SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O único país do G7 que ainda não reconhece plenamente casais do mesmo sexo nem lhes oferece proteção jurídica clara é o mesmo que tem um grande filão de quadrinhos, animações e games de temática LGBTQIA+. Falo do Japão, cujo cinema ainda guarda relíquias desse universo como “O Funeral das Rosas”, de 1969, sobre a noite gay em Tóquio.
Na esteira desse debate cultural, o tema tem rendido respostas sensíveis na produção recente do país, como em “Monster”, de Hirokazu Kore-eda, premiado no Festival de Cannes, e agora este “Sol de Inverno”, que chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira passar na mostra Um Certo Olhar do evento francês.
A escala dos projetos é diferente, mas há vários pontos de contato. O longa mais recente de Kore-eda aposta num roteiro com vários pontos de vista e gêneros, até culminar numa reflexão sobre a inocência e o amor infantil, algo chave neste filme de Hiroshi Okuyama, mais enxuto e intimista.
“A representação LGBT no Japão continua presa a extremos. Ou é um filme bem sisudo sobre o assunto, ou são filmes ‘light’, caricatos, comédias românticas. Quis incluir o tema no cotidiano para tratá-lo de forma mais sutil”, diz Okuyama, de 28 anos, que já trabalhou com Kore-eda na série “Makanai: Cozinhando para a Casa Maiko”, disponível na Netflix.
Do mestre, Okuyama parece ter puxado o interesse em atores mirins. Em “Sol de Inverno”, Takuya, um menino de nove anos, se muda com a família de Tóquio para uma área mais rural na ilha de Hokkaido. Como os outros meninos da sua idade, passa o tempo livre treinando hóquei, um esporte pelo qual, logo vemos, não tem a menor afinidade.
Eis que surge Sakura, uma menina tão tímida quanto ele, que faz da pista de gelo o palco de suas coreografias, sob a supervisão do técnico Arakawa, que aos poucos se revela o fio condutor deste triângulo. É ele quem, numa bela cena que cruza os olhares desses três personagens, nota o deslocamento do pequeno Takuya e se habilita a introduzi-lo ao equilíbrio e à graça desse esporte.
Aos poucos o filme entrega dados importantes sob a forma de detalhes Arakawa tem um passado brilhante na patinação no gelo, mas hoje vive isolado naquela vila com seu namorado frentista. Hoje, no caso, meados dos anos 1990, numa cidade do interior, somado a sua forte aproximação com as crianças será o conjunto ideal para uma série de mal-entendidos.
A província já foi cenário do primeiro longa de Okuyama, “Jesus”, sobre as dificuldades de um jovem para estudar num colégio católico, sem saber nada sobre o cristianismo, minoritário no país.
“Arakawa é fruto dessa época quando era mais difícil expressar seus sentimentos e ele vê isso refletido de outra forma no garoto, sem saber se é admiração ou paixão. O olhar do meu personagem projeta a sua própria infância”, diz Sosuke Ikematsu, que vive o treinador.
Aos 34, o ator é uma das mais versáteis estrelas do cinema japonês, com mais de 80 títulos no currículo, desde “Assunto de Família”,a Palma de Ouro de Kore-eda, à ação experimental de um “Shin Kamen Rider”.
Em comum entre os três personagens, Okuyama vê um sentimento particular de solidão, seja no isolamento de Arakawa, seja na ausência de um suporte familiar, no caso das crianças.
O filme soma também um pouco da sua biografia o cineasta patinava quando pequeno, em Tóquio e da sua relação com a estética televisiva daí a opção por um formato de tela mais quadrado. Porém, mais que uma reconstrução de época, essa estética ressalta o choque entre uma amizade genuína e o silêncio imposto pela sociedade, como os raios de sol que dão fim ao inverno.
SOL DE INVERNO
– Classificação 12 anos
– Elenco Sosuke Ikematsu, Keitatsu Koshiyama, Kiara Nakanishi
– Produção França, Japão, 2024
– Direção Hiroshi Okuyama
– Onde ver Em cartaz nos cinemas
HENRIQUE ARTUNI / Folhapress
