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Natura quer ser autossuficiente em óleo de palma até 2035 a partir de negócio com crédito de carbono

BELÉM, PA E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Natura quer ter 45 mil hectares de sistemas agroflorestais de palma implantados no Pará até 2035, volume que cobrirá toda a demanda da empresa por essa matéria-prima.

O óleo de palma (planta que no Brasil também é chamada de dendê) é o principal insumo da companhia para a produção de sabonetes, cremes e xampus. Ele é usado também na indústria alimentícia e para a produção de biocombustíveis.

Atualmente, a palma é plantada em grandes monoculturas na região norte do país e, em alguns casos, está associada a conflitos fundiários. No ano passado, por exemplo, o governo federal mobilizou a Força Nacional para conter um conflito entre indígenas, quilombolas e uma grande empresa do setor no nordeste do Pará.

Os maiores produtores de palma no mundo são a Indonésia e a Malásia, onde o cultivo nas últimas décadas também esteve associado a conflitos, além do desmatamento de florestas tropicais.

Para a Natura, criar a própria cadeia de produção é também um jeito de se distanciar desse controverso mercado.

Por meio do SAF Dendê (sigla para sistema agroflorestal de dendê), nome dado ao projeto, a Natura firmou parcerias com empresas que intermedeiam as relações com agricultores e criadores de gado do nordeste do Pará, em cidades ao redor de Tomé-Açu —cidade-polo da região que hoje já abriga grandes cultivos de palma.

A ideia é que esses agricultores e produtores donos de áreas degradadas ou improdutivas cedam parte de suas terras para a implantação de sistemas agroflorestais, nos quais a palma é produzida ao redor de várias outras espécies, como leguminosas, frutíferas e madeireiras.

“Nem todas as espécies vão estar ali apenas para produção econômica. Há, por exemplo, espécies que vão servir para a produção de biomassa; ou seja, de nutrição para outras plantas”, diz Mauro Costa, gerente sênior de relacionamento e abastecimento da sociobiodiversidade da Natura.

As leguminosas, explica ele, são usadas porque ajudam a fixar nitrogênio no solo. As madeireiras, ao fim do ciclo de 30 anos, poderão ser cortadas e comercializadas de forma legal.

“Também há frutíferas que serão produzidas ao longo de todo esse ciclo, e algumas espécies que serão produzidas entre três e cinco anos, porque depois suas produções ficarão impossíveis devido à sombra”, acrescenta.

Em um SAF como esse, a palma corresponde a no máximo 50% da área. O sistema só começa a produzir a palma, de fato, após cinco anos de operação.

“Conseguimos uma produtividade equivalente à do monocultivo. Em média, a produção de palma gera 20 toneladas de cachos de fruto fresco por hectare e estamos conseguindo 17”, diz Costa. “Na hora que você coloca no modelo de negócio as partes financeira e ambiental, a nossa proposta acaba superando o monocultivo.”

O contrato com os agricultores prevê a venda preferencial da palma para a Natura, ainda que não exclusiva. Além disso, os demais frutos produzidos no sistema poderão ser vendidos como os produtores quiserem.

Hoje, a Natura tem cerca de 180 hectares de SAF de palma implantados e, até março, pretende implantar mais 240 hectares. Para cada ciclo agrícola, que vai de outubro a março, a meta da empresa é ampliar gradualmente essa plantação até atingir 45 mil hectares em 2035. Até 2030, quer ter 40 mil hectares, volume suficiente para atender suas linhas Biome e Ekos.

Na última quinta-feira (1º), a empresa firmou um acordo de cooperação técnica com o governo do Pará para a ampliação dos sistemas agroflorestais no estado. Um plano de trabalho destacando as ações de cada parte será formulado nos próximos meses.

Uma das parceiras da Natura neste projeto é a Belterra, criada há quatro anos para implantação de sistemas agroflorestais de cacau e açaí.

A empresa será responsável por garantir à empresa ao menos 20 mil hectares de SAF de palma até 2030, sendo que esses sistemas serão implantados em áreas de pequenos, médios e grandes produtores.

A Belterra atua com três modelos de contrato: 1) arrendamento, em que o produtor cede uma parcela da terra por 10 a 15 anos; 2) parceria rural, em que a empresa faz o investimento financeiro e o produtor, o manejo da área; 3) apoio financeiro, quando o produtor já tem experiência na cultura, mas precisa de auxílio na obtenção de crédito.

Em todos esses modelos, a Belterra fatura pela intermediação entre fornecedores e compradores dos frutos e pela venda de créditos de carbono gerados a partir da regeneração das áreas degradadas.

Neste último caso, os créditos gerados são vendidos de forma antecipada para grandes empresas que querem zerar suas emissões de carbono, inclusive a própria Natura.

Sem a geração de créditos, portanto, dificilmente o negócio seria rentável para empresas intermediadoras, como a Belterra.

“Sistemas agroflorestais são altamente geradores de remoção de carbono. Vamos dividir esses ganhos com os produtores. A gente já tem hoje parcerias que antecipam o crédito nos primeiros dez anos, e essa antecipação permite pagar a nossa operação”, afirma Valmir Ortega, fundador e diretor da Belterra.

As metas da Natura, porém, não são simples de serem cumpridas. Isso porque, por mais que a empresa tenha apoio da Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta), importante cooperativa de descendentes de japoneses da região, alguns produtores ainda são receosos em explorar novas culturas.

“Os agricultores plantam historicamente nessa região a pimenta-do-reino e existe um apego muito grande a essa cultura”, diz Jadson Albuquerque, mestre em geografia pela Universidade Federal de Goiás.

Pesquisador em Tomé-Açu de 2016 a 2017, ele estudou o contexto social do cultivo de palma na região paraense. Albuquerque conta que, na década de 1940, o município era o maior produtor da pimenta no mundo.

“Hoje, a pimenta-do-reino é como se fosse uma poupança que é passada de geração para geração. Muitos jovens na idade de 14 e 15 anos já têm seu próprio pimental dentro da propriedade dos pais, justamente pensando em ganhos futuros”, afirma.

Segundo Albuquerque, vários agricultores que já tentaram plantar palma na década passada, a partir de contratos com grandes empresas, largaram o cultivo por causa de altos custos e da dificuldade do manejo.

Recentemente, o grupo BBF, um dos líderes na produção de palma no Brasil, também anunciou sua intenção de produzir palma no sistema agroflorestal. A empresa quer ter até 2026 capacidade de produzir combustível sustentável de aviação com a matéria-prima.

O repórter viajou a convite da Natura

PEDRO LOVISI / Folhapress

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