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Ópera ‘Nabucco’ reflete sobre liberdade espelhando drama do povo judeu e refugiados

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Antes do primeiro acorde, em fá sustenido menor, a partitura indica que a música deve romper o silêncio em “sotto voce”, um cantar murmurante, segundo a língua de Dante. A beleza de “Va, Pensiero” é singela. O coro mais importante escrito pelo compositor italiano Giuseppe Verdi inicia-se em uníssono para, então, adornado pelo solo da flauta, desabrochar em múltiplas vozes. Entre a prece e o lamento, a estrutura melódica lembra uma barcarola.

A cena está no terceiro ato de “Nabucco”, o penúltimo da ópera, que estreia no Theatro Municipal de São Paulo nesta sexta-feira, com direção cênica de Christiane Jatahy, vencedora do Leão de Ouro da Bienal de Veneza pelo conjunto da obra, e regência do maestro Roberto Minczuk.

“Esse coro dá trabalho, e é preciso ter o máximo de cuidado para saber sussurrar, inclusive os instrumentos”, diz Minczuk. “Isso nem sempre acontece nas récitas executadas pelo mundo afora.”

Inspirado em uma passagem bíblica, o libreto do italiano Temistocle Solera, encenado pela primeira vez, em 1842, no Teatro La Scala, em Milão, conta a história do rei Nabucco 2º, agora interpretado pelos barítonos Alberto Gazale e Brian Major.

Na Antiguidade, Nabucco tinha a ambição de expandir o seu Império da Babilônia, que ficava ao sul da Mesopotâmia, onde, nos dias atuais, é o Iraque. Nabucco escraviza os judeus, mantendo-os sob seus domínios, longe do reino de Judá. O monarca manda incendiar até mesmo o Templo de Jerusalém.

Liderados pelo sacerdote Zaccaria, vivido pelos baixos Savio Sperandio e Matheus França, o povo judeu faz de tudo para encontrar a liberdade. “Va, Pensiero” —ou vá, pensamento—, afinal, simboliza o grito de liberdade dos judeus.

De todo modo, Nabucco sofreria resistências em sua própria família. Sua filha adotiva, Abigaille, encarnada pelas sopranos Marsha Thompson e Marigona Qerkezi, planeja tomar o trono de seu pai e ainda cobiça o amor de Ismaele, personagem dos tenores Enrique Bravo e Marcello Vannucci. Ismaele, porém, é amante da irmã de Abigaille, Fenena, personagem interpretada pelas mezzo-sopranos Luisa Francesconi e Juliana Taino.

No século 19, Verdi entrelaçou paixão e poder para transformar “Nabucco” no mito fundador da Itália. O compositor viu no drama dos judeus aprisionados a condição política da Península Italiana, à época dividida em reinos, ducados e principados, tendo uma parte de seu território ocupado pelo Império Austríaco. Nesse contexto, “Va, Pensiero”, tornou-se a trilha sonora da Unificação Italiana, sendo proposto, por reiteradas vezes, como hino nacional.

Nas ruas de Milão, os muros ganharam a inscrição “Viva V.E.R.D.I”, acróstico para Vittorio Emmanuele, Rei da Itália. Antes rei de Piemonte-Sardenha, Emmanuele foi o líder do Risorgimento, empreendendo uma batalha contra os austríacos.

Verdi, em paralelo, já era considerado como herói, mesmo antes de escrever as suas principais obras. “Nabucco” é a segunda e mais política ópera de Verdi, e ainda seguia os códigos do bel canto —técnica de interpretação que visava o virtuosismo, com agilidade, intensidade e articulação das notas.

“Há uma influência musical popular, típica das bandas de rua, que eram comuns na Itália da época”, diz Minczuk. “É possível ver, com isso, como a musicalidade de Verdi se desenvolveria.”

Jatahy, a diretora, redimensiona a metáfora de Verdi, em sua montagem, que estreou, no ano passado, no Grand Théâtre de Genève, na Suíça. Primeira brasileira a dirigir uma peça na Comédie-Française, o teatro estatal francês, Jatahy expande a opressão e a errância, enfrentada pelo povo judeu, e encena o drama dos refugiados. Tanto que o Coro Lírico Municipal usa vestes do cotidiano, assim como os desterrados, deixam suas histórias para trás, tendo somente a roupa do corpo.

No cenário, o jogo de espelhos cria uma realidade ilusória, e uma câmera grava, em tempo real, os solistas, como se as árias se convertessem em testemunhos. “O poder é uma ilusão e também é uma roupa que se veste”, diz ela.

Embora tenha feito cortes no libreto, a diretora mostra coerência com a obra, que tematizou a definição de fronteiras e o conceito de nação, e com a sua carreira, uma investigação das tensões formais entre o teatro e o cinema, cuja abordagem temática não raro se rende à tragédia das migrações forçadas no século 21.

No ano passado, Jatahy deu uma amostra de sua arte ao encenar a peça “A Hora do Lobo”, inspirada em “Dogville”, de Lars von Trier, na capital paulista. Ainda que tenha montado “Fidelio”, de Beethoven, há quase uma década, a ópera ainda representa um desafio para a diretora. “É difícil. O tempo é muito curto para ensaiar e a quantidade de pessoas é enorme”, afirma Jatahy. “É importante humanizar os personagens, e estou tentando trazer isso do teatro para figuras arquetípicas da ópera.”

No mundo romântico, o conceito de nação emergia da coletividade. Isso acabou. Não há mais coro possível para entoar, em uníssono, a prosódia de uma mesma língua. É tempo de uma ecolalia difusa e de identidades díspares; tempo de violência e de extremismo tirânico.

A liberdade, almejada pelos judeus da Babilônia, é agora palavra de significado vazio, recriado ao sabor das conveniências políticas. Por isso, é tão difícil definir, hoje, o que é ser livre. “Nabucco”, no entanto, se opõe à atual realidade descentrada, que dinamita qualquer possibilidade de mobilização popular.

Seu libreto prevê no coro o real sentido de democracia. “A ópera é uma arte do coletivo, e essa obra é um lembrete de que o poder está com o povo”, diz Jatahy.

NABUCCO

– Quando Sex. (27 e 4), ter. (1º), qua. (2), às 20h; sáb.(28 e 5) e dom. (29), às 17h

– Onde Theatro Municipal de São Paulo – pça. Ramos de Azevedo, s/n, São Paulo

– Preço R$ 31 a R$ 200

– Classificação Livre

– Autoria Giuseppe Verdi

– Elenco Alberto Gazale, Marsha Thompson, Brian Major, Marigona Qerkezi

– Direção Christiane Jatahy e Roberto Minczuk

GUSTAVO ZEITEL / Folhapress

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