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PM e GCM usam sirenes para dispersar usuários e evitar novas novas aglomerações na cracolândia

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana estão usando suas equipes para dispersar grupos de usuários de drogas e assim evitar que sejam formadas novas cracolândias no centro de São Paulo.

Quando os agentes percebem uma aglomeração, eles vão em direção aos dependentes químicos e acionam as sirenes das viaturas. Os usuários já entendem como um aviso para se dispersarem e passam a caminhar, aparentemente sem rumo, pela região. Boa parte deles apenas com cobertores sobre os ombros.

A tática tem gerado reclamações de pessoas que moram em prédios no centro. Eles dizem que têm dificuldade de dormir devido a som das sirenes, principalmente durante a madrugada. A ação também ocorre durante o dia.

A Folha de S.Paulo teve acesso a imagens que mostram as forças policiais dispersando os usuários desde 23 de maio até a tarde desta terça (3) em pontos do centro, como nas avenidas São João e Duque de Caxias. Além dos vídeos, a reportagem também testemunhou a ação em alguns locais.

Um morador afirmou que policiais e guardas tratam os usuários como se estivessem tocando gado, e que as dispersões ocorrem de meia em meia hora.

Para outra moradora, o barulho lembra uma zona de guerra. Ela disse temer por sua saúde mental caso a situação.

Ambos disseram que a dispersão realizada por policiais e guardas parece não ter um objetivo final, já que os dependentes químicos deixam um local e vão para outro. Até o mês passado, grande parte dos usuários estava concentrada em um ponto na rua dos Protestantes, mas o local foi esvaziado e agora eles vagam pelas ruas do centro, sem um lugar fixo.

Na noite de domingo (1°), por exemplo, a reportagem viu um grupo de usuários sendo escoltado pelos policiais ao passar pela alameda Barão de Limeira. Um dos PMs seguiu o grupo a pé, com cassetete em mãos.

Pouco depois, os agentes deixaram o local. Cerca de 30 usuários então ficaram concentrados a uma quadra de distância, na rua Barão de Campinas —um dos pontos nos quais os dependentes mais têm ficado durante a noite. Outro grupo menor, com cinco pessoas, sentou-se na Barão de Limeira e começou a usar crack.

A PM e a GCM têm deixado viaturas estacionadas em pontos que já reuniram aglomerações de usuários, como no cruzamento da rua Helvétia com a avenida São João e na praça Marechal Deodoro, onde foi instalada uma base policial.

Procurada, a gestão Ricardo Nunes (MDB) afirmou que não orientou a GCM a dispersar as aglomerações. “Os agentes atuam no patrulhamento permanente e preventivo 24 horas na região e prestam apoio e proteção às equipes de saúde e assistência social do município”, diz a nota.

Ainda de acordo com prefeitura, de janeiro a abril foram registrados 9.947 encaminhamentos de dependentes químicos para atendimentos em serviços e equipamentos do estado e do município, um aumento de 29% em relação ao mesmo período de 2024.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse que o centro de São Paulo é considerado uma prioridade da gestão, especialmente locais públicos com consumo de crack e outras drogas na região.

“Desde o início do mês passado, forças estaduais e municipais de segurança atuam de forma conjunta no monitoramento de possíveis pontos de aglomeração, evitando o tráfico de drogas. A ação visa qualificar os usuários, informá-los sobre os serviços de saúde e assistência social disponíveis e orientá-los a buscar os locais destinados ao acolhimento”, diz a gestão estadual.

A pasta afirma ainda que, durante as abordagens, os usuários são identificados, orientados e submetidos à revista pessoal, com a retirada de objetos considerados de risco, como facas, armas e outros utensílios perigosos.

Para Arthur Pinto Filho, da Promotoria da Saúde Pública de São Paulo, a ação é ilegal. “As pessoas que estão nas ruas não são exóticas, ali estão porque não têm casa, trabalho e renda. Não estão praticando nenhuma ilegalidade e não há lei que as impeça de se sentarem sobre as calçadas. Essa política, além de cruel, é inútil”.

“A dispersão impede o efetivo trabalho da saúde e da assistência social, mas não impede o trabalho do tráfico, que atua de forma evidente na cidade inteira e não só na região central da cidade”, afirmou ele.

O psiquiatra Flavio Falcone, um dos responsáveis pelo projeto de redução de danos Teto, Trampo e Tratamento, também considera que a tática não ajuda os usuários. “A minha visão é que a orientação da política pública está sendo fazer abordagens policiais constantes com a expectativa de que isso faça com que eles peçam ajuda, o que na prática não é verdade.”

Por outro lado, o presidente da Associação Geral do Centro de São Paulo, Charles Resolve, diz que a ação da polícia e da guarda faz sentido.

“Eu não vejo a PM e a GCM a todo tempo dispersando. Eles vêm quando os vizinhos solicitam, pelo menos as denúncias que eu tenho tido dos moradores, devido ao barulho que é gerado, da gritaria, do tráfico. Então, eu não vejo isso como algo ruim”, afirmou.

PAULO EDUARDO DIAS / Folhapress

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