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Taiwan lida com nova pressão de Trump e vai orientar indústrias a buscar outros mercados

TAIPÉ, None (FOLHAPRESS) – A primeira semana de abril foi agitada para o governo de Taiwan. No mesmo dia em que acompanhava a China simular uma invasão à ilha usando munição real, Taipé via seu maior parceiro comercial, os Estados Unidos, impor tarifas de 32% sobre todos os seus produtos.

Às vésperas de um feriado nacional prolongado, integrantes de ministérios desmarcaram suas folgas e começaram a trabalhar em estratégias para lidar com a pressão —não a de Pequim, mas a de Washington.

“Ninguém descansou bem, porque o famoso presidente Trump publicou uma série de tarifas e isso afetou muito a agenda dos funcionários”, disse a vice-ministra do Conselho de Desenvolvimento Nacional de Taiwan, Shien-Quey Kao, em encontro com jornalistas cinco dias após o chamado Dia da Libertação.

Número dois do órgão que planeja as políticas de desenvolvimento da ilha, a vice-ministra afirmou que a estratégia do governo para lidar com o tema passava por orientar empresas nacionais a procurarem outros mercados para seus produtos.

“O governo [taiwanês] começará a trabalhar na negociação com os EUA e ao mesmo tempo implementará uma série de apoios às indústrias locais. No entanto, também daremos uma orientação a essas indústrias para tentarem buscar outros mercados.”

Essa não é a primeira vez que Trump força uma correção de rota econômica em Taiwan. Em seu primeiro mandato na Casa Branca, o presidente americano inaugurou uma guerra comercial com a China, impondo tarifas e barreiras comerciais como forma de atacar o que chamava de práticas desleais e roubo de propriedade intelectual.

No meio desse conflito entre Washington e Pequim —que começou por volta de 2018—, Taiwan se tornou alvo indireto. Isso porque, apesar das animosidades entre o regime chinês e o governo taiwanês, as relações econômicas através do estreito são intensas.

Naquela época, diversas empresas de Taiwan aproveitavam o menor custo de mão de obra na China continental para instalar suas fábricas e depois exportar produtos para outros países, como lembrou Shien-Quey.

Segundo a vice-ministra, o governo sugeriu então que as companhias movessem suas fábricas para outros lugares a fim de não se tornarem vítimas do conflito entre EUA e China, o que levou indústrias taiwanesas para o Vietnã, Indonésia e outros países do sudeste asiático que agora integram a lista de tarifaço de Trump.

“Como Trump voltou a ser presidente e voltou a colocar obstáculos para os fabricantes, de fato estamos pensando em sugerir que movam suas fábricas para outros lugares”, afirmou Shien-Quey. “Pode ser que movam suas instalações para outro continente”, acrescentou.

Taiwan é uma ilha com 23 milhões de habitantes e território pouco maior que o estado do Rio de Janeiro. Em 70 anos, passou de uma sociedade agrícola para uma potência industrial, principalmente na cadeia de suprimentos tecnológicos. Entre 2017 e 2023, cresceu em média 3,37%, sendo que em 2024 o PIB (Produto Interno Bruto) subiu 4,2%.

Hoje, é um gigante dos chips semicondutores —considerados o cérebro da inteligência artificial e de quase toda tecnologia moderna.

Sua economia, porém, é bastante dependente de comércio exterior. Importações e exportações somadas representam mais de 100% do PIB de Taiwan.

Os EUA são o maior destino das exportações taiwanesas. Em 2024, foram mais de US$ 111 bilhões em mercadorias, representando 23% do total das exportações —a maioria computadores, acessórios de informática e semicondutores. Ou seja, uma redução nesse fluxo provocada pelas tarifas de Trump traria um impacto forte na economia de Taiwan.

Em artigo publicado na Bloomberg em 9 de abril —uma semana após o Dia da Libertação—, o presidente de Taiwan, Lai Ching-te, destacou a longeva parceria econômica com os EUA.

“Nosso vínculo é forjado por uma crença inabalável na liberdade. