Perdeu o barco para 1,5°C, dizem ONGs sobre ritmo de descarbonização de navios

LONDRES, INGLATERRA (FOLHAPRESS) – A ONU (Organização das Nações Unidas) adotou a meta de descarbonizar o transporte marítimo até por volta de 2050, com a indicação de reduzir de 20% a 30% das emissões de carbono do setor até 2030 e de 70% a 80% até 2040.

A decisão foi oficializada na manhã desta sexta-feira (7) na plenária da IMO (Organização Marítima Internacional) sob longos aplausos. A nova estratégia de gases-estufa do setor marítimo obteve consenso inédito dos 175 países-membros do órgão da ONU.

Celebrada pela ONU como um acordo histórico para o setor, a decisão foi elogiada por países de diversos blocos como o melhor resultado possível diante da divergência de visões.

“É o mais alto sucesso da política climática depois do Acordo de Paris”, afirmou na plenária final o secretário-geral da IMO, Kitack Lim.

Na plenária final da IMO, Bruno Carvalho Arruda, representante do Itamaraty, também fez discurso elogioso. “O que significa, em um mundo instável, nos reunirmos em torno de um objetivo comum, vindos de diferentes regiões, com diferentes prioridades? Significa que o multilateralismo está vivo, útil e é o único caminho para construir soluções”, afirmou.

A decisão sobre a criação de uma taxa de carbono para navios era esperada para o encontro, mas foi adiada para 2025, após forte objeção dos países em desenvolvimento, vinda principalmente do Brasil e da China.

Os países concordaram em estudar os impactos de diferentes mecanismos de precificação de carbono nos próximos dois anos, quando devem escolher um modelo de taxação -que só deve passar a valer em 2027.

A previsão acordada de zerar as emissões do setor até por volta de 2050 se alinha ao Acordo de Paris de mudanças climáticas, que prevê limitar o aquecimento global entre 1,5°C e 2°C.

As metas de curto prazo, no entanto, falham em se alinhar à recomendação do IPCC (painel do clima da ONU) para manter o aquecimento em até 1,5°C. Para tanto, o setor deveria derrubar suas emissões pela metade até 2030, uma meta bem mais ambiciosa que a acordada, pela qual se prevê reduzir de 20% a 30%.

Segundo uma estimativa do ICCT (International Council on Clean Transportation), o transporte marítimo internacional excederá sua parcela atual do orçamento mundial de carbono de 1,5°C em aproximadamente 2032, mas ainda ficará abaixo de 2°C, dentro do orçamento de carbono compatível com um aquecimento de 1,7°C.

Com o agravamento da crise climática, o compromisso com o teto de 1,5°C se tornou mais sensível, especialmente para países-ilha, que já perdem território para o aumento do nível do mar, e para as nações mais vulneráveis a eventos extremos.

O bloco, no entanto, mostrou contentamento com o acordo, após ter conseguido pressionar os países por metas 5% mais ambiciosas para 2030 e 2040. Como a Folha de S.Paulo mostrou, o Brasil ajudou a costurar essas metas mais altas, passando de vilão a mocinho ao longo da negociação.

O desalinhamento ao teto de 1,5°C marcou a tônica da crítica de ONGs ambientalistas à decisão. Mais de uma dezena de organizações criticaram a ausência de compromisso com uma redução de 50% das emissões do setor até 2030.

“A estratégia de redução de emissões da IMO perdeu o barco para o [teto de] 1,5°C. Não há tempo para medidas pela metade, compromissos vagos e progresso lento. Precisamos que todos os setores sigam a ciência e aumentem sua ambição de limitar o aquecimento abaixo dos níveis catastróficos”, afirmou o Mark Lutes, representante da ONG WWF nas negociações.

Em nota, o presidente da Clean Shipping Coalition, John Maggs, disse que “não há desculpa”. “Eles sabiam o que a ciência exigia e que um corte de 50% nas emissões até 2030 era possível e acessível. Em vez disso, o nível de ambição acordado está muito aquém do necessário para garantir a manutenção do aquecimento global abaixo de 1,5°C, e a linguagem é aparentemente planejada para ser vaga e não comprometedora”, avaliou.

