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Recôncavo da Bahia tem avanço de facções e letalidade policial em meio a desalento

SANTO AMARO E SANTO ANTÔNIO DE JESUS, BA (FOLHAPRESS) – Era manhã de uma segunda-feira quando o cortejo fúnebre atravessou a rua principal de Acupe, distrito da cidade de Santo Amaro (80 km de Salvador). O carro de som, à frente, tocava louvores cristãos. Atrás, famílias e amigos caminhavam enlutados a passos lentos.

O cortejo seguiu até o cemitério, onde seria enterrada mais uma vítima de morte violenta na comunidade. Desta vez, um idoso que havia vendido um terreno e foi alvo de um roubo seguido de morte dentro de casa, com golpes de um objeto perfurante.

A vila de 7.000 habitantes é um dos epicentros de uma série de mortes violentas que se tornaram rotina em cidades do Recôncavo Baiano, região do entorno da Baía de Todos-os-Santos que abriga cidades históricas e é um dos berços da cultura afro-brasileira no país.

Em meio a escassez de políticas sociais e de alternativas de trabalho e renda, a região enfrenta um avanço de facções criminosas, com disputas por territórios em áreas urbanas e rurais e episódios de letalidade policial.

O cenário é um desafio para o governo Jerônimo Rodrigues (PT). Dados da Secretaria de Segurança Pública da Bahia apontam que a taxa de mortes violentas na região, que engloba 19 cidades, ultrapassou a média do estado em 2022 e chegou a 40,4 mortes por 100 mil habitantes.

Fundada em 1557 nas margens do rio Subaé, Santo Amaro tem 56 mil habitantes e é conhecida por sua riqueza cultural. É cenário do candomblé de rua Bembé do Mercado, dos folguedos do Nego Fugido e legou ao país artistas como Maria Bethânia e Caetano Veloso.

Pela localização estratégica, próxima à capital e cercada de praias, rios e manguezais, se tornou um entreposto de facções criminosas que atuam na Bahia. A cidade teve 42 mortes violentas no ano passado, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Santo Amaro é um dos locais de atuação da facção BDM (Bonde do Maluco), uma das mais violentas do estado e se tornou parceira do Terceiro Comando Puro, grupo com origem no Rio de Janeiro. A aliança foi registrada com pichações em muros da periferia da cidade.

Os dois grupos criminosos disputam territórios com o Comando Vermelho, que incorporou a facção baiana Comando da Paz e passou a atuar no estado desde 2020.

O tráfico se espalhou pela zona rural e, aos poucos, chegou a localidades outrora pacatas. No Acupe, vila que cresceu no entorno de engenhos de cana-de-açúcar no período colonial, famílias vivem entre a vigilância de grupos criminosos e o receio de ações policiais.

O distrito abriga uma comunidade conhecida como Alto do Cruzeiro, que foi reconhecido em 2010 como remanescente de quilombo, mas ainda aguarda a titulação das terras.

A maioria dos moradores são pescadores e marisqueiras, que nos últimos anos viveram a situação insólita de serem proibidos por criminosos de venderem em vilas próximas por serem áreas dominadas por outra facção.

Entre os moradores, impera a lei do silêncio. A Folha conversou com mais de uma dezena de pessoas e todas pediram para não serem identificadas.

O clima de medo se intensificou a partir de 29 de setembro, quando uma ação policial na comunidade Prainha do Quilombo deixou mortos quatro jovens entre 23 e 28 anos. A polícia alega que eles eram líderes do tráfico de drogas na região e que houve troca de tiros, o que é negado pelas famílias.

Moradores dizem que a polícia chegou em uma van descaracterizada, com o logotipo de uma empresa, e teria atirado contra um grupo que estava na porta de uma casa. A Polícia Militar foi questionada sobre o uso da marca de uma empresa privada no veículo, mas não respondeu.

A viúva de um dos mortos, pedindo anonimato, compara o episódio a um filme de terror. Ela afirma que, desde então, os filhos que presenciaram a ação estão traumatizados e a comunidade, apreensiva.

No cemitério do distrito, uma mulher agachada em frente a um túmulo chorava mais uma vez a perda do filho, assassinado há um ano. Naquele dia, ela voltava ao local para o enterro de outro parente morto de forma violenta.

Em conversa com a Folha, ela afirma que as famílias da comunidade vivem sob vigilância e a mercê das ordens de grupos criminosos. Também critica a falta de proteção da polícia e a ausência de apoio das autoridades por meio de políticas públicas.

No distrito do Acupe, são raros os empregos formais e projetos sociais que incluam os mais jovens. Em geral, a pesca é o único caminho de sustento para quem permanece na região. A outra opção, em muitos casos, é o crime.

O Recôncavo viveu um período de otimismo nos anos 2010 com a instalação de um estaleiro em São Roque do Paraguaçu, na cidade vizinha de Maragogipe. Mas o empreendimento foi descontinuado em meio à crise da Petrobras e a maioria dos contratados perdeu seus empregos.

O cenário de desalento coincidiu com o avanço da violência. Maior município do Recôncavo com 103 mil habitantes, Santo Antônio de Jesus foi a segunda cidade mais violenta do país em 2022, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com 91 assassinatos.

Depois do pico de mortes no ano passado, a cidade registrou uma queda de 73% no número de mortes violentas entre janeiro e outubro deste ano, disse o governo.

O avanço da violência repete a dinâmica dos grandes centros, em que jovens negros de bairros periféricos morrem em meio a disputas por territórios por facções e também em ações policiais. No bairro Irmã Dulce, os muros são marcados por mensagens de luto e lamento pela morte de filhos da comunidade.

Uma das vítimas foi o estudante Jacson Cleiton Santos Andrade, 15, morto com um tiro na nuca em meio a uma abordagem policial em março de 2022. O adolescente permaneceu sedado por cerca de uma semana até ser constatada sua a morte encefálica.

“Foi um dos piores dias da minha vida. Meu filho era só uma criança, um menino sonhador que adorava cavalo e queria ser veterinário. Tiraram meu filho de mim”, afirma a mãe, Claudinéia da Silva Santos, 45, auxiliar de serviços gerais.

Na época, a PM informou que o jovem -que não tinha ficha criminal- reagiu e trocou tiros ao ser abordado pela polícia. A versão foi rechaçada por testemunhas, pela família e pela comunidade na qual ele vivia.

O caso está sendo investigado pelo Ministério Público estadual, que em janeiro cumpriu mandados de busca e apreensão em imóveis de quatro policiais.

Jacson foi contabilizado como um dos 1.464 mortos em intervenção policial na Bahia no ano passado, número que fez o estado ter a maior taxa de letalidade do país.

O número de mortes registradas como autos de resistência do estado quadruplicou entre 2015 e 2022.

O governo diz que ações policiais são pautadas na legalidade e buscam a preservação da vida. Também afirma que realiza ações integradas no Recôncavo, criou um novo comando de polícia e uma unidade especial tática para a região, reforçou as tropas e comprou equipamentos. O resultado foi uma queda de 47% nas mortes violentas na região entre janeiro e outubro de 2023.

Sem enxugar as lágrimas dos olhos, Claudinéia desenrola um painel com a foto do filho e promete seguir em frente: “Hoje, luto para que outros Jacsons não sejam mortos. Meu filho não vai voltar, mas meus netos estão aí, o filho da minha vizinha está crescendo. Não quero que outras mães passem o que passei.”

JOÃO PEDRO PITOMBO / Folhapress

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