RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Uma série de imagens de rapazes seminus, com corpos magros e torneados escurecidos pelo mesmo sol que iluminava seus cabelos foi motivo de protesto de um coronel que considerou imoral aquela sequência de mais de cem fotos, feitas pela câmera Leica do artista Alair Gomes, que contradiziam os ideais de sociedade da ditadura implantada em 1964.
Quem, na última década, habitou-se a ver a direita e a esquerda incomodadas com expressões artísticas e intelectuais que contradizem os seus valores pode imaginar que o protesto do coronel à individual no Shopping Cassino Atlântico, em Copacabana, inspirou uma uma tropa de figuras intolerantes e moralistas a reagir contra a mostra e censurá-la.
Não foi o que aconteceu. “A exposição acabou ficando lá mais de um mês”, lembra Gomes em entrevista ao fotógrafo e diplomata Joaquim Paiva. “Que outro coronel apareça é muito possível! Mas os coronéis não estão muito em moda, culturalmente não são muito atrativos hoje para a população. A partir dos anos 60, a liberação dos costumes foi tão grande que a minha ideia é de que os jovens que vão ver as fotografias lá possivelmente não vão se irritar”, afirmou o fotógrafo.
Por mais contraditória que pareça, a análise de Gomes é correta. Os militares que tomaram o poder em 1964 tinham dois projetos. Um de caráter econômico, baseado na instituição de um modelo de desenvolvimentismo de direita, em contraposição ao desenvolvimentismo de Getúlio Vargas e seu herdeiro João Goulart, baseado na desnacionalização da economia e no enfraquecimento dos trabalhadores. O seu modelo de sociedade, por sua vez, estava pautado na tríade “tradição, família e propriedade”, com forte repressão sexual e com papeis familiares e de gênero bastante marcados.
Entretanto, as mudanças dos ventos internacionais a partir dos protestos estudantis de maio de 1968 e o forte crescimento econômico do Brasil no período, que superou a taxa de 10% ao ano, acabaram ensejando consequências não previstas pelos militares.
O acelerado processo de industrialização e urbanização do país no período logrado a partir da política econômica liderada pelo ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto e pelo 2º plano nacional de desenvolvimento, do ditador Ernesto Geisel tornou inviável a manutenção de uma sociedade tradicional como pretendida pela ditadura. A expansão e a complexificação econômica do Brasil levou ao ingresso massivo das mulheres no mercado de trabalho. Além disso, a expansão urbana, oriunda dessa nova realidade, trouxe outras ideias, que dialogavam com demandas da “nova esquerda” dos Estados Unidos e da Europa.
Parte dessa nova sociedade emergente foi registrada e também criada, posto que a arte também é capaz de inventar a a realidade por Gomes.
Alair Gomes fez esses registros da janela de seu apartamento em Ipanema. Por meio de uma fenda que separava dois edifícios na avenida Vieira Souto, o fotógrafo registrou rapazes de corpos desenhados pelo sol e pelas atividades físicas, trajados em sungas pequenas que mais insinuaram do que escondiam suas “vergonhas”, como se dizia.
Parte desses registros pode ser vista agora no Paço Imperial do Rio de Janeiro na mostra “Alair Gomes: o Erotismo no Belo”. Com curadoria de Luiz Pizarro, a exposição é composta a partir do acervo de Klaus Werner, jornalista alemão e amigo do fotógrafo. As imagens estiveram arquivadas por mais de 25 anos e foram manipuladas, reveladas e ampliadas pelo próprio fotógrafo.
Em “Tríptico da Praia nº 1” temos uma composição precisa do universo de Gomes. Nos registros que compõem a série, vemos os corpos de jovens rapazes magros e bem definidos, conforme o padrão de beleza da época. O erotismo, que compõe a essência da obra dele, se revela em detalhes como os pentelhos que escapam da sunga pequena e o membro do modelo bem marcado na vestimenta.
As fotos que compõem o “Tríptico nº 6”, por sua vez, revelam físicos de natureza e estética semelhantes. O que marca, porém, as três imagens é menos a beleza em si e mais a sua relação com o espaço da praia de Ipanema, espécie de paraíso perdido e recriado por Gomes a partir da beleza jovem e masculina.
Já “Adoremus nº 7” traz um rapaz fotografado de costas. O jogo de luz e sombra sobre seus músculos, curvas e nádegas traz outra experiência estética. Esse jogo não fala de um idílio erótico, mas do próprio ideal de beleza masculina. Ele diz ainda sobre Gomes, que dialoga com o corpo esculpido por gregos e renascentistas ao longo de séculos. Nesse diálogo, a magreza torneada pelo surfe e outras atividades físicas à beira-mar é substituída por formas mais rígidas e robustas, com maior detalhes de músculos, como podemos ver nas esculturas da Grécia Antiga e do Renascimento.
O diálogo com o ideal de beleza formulado por artistas como Michelangelo não é mero acaso. Gomes, no período em que passou na Europa, nos anos 1980, realizou estudos e registros fotográficos de esculturas masculinas, atendo-se muitas vezes a pequenos detalhes dos corpos esculpidos. Esse paraíso perdido criado por Gomes, que incomodou a moralidade do coronel, adquire um aspecto político não imaginado pelo próprio artista e que vai além dos costumes.
Ao utilizar-se da busca e da construção da beleza para dar forma ao homoerotismo, o fotógrafo resgata e defende a própria tradição artística. Ele reinventa a vida e ajuda a expandi-la, enquanto os panfletários a reduzem.
ALAIR GOMES: O EROTISMO NO BELO
– Quando Ter. a dom., das 12h às 18h. Até 10 de agosto
– Onde Paço Imperial – pça. 15 de Novembro, 48, Rio de Janeiro
– Preço Grátis
– Classificação 18 anos
DANILO THOMAZ / Folhapress
