Documentos da Polícia Federal revelam que o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o empresário Augusto Ferreira Lima, executivo ligado ao Banco Master conversaram em ao menos 74 chamadas telefônicas ao longo de um ano e meio.
Ocorridas entre 17 de novembro de 2023 e 25 de maio de 2025, elas somam cinco horas e trinta minutos de duração.
Além das ligações, os documentos apontam que o senador recebeu presentes, usou jatinhos e até articulou um encontro “discreto” em seu gabinete entre executivos do Banco Master e o ministro da AGU (Advocacia-geral da União), Jorge Messias.
Além de Jaques Wagner, outros políticos teriam recebido vinhos do empresário, de até R$ 5.300. Entre eles o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), o ex-prefeito ACM Neto (União Brasil) e o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa (PT).
Os investigadores ressaltam uma nítida preferência pelo uso de ligações de voz via WhatsApp em detrimento de mensagens escritas. Essa forma de comunicação sugere, segundo o documento, uma tentativa de evitar o registro textual de temas sensíveis tratados entre o parlamentar e o empresário.
Messias disse, em nota, que “não participou de reunião com Augusto Lima no gabinete do senador Jaques Wagner”.
O senador foi procurado pela reportagem, mas ainda não respondeu, assim como os outros citados.
Nesta sexta (31), Jaques Wagner disse ter “certeza de que vai provar sua inocência”. Em entrevista à Rádio Baiana FM, afirmou que não poderia dar declarações sobre as suspeitas por orientação dos advogados.
“Vou só citar uma frase no texto do próprio André Mendonça [ministro do STF relator do caso] que diz: ‘O inquérito serve até para afastar a culpa’. Eu tenho certeza que vou provar a minha inocência. O inquérito evidentemente demora um tempo. Eu agora estou focado na eleição”, disse o senador.
Wagner mencionou outra investigação de que foi alvo em 2018, também em ano eleitoral, quando foi candidato ao Senado pela primeira vez.
“Em 2018 teve o mesmo episódio. Na época era sobre [o estádio] Fonte Nova. Abriram inquérito, fizeram aquele barulho, e depois eu nem fui indiciado, não teve nem processo e foi arquivado”, disse.
O senador declarou que tem recebido apoio do presidente Lula e que estará com ele na convenção do PT-BA, marcada para este sábado (1º).
A análise da PF relaciona a duração das chamadas a eventos de interesse do Banco Master. Em 13 de agosto de 2024, data da inclusão da emenda que tratava da cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), Augusto Lima fez uma ligação de 9 minutos e 19 segundos para o senador. Após o término da chamada, o empresário encaminhou o link da emenda diretamente ao senador.
Em 28 de outubro de 2024, após uma conversa de 3 minutos e 12 segundos, Lima enviou ao senador uma notícia sobre a intenção do governo de barrar projetos que colocariam o FGC em risco.
Diálogos indicam que o senador integraria uma ala do governo favorável à venda do Banco Master ao BRB, tema que também permeou as comunicações.
As ligações, porém, não se restringiam a assuntos profissionais. O relatório descreve uma relação marcada por “manifestações de afeto e proximidade pessoal e familiar”. Além das chamadas, a PF investiga se essa proximidade resultou na concessão de vantagens indevidas.
Segundo a investigação, há pelo menos quatro situações em que o senador utilizou aviões ou helicópteros do empresário. Houve também o custeio de ingressos para um show da cantora Taylor Swift, sendo um dos lotes, no valor de R$ 63 mil, destinado à filha e à neta do parlamentar.
A investigação também aponta tratativas para a compra de um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador. O Poème Horto é um empreendimento imobiliário de luxo localizado no bairro Horto Florestal, na capital baiana.
Segundo a Polícia Federal, as negociações continuaram ativamente mesmo após a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, em 18 de novembro de 2025.
A PF afirma que o conjunto das 74 ligações, somado às demais evidências reunidas na investigação, aponta um “arranjo estruturado” entre agentes privados e o agente público. Os investigadores dizem que os indícios sugerem a concessão de vantagens financeiras e patrimoniais potencialmente associadas ao exercício da função pública do senador.
Relatório da Polícia Federal também atribui ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro a coordenação da logística para o transporte do senador em aeronaves privadas, com orientações voltadas a reduzir a visibilidade da operação.
Em mensagens de 11 de setembro de 2024, Vorcaro deu instruções para que o voo ocorresse da forma mais discreta possível. Entre as orientações registradas pela PF estão as frases: “Algum [hangar] que ninguém conheça”, “E tira o avião rápido de lá” e “nem apaga o motor”.
Segundo os investigadores, as determinações tinham como objetivo minimizar o tempo de exposição da aeronave e evitar que a operação fosse identificada por terceiros. O grupo transportado incluía o senador Jaques Wagner e seu assessor Lucas Reis.
A investigação também descreve tratativas para a realização de uma reunião no gabinete do parlamentar com medidas para evitar o registro da entrada dos visitantes.
Em um áudio de 29 de abril de 2024, Jaques Wagner afirma ter conversado com Messias, identificado pela Polícia Federal como Jorge Messias, advogado-geral da União, para ajustar o horário do encontro em razão de compromissos do chefe da AGU com o presidente da República.
Na gravação, o senador sugere que a reunião ocorra em seu gabinete por ser o local “mais protegido e discreto para todo mundo”. Ao empresário Augusto Lima, o senador afirma: “eu posso ir lá embaixo, chegar mais ou menos junto com você… e você não precisa nem passar pela identificação”.
De acordo com o relatório, no dia seguinte ao encontro, o sistema do WhatsApp registrou que Jorge Messias adicionou o contato de Augusto Lima e ativou o recurso de mensagens temporárias, configurado para apagar automaticamente as conversas após sete dias.
Outro ponto identificado pela Polícia Federal no celular de Augusto Lima seria uma mensagem enviada por sua secretária com uma lista intitulada “Lembranças de Final do Ano”. Nela, constavam nomes de políticos, inclusive do senador. Junto à relação de destinatários, havia uma lista de vinhos cujos valores variavam de R$ 2.500 a R$ R$ 5.300.
RAQUEL LOPES / Folhapress


