FOLHAPRESS – Já faz algum tempo que a saga “Missão Impossível” virou sinônimo da impressionante capacidade de Tom Cruise em superar a morte. Da escalada pelo prédio mais alto do mundo ao duelo de helicópteros entre tiros de metralhadora, o superespião Ethan Hunt protagonizou momentos catárticos dos últimos 30 anos no cinema hollywoodiano.
Dotado de superhabilidades, fez o possível para proteger seus aliados mais fiéis e sobreviver a acrobacias mirabolantes de forma fidedigna. Isso porque efeitos práticos se tornaram marca registrada da franquia e o ator nunca deixou de fazer as próprias cenas de ação. Sua equipe seguiu acreditando na força humana por trás dos grandes estúdios.
Numa época em que telas verdes, a péssima iluminação de noturnas e outras contenções de gastos dominaram os sets, são esperançosas as imagens criadas por um homem sem a vergonha de se colocar como messias. Elas desafiam os algoritmos e atacam diretamente o antagonista deste “O Acerto Final”, uma inteligência artificial que ameaça a humanidade desde o antecessor “Acerto de Contas”.
Após descobrir que a solução para salvar o planeta está no código fonte de um submarino lendário, Ethan embarca em outra jornada contra o tempo para garantir que as nações mundiais permaneçam de pé. No processo, os hackers Luther e Benji inventam bugigangas e Grace, mais nova agente da IMF, esgota suas habilidades para ajudar o parceiro todo-poderoso.
São meandros de uma trama já vista por todos mas que pressupõe as repetições como matéria para discutir o desencantamento em relação à tela grande.
Como alguém que contempla a própria mortalidade, Ethan entra em uma grande caixa preta para conversar com o inimigo virtual. Ele veste um capacete de última geração e um círculo azul se projeta frente aos seus olhos. Logo nos minutos iniciais, o espectador nada vê além de zeros e uns e desaparecem os estímulos típicos de um filme de ação.
Quando conversa com a “Entidade”, sistema autônomo que acessa armamentos militares e projeta imagens falsas para circulação mundial, o agente relembra todas as suas aventuras. Os flashes escolhidos vão além da nostalgia barata. Parecem menos interessados em resgatar a invasão a um cofre supersecreto do que questionar essas memórias em tempos de cinismo.
A rapidez com que os momentos áureos do protagonista são revisitados reconhece um grau de esgotamento. Em um mundo de imagens cada vez menos confiáveis, por que acreditar na batalha do bem contra o mal? O próprio Ethan parece tremer com essa questão e talvez seja a hora do mundo se virar sozinho.
Pouco antes, o espião assassina brutalmente dois capangas para escapar de uma masmorra. De forma rara na franquia, ouvimos gritos e golpes aterrorizantes. Distante da natureza pura que o personagem carregou durante sete capítulos, é um lapso que a câmera se recusa a capturar. Até onde o heroísmo pode resistir?
Na primeira metade de suas quase três horas de duração, “O Acerto Final” abandona o frenesi dos demais títulos dirigidos por Christopher McQuarrie. Se os anteriores propuseram uma espécie de dança, em que grandes cenas se juntam umas com as outras e existe pouco tempo para respirar, dessa vez cada passo precisa ser calculado.
Sob a iminência do poder virtual, tão volátil quanto onipresente, o filme substitui a catarse de acontecimentos pela paranoia tecnológica. Seguimos Cruise em debates com líderes americanos que estão prestes a apelar para equipamentos nucleares.
A câmera passeia pelos que definem o futuro com desinteresse pelo que sai de suas bocas. O importante é registrar seus rostos, os olhares que beiram ao desespero e as expressões que buscam migalhas de esperança umas nas outras. Mais tarde, até mesmo o retorno de personagens antigos serve mais à fricção entre a essência e a artificialidade do que ao desenvolvimento dramático.
O filme brinca com recursos tidos bregas por produtores de cheques pomposos, tão ultrapassados quanto um herói envelhecido que implora por uma última chance.
Uma vez concedida, Ethan parte em direção à especialidade de “Missão Impossível”. Primeiro, ele nada em mares profundos em busca de respostas. As luzes que saltam do capacete de oxigênio dimensionam o medo nos olhos do agente e iluminam o submarino imponente deitado ao seu lado. Seu corpo, movimentos e decisões são registrados com toda a clareza. Nem por isso a dúvida deixa de pairar sobre a água.
Mais tarde, com soluções em mãos, Ethan ascende aos céus. Rende outro momento em que a técnica supera realizações anteriores e tudo é muito nítido. Mas a apreensão de Tom Cruise, que nunca hesitou em arriscar a própria vida, traz todo o sentimento necessário. Mesmo que nem sempre acredite em si mesmo, basta que o espectador acredite por ele.
Estranho a um tempo em que grandes estúdios desprezam os que se contentam com o próprio coração e não tentam exorcizar clichês de bons espetáculos “O Acerto Final” é um grito de esperança para os que insistem em crer nas grandes telas do cinema.
MISSÃO IMPOSSÍVEL – O ACERTO FINAL
– Avaliação Muito bom
– Quando Estreia nos cinemas nesta quinta (22)
– Classificação 14 anos
– Elenco Tom Cruise, Simon Pegg e Hayley Atwell
– Produção Estados Unidos, 2025
– Direção Christopher McQuarrie
DAVI GALANTIER KRASILCHIK / Folhapress
