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Pavilhão temático na Expo Osaka reafirma o feminino de olho no futuro

OSAKA, None (FOLHAPRESS) – Parece delírio, mas há uma voz que sussurra o seu nome. Pode ser a da escritora Banana Yoshimoto, da poeta e cientista Emi Mahmoud ou da ativista climática Xiye Bastida. Pelo fone de ouvido, esse chamado guia os visitantes por um dos três percursos, que atravessam portas ovais. Antes que se abram, um curta-metragem intitulado “Three Women”, idealizado por Es Devlin e pela diretora Naomi Kawase, apresenta o trio de diferentes gerações, compartilhando suas mensagens, lutas e conquistas diárias.

Trata-se de uma das experiências imersivas do Women’s Pavilion, em colaboração com a Cartier, na Expo 2025 Osaka, que acontece até 13 de outubro, sob o tema “Projetando uma Sociedade Futura para Nossas Vidas”. O espaço, que desde sua estreia na Expo 2020 Dubai coloca a voz feminina no centro do debate e fortalece suas narrativas, fomenta o empoderamento para além do ambiente físico. As falas ecoam, permanecendo na memória dos visitantes, a partir do manifesto desta edição: “Quando as mulheres prosperam, a humanidade prospera”.

O pavilhão está localizado em uma área mais tranquila, afastado das filas intermináveis do centro do Grand Ring —uma obra circular de madeira com mais de 61 mil metros quadrados, criada pelo estúdio Sou Fujimoto Architects e considerada a maior construção de madeira do mundo. Ou seja, do outro lado da maioria dos pavilhões nacionais, como os da França, Alemanha e Brasil —este último, espremido entre Kuwait e Áustria, com uma estética apática que passa despercebida no cenário vibrante ao redor.

Para não dizer que todos estão lá, o Japão, seu vizinho, instalou um projeto composto pelo arranjo repetitivo e escalonado de painéis de madeira, simbolizando o ciclo da vida. Após a exposição, as peças retornarão para o fornecedor e serão reutilizadas no futuro. Curiosamente, algo semelhante ocorreu com o Women’s Pavilion —mas graças à persistência de uma mulher.

A fachada de origami, inspirada na técnica de marcenaria tradicional kumiko —que consiste em encaixar peças formando padrões sem o uso de pregos— foi reaproveitada do pavilhão japonês da edição anterior. Mas a arquiteta Yuko Nagayama, responsável pelos dois projetos, precisou driblar vários desafios para transportar cada um dos mais de 7.000 componentes, montados à mão, sem o uso de martelo.

“Essa iniciativa partiu de mim. No início, parecia impossível torná-la realidade”, conta a japonesa sobre levar todo o material de Dubai para Kansai. “Normalmente, o dinheiro do governo é usado para construir e demolir um prédio. O processo de reutilização não faz parte desse plano, e precisei encontrar parceiros, como a [June] Miyachi, da Cartier, para esse suporte. Foi muita sorte”, explica ela à Folha de S.Paulo, em uma das salas da sua obra. “Olhar para cada detalhe parece um sonho”.

A iluminação natural, permitida pelas frestas das placas brancas, alcança um solo composto por árvores e plantas de espécies nativas dos arredores de Osaka, que retornarão às suas origens após os 184 dias de evento. Essa homenagem à “Mãe Terra” ressalta a urgência de reconexão com os ciclos naturais, regeneração e preparação de um mundo mais habitável para as próximas gerações.

Outro nome que se destaca é a artista contemporânea britânica e líder artística global do pavilhão feminino, Es Devlin —que também foi responsável pela cenografia do show de Lady Gaga no Rio de Janeiro. A expografia começa com um primeiro contato em uma espécie de espelho, na instalação Your Name, onde cada visitante adiciona sua própria voz e nome, levando o público a diferentes caminhos, mas com um futuro em comum.

É por isso que, na etapa seguinte, cada visitante é orientado a entrar por diferentes portas. Se a opção for pela ativista climática mexicana, a narrativa no fone falará sobre sua relação com a água, a chuva e os sons angustiantes de inundações.

Na fase seguinte, o percurso culmina em Ma, que, em japonês, significa pausa ou intervalo —um espaço contemplativo a céu aberto. A luz invade o ambiente por uma abertura oval, incidindo sobre uma mesa escura cuja superfície líquida é salpicada por seixos pretos. É um momento de silêncio, de encontro entre as pessoas.

De lá, a próxima parada é o Puzzle Box, uma sequência de espaços que se desdobram como uma intrincada caixa de quebra-cabeça japonesa. É uma representação visual das complexidades em camadas dos dados atuais sobre igualdade de gênero no mundo —considerando avanços, como as 19 finlandesas eleitas para o parlamento nacional em 1907, e o quão longe ainda se está da paridade de gênero, projetada para ser alcançada apenas em 2063, no ritmo atual.

Realidades cruas, como as mudanças climáticas, exacerbam ainda mais a desigualdade, mostrando que, em 2050, até 158 milhões de mulheres e meninas poderão ser levadas à pobreza extrema.

No último estágio, intitulado Your Hand, uma constelação de vozes de quem atua diariamente para transformar a sociedade dá o tom do encerramento. Entre elas, estão a renomada chef de sushi Fumie Miyoshi e a empreendedora social armênia Mariam Torosyan, destaque do Cartier Women’s Initiative e fundadora da plataforma digital Safe YOU, que oferece ferramentas de segurança para vítimas de violência.

“As coisas podem parecer piorar, mas também há pequenos brotos de esperança por toda parte. Devemos nos concentrar nisso”, comenta Banana Yoshimoto, a consagrada romancista, conhecida por Kitchen (1988), e que diz ter sua vida guiada por uma única coisa: escrever.

Já June Miyachi, presidente e CEO da Cartier no Japão —um destaque em uma estrutura social tradicionalmente machista— acredita que cada uma das histórias contadas no Pavilhão Feminino demonstra como a mudança não precisa ser monumental. Um pequeno ato na vida diária pode ser um passo significativo para promover a igualdade de gênero e de gerações. “Esperamos que isso repercuta em cada pessoa que o visite.” Porque imaginar o futuro, afinal, é também ouvir as mulheres que o constroem.

RENATA BROSINA / Folhapress

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