“Os mais vulneráveis travaram uma luta admirável pela alta ambição e melhoraram significativamente o acordo, mas ainda estamos muito longe de a IMO tratar a crise climática com a urgência que ela merece e que o público exige”, completou.

Entretanto, negociadores da decisão ouvidos pela reportagem consideram ilusória a perspectiva de alinhamento no curto prazo à recomendação global do painel do clima da ONU para 1,5°C.

Seria impraticável, ainda segundo negociadores, derrubar emissões pela metade em menos de sete anos, considerando que o setor de transporte marítimo hoje é 100% dependente de combustíveis fósseis, como óleos diesel e bunker.

Para o secretário-geral da IMO, não seria viável ganhar velocidade na redução das emissões já para 2030, porque ainda seria o início da corrida, quando se requer mais força para mover o setor.

“Eu não estou preocupado com 2030, mas com 2040. A meta de reduzir até 80% significa dar o máximo que podemos”, afirmou Kitack Lim à imprensa, após a plenária.

Para as associações ligadas à transição energética da indústria naval, a decisão cumpre o papel de sinalizar ao setor uma direção de substituição acelerada dos combustíveis fósseis por fontes renováveis -como propulsão eólica, biocombustíveis, além de hidrogênio e amônia verdes.

“Nós sabemos que essa decisão não está alinhada à meta de [manter o aquecimento global abaixo de] 1,5°C, mas ainda assim ela é um marco”, afirmou Gavin Allwright, secretário-geral da International Windship Association, ao final da plenária da IMO.

A secretária-geral da Zero Emissions Ship Technology Association, Madadh MacLaine, na plenária, admitiu que “não é suficiente para o 1,5°C, mas é suficiente para acionar o investimento [em energias renováveis para o setor]”.

As novas metas “devem acelerar a introdução de combustíveis alternativos verdadeiramente sustentáveis”, afirmou também, por nota, a diretora de transporte marítimo do Environmental Defense Fund, Marie Cabbia Hubatova.

Em menção à falta de aprovação de um mecanismo econômico, ela afirma que o setor deve trabalhar nos próximos dois anos para se aproximar do Acordo de Paris, no padrão para outros setores cujas emissões também são difíceis de abater.

“Temos o sinal político que precisamos, como setor, para trabalhar na implementação da transição energética”, afirmou à reportagem o coordenador de relações públicas da Maersk Mc-Kinney Moller Center for Zero Carbon Shipping, Jan-Christoph Napierski.

Voltada à pesquisa de soluções para energias renováveis no transporte marítimo, a instituição é patrocinada pela Maersk, uma das maiores empresas de transporte marítimo de cargas no mundo e que testa o uso de biocombustíveis em navios com o objetivo de chegar à neutralidade climática ainda em 2040.

Há dois anos, o presidente da Maersk, Søren Skou, chegou a defender, em sua página no LinkedIn, que os países adotassem uma taxa de carbono para navios de pelo menos US$ 450 por tonelada -4,5 vezes superior à taxa proposta pelos países-ilha.

“Se totalmente implementada, a estratégia ajudará a manter a meta de [aumento de] temperatura de 1,5°C dentro do alcance”, avalia Susan Ruffo, diretor de oceanos e clima da Fundação das Nações Unidas.

“A estratégia envia um sinal inequívoco aos investidores de que os navios que estão sendo encomendados hoje, e muitos já construídos, devem ser capazes de funcionar com combustíveis de emissão zero”, afirma a análise da University Maritime Advisory Services publicada nesta sexta-feira.

“Com uma combinação de mais ações da IMO e ações nacionais, regionais e da indústria, um caminho de redução de gases-estufa alinhado a 1,5ºC está mais claramente ao alcance do que antes”, afirma o relatório.

ANA CAROLINA AMARAL / Folhapress

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