers usados nas missões Apollo, no século passado. Uma das mais chamativas novidades é o fato de que os rovers poderão ser operados remotamente, como missões robóticas, além de pilotados por astronautas.
MARCANDO O TERRENO
A novidade mais chamativa, contudo, é a da espaçonave Moonfall, um drone lunar capaz de realizar voos mais curtos entre diferentes pontos da superfície da Lua fazendo reconhecimento de terreno. É essencialmente um minifoguete capaz de múltiplos voos, algo nunca antes desenvolvido e por essa razão a Nasa designou o projeto para o JPL (Laboratório de Propulsão a Jato), que costuma responder pelas missões robóticas mais ousadas da agência.
A maior surpresa sobre esses veículos foi a noção de que três ou quatro deles serão usados para ser colocados nos cantos da área de atuação e marcar, desde cedo, o que a Nasa está chamando de “perímetro da base lunar”. Será uma área vasta, e não escapou aos jornalistas a impressão de que a agência está tentando marcar terreno para suas atividades na superfície da Lua.
Perguntado sobre isso e sobre a validade perante países que não fazem parte dos Acordos Artemis, Isaacman desconversou. “Estamos operando muito cientes do Tratado do Espaço”, disse o administrador, referindo-se ao acordo assinado no âmbito da ONU em 1967 que impede países de declararem posse sobre território em corpos celestes. “Queremos chegar lá e explorar. Mas esse é um objetivo de muitos para essas espaçonaves. Vamos fazer reconhecimento.”
A empresa contratada para levar os Moonfalls do JPL à superfície também foi anunciada e será a Firefly, que já realizou um pouso lunar bem-sucedido com um módulo no ano passado.
A fase 1 do programa da base lunar vai até 2029 e envolve testes e estabelecimento dos primeiros equipamentos para a instalação que, eventualmente, receberá astronautas de forma regular. Essa primeira fase será composta de 25 missões, das quais 21 realizarão pousos, incluindo as três primeiras agora rebatizadas.
O programa regular de carretos lunares (chamado formalmente de CLPS) continuará, e terá novos contratos anunciados no mês que vem. Além disso, a Nasa deve anunciar uma fase 2.0, que receberá propostas até 30 de junho, ambicionando uma aceleração ainda maior das missões robóticas.
ARTEMIS
Lori Glaze, administradora associada interina, aproveitou a ocasião para destacar o sucesso da Artemis 2, primeiro voo de astronautas além da órbita terrestre desde 1972, e anunciou que nave e foguete para a Artemis 3 já estão em fase final de integração.
Chamou a atenção Isaacman dizer que essa próxima missão, a ser realizada em órbita terrestre baixa, segue mirando um lançamento em meados de 2027, depois que as empresas envolvidas nos módulos de pouso a serem testados (SpaceX e Blue Origin) dizerem que só estarão prontas no fim de 2027.
SALVADOR NOGUEIRA / Folhapress


