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Recife dobra capacidade de prevenir surtos infecciosos com estratégia da OMS

CLÁUDIA COLLUCCI

SÃO PAULO

Município se torna referência mundial em detectar, notificar e adotar ações de saúde em até 15 dias para evitar epidemias

(FOLHAPRESS) Em 30/10/2024 04h00

Uma ferramenta recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) tem ajudado gestores públicos a identificar e a prevenir surtos infecciosos com potencial de se tornarem ameaças à saúde pública.

A métrica foi desenvolvida a partir de evidências científicas internacionais e estabelece um fluxo ideal que deve ser seguido pelos municípios.

Chamada de 7-1-7, a ferramenta preconiza 7 dias para detectar uma suspeita de ameaça à saúde pública (uma doença desconhecida ou com alto potencial de propagação), 1 dia para notificar a vigilância sanitária e 7 dias para estruturar uma resposta eficaz.

O município do Recife (PE) foi o primeiro do país a adotar a metodologia em agosto de 2022 e se tornou uma referência mundial na aplicação da metodologia, que tem apoio técnico da Vital Strategies, uma organização global de saúde pública e parceira da OMS.

Profissional da saúde faz teste de Covid em moradora do Recife Ikamahã-SESAU **** Uma análise preliminar mostra que a capital pernambucana dobrou a capacidade de identificar, notificar e dar uma resposta a casos com potencial epidêmico. No primeiro semestre de 2023, 43% dos casos atingiram a meta de resposta em 7 dias. Em igual período deste ano, a taxa subiu para 80%.

“Isso significa que a vigilância está conseguindo iniciar a resposta para novos eventos muito mais rápido e prevenindo a disseminação de doença”, diz Sofia Reinach, diretora adjunta da área de prevenção de epidemias da Vital Strategies.

A primeira etapa do projeto ocorreu em 2022. As métricas foram aplicadas, de forma retrospectiva, nas seguintes doenças: Mpox, DTHA (doenças de transmissão hídrica e alimentar), hepatite, influenza, Covid-19, VSR (vírus sincicial respiratório), sarampo, leptospirose e lepidopterismo (intoxicações por contato com lagartas ou pupas).

Em cada doença, foi avaliado o cumprimento das metas propostas pela métrica. Nos casos em que os prazos não foram atingidos, foram identificados os motivos da demora e o que poderia ser feito para melhorar a resposta.

Newsletter Cuide-se Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar *** Segundo Luciana Albuquerque, secretária da Saúde do Recife, a ferramenta foi testada na prática pela primeira vez no Carnaval de 2023, quando a cidade recebeu em torno de 2 milhões de pessoas.

No período, foram monitorados 610 casos de doenças infecciosas, entre elas hepatite, sarampo e doença diarreica grave. “Uma das fragilidades que identificamos é que a gente precisava digitalizar o nosso processo de monitoramento desses eventos para facilitar o gerenciamento”, explica Albuquerque.

Até então, a entrada de dados no sistema da vigilância era feita em planilhas, de forma manual. Foi adotado, então, o RedCap, um software gratuito para apoiar o monitoramento de surtos em tempo real. Ele pode ser customizado de acordo com as necessidades do município.

De acordo com a secretária, após a experiência, a equipe de vigilância do Recife incorporou o RedCap ao seu fluxo de trabalho, aplicando a metodologia 7-1-7 de forma rotineira.

Um fator que contribuiu muito para os bons resultados, explica Albuquerque, foi o fato de o município já ter uma vigilância muito forte e atenta, com vários núcleos de epidemiologia em serviços de saúde. A área foi fortalecida após a epidemia de zika vírus há oito anos.

“A gente tem montado estratégias de treinamento, de capacitação dos nossos profissionais da rede para que todos tenham um olhar especial e apliquem métrica para identificar rapidamente um possível surto, uma possível epidemia.”

Entre os gargalos observados para uma resposta rápida aos casos suspeitos foi o acesso a exames que não eram realizados pelo laboratório municipal e precisaram ser encaminhados a serviços estadual ou nacional.

Arte HTML5/Folhagráfico/AFP https://www1.folha.uol.com.br/webstories/equilibrioesaude/2020/10/a-historia-do-sus *** Segundo Sofia Reinach, da Vital Strategies, o mesmo trabalho com aplicação da métrica 7-1-7 no Recife está sendo realizado agora em Vitória (ES). Há também conversas com o Ministério da Saúde e com a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) para expandi-lo em âmbito nacional.

No momento, a metodologia está sendo avaliada nos Estados Unidos e em países da África, como Etiópia, Ruanda, Libéria, Zambia e Nigéria e Uganda, e da Ásia, como Paquistão e Camboja.

Reinach diz que a experiência do Recife tem servido de referência para todos esses países. “O caminho de ir para um governo local [município] e não para o nacional, de ir para a ponta, serve para ver qual a melhor estratégia para ampliar para o nacional.”

Mas ainda há desafios a serem enfrentados para que a ferramenta seja de fato incorporada na rotina dos serviços de saúde. Entre eles, estão as constantes trocas de gestores municipais e a rotatividade dos profissionais de saúde. Em São Paulo, por exemplo, um estudo mostrou que, em três anos, cerca de 40% dos municípios trocaram de secretários da saúde.

“No Recife, a equipe da vigilância é formada majoritariamente por servidores concursados que incorporaram a métrica no trabalho dele. Eles veem vantagem em trabalhar com ela. É um apoio muito claro para quem está na ponta”, diz a diretora da Vital.

Outro desafio é lidar com a intersetorialidade dentro das secretarias da saúde. “A vigilância tem que dialogar com a atenção à saúde e a atenção tem que ver importância nesse trabalho da vigilância, nessa troca.”

Para ela, a métrica só vai funcionar adequadamente quando todas as áreas estiverem envolvidas. “Se lá na atenção, a coleta do exame não estiver sendo feita da forma ideal, vai prejudicar a métrica.”

Outros entraves passam pela alta carga de demandas enfrentada pelos profissionais de saúde. “As pessoas estão todas sobrecarregadas, atendendo pacientes.”

De acordo com Reinach, embora a pandemia da Covid tenha disparado o alerta para a possibilidade de novas crises sanitárias, a sensação é que isso já deixou ser uma preocupação para a sociedade.

“Precisamos voltar a fortalecer a vigilância. Ela já teve momento de mais força. Hoje tem todo esse olhar estratégico para as tecnologias. Mas por que isso não está indo para a vigilância, para torná-la mais moderna?”

Segundo ela, os primeiros resultados da métrica mostram que com uma ferramenta muito simples é possível adotar estratégias de prevenção de futuras epidemias.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde

CLÁUDIA COLLUCCI / Folhapress

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