SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – A Polícia Federal está investigando se os fuzis antidrone importados pelo TCP (Terceiro Comando Puro) são os mesmos usados pelo exército chinês, apurou o UOL. A facção criminosa evangélica vive em meio a uma guerra por território contra o CV (Comando Vermelho) nas favelas do Rio de Janeiro,
O QUE ACONTECEU
PF descobriu origem do fuzil antidrone em interceptações telefônicas durante a investigação. Negociação foi rastreada em troca de mensagens em maio de 2024 entre um vendedor e o comprador Everton Vieira Francesquet, preso na semana passada sob a acusação de ser o responsável por comprar armas para o TCP.
Em troca de mensagens em inglês, vendedor pede confidencialidade. “Após a compra, por favor, certifique-se de manter a confidencialidade em relação à transação. Não conte a outras pessoas que você comprou fuzil antidrone comigo”, pede o vendedor.
Em seguida, vendedor diz fabricar fuzis antidrone para o exército chinês. “Nós servimos aos militares na China. Fabricamos para o Ministério da Defesa da China”, explica o vendedor, em mensagem em inglês para Francesquet. Fontes ouvidas pelo UOL afirmaram que a informação está sendo investigada.
Armeiro do TCP também negocia compra com outra vendedora. Ele encaminha então um comprovante de depósito via Pix, confirmando o pagamento pelo produto, um mês após o diálogo com o homem que se identificou como encarregado pela venda do mesmo tipo de equipamento para o exército chinês. “Não se preocupe, eu vou enviar o produto para a sua casa com segurança”, disse a vendedora.
Francesquet conversa por WhatsApp com membro do TCP e diz que fuzil antidrone será encaminhado a Peixão, líder da facção criminosa. “Aí, pega a visão. Essa semana, ele [Peixão] vai dar o dinheiro do localizador. Aí, eu vou pegar contigo, já é? Aí, ele pagou antidrone, eu entreguei na mão dele, ele testou na moral”, disse o armeiro, por áudio.
Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, enviou áudio a Francesquet sugerindo que ele usasse um celular com chip de outro país. O objetivo era evitar eventuais interceptações telefônicas da troca de mensagens (veja abaixo).
“Dá pra gente montar um telefone também, cara. Comprar um telefonezinho bom também só pra essa parada (…) com um número lá de fora. A gente pode montar com um número paraguaio. Ou dar pra gente montar com um número americano, tá ligado?”, disse Peixão, em áudio enviado a Francesquet.
FUZIL ANTIDRONE PARA ‘EXPLODIR’ LÍDER DO CV
O TCP queria usar drones de guerra para matar o líder do CV, indicam conversas pelo WhatsApp. “Irmão, com esse drone, o senhor vai conseguir explodir o Doca, paizão”, disse o armeiro do TCP, se referindo a Edgar Alves de Andrade, o principal líder da facção rival nas ruas. O diálogo ocorreu em junho de 2024, quando Francesquet exibia imagem dos drones de guerra comprados para a facção.
“E a meta vai ser essa mesmo”, respondeu Peixão. O líder do TCP é apontado como um dos criminosos mais procurados do Rio de Janeiro. Ele tem sete mandados de prisão por crimes como tráfico de drogas, associação para o tráfico, homicídio e ocultação de cadáver.
Evangélico, Peixão cita crime como presente de Deus em conversa com armeiro. Ele disse ainda ter “um exército” à disposição para enfrentamentos em áreas de disputa com o CV, facção rival.
“Eu vou tratar essa comunidade que Deus deu na minha mão igual a um país. E, se é um país, ele tem que ter tudo. Primeiramente, Deus, né irmão? À frente desse barco, guardando essa cidade e abaixo de Deus, mano, a gente tem que ter um exército bem aparado, tem que ter tudo”, disse Peixão, em conversa por WhatsApp com Francesquet.
Após citar Jesus, Peixão comemora o fato de ter ferido dois rivais com explosivos em uma área dominada pelo CV. “Qual é, meu mano? Bom dia com Jesus aí? Explodi eles lá também essa noite. Joguei três bombas lá, conseguimos acertar dois [membros da facção rival] lá (…). Porra, que bagulho maneiro!”, disse, em outro áudio enviado a Francesquet, em julho de 2024.
VERSÍCULOS, DROGAS E FUZIS
Peixão domina áreas do tráfico na zona norte do Rio. Evangélico, gosta de usar símbolos e personagens bíblicos.
Trechos bíblicos, bandeiras do Estado de Israel e imagens de Cristo são vistas em grafites e pinturas gospel nestas áreas. Em um “resort do crime” descoberto pela polícia, havia uma instalação em neon da estrela de Davi.
Traficante apelidou o seu grupo criminoso de “Tropa do Arão”, em referência Arão à figura bíblica, irmão de Moisés. A tropa surgiu na Parada de Lucas, depois tomando o controle de Vigário Geral, Cidade Alta, Pica-Pau e Cinco Bocas.
O grupo ficou conhecido pela intolerância a religiões de matriz africana e por usar o nome de Deus para controlar áreas no Rio. No “resort” de Peixão, construído em uma área de preservação ambiental com dinheiro ilícito, a Polícia Civil também encontrou várias bíblias.
“O mundo do crime se legitima pelo terror. Mas a religião faz com que ele [Peixão] adquira um outro tipo de poder diante dos seus comandados. Esses presos da cúpula da facção usavam termos bíblicos em conversas informais com os policiais, e demonstravam ter uma espécie de devoção pelo líder da quadrilha, a quem se referiam como ‘Irmão de Moisés'”, disse Marcus Amim, delegado da Polícia Civil do Rio.
COMO PEIXÃO OCUPOU ÁREA DO CV
Traficante invadiu áreas que eram reduto histórico do Comando Vermelho. Segundo fontes na Polícia Civil ouvidas pelo UOL, Peixão expandiu a sua área de domínio entre o fim de 2017 e o começo de 2018. “O Peixão tem um poderio bélico bem expressivo porque precisa disso para manter o Complexo de Israel e impedir as tentativas de invasão do Comando Vermelho”, disse o delegado Marcus Amim.
Drogas e armas vindas de fora do país. De acordo com investigações, Peixão tem sido um dos principais líderes do TCP na negociação para trazer drogas e armas de países como Paraguai, Colômbia e Venezuela devido à sua rede de contatos no exterior. “O Peixão é o principal articulador nesta segunda-feira (31) do TCP e conta com uma rede de intermediários, que buscam armas e drogas no exterior”, disse o delegado Marcus Amim.
Pelo menos 200 pessoas foram vítimas do TCP nos últimos dois anos no RJ. Em um dos golpes, os criminosos criam anúncios falsos de veículos na internet para sequestrar “clientes” interessados. O dinheiro que seria destinado à compra do carro é roubado e eles pedem Pix aos familiares para soltar os sequestrados.
HERCULANO BARRETO FILHO / Folhapress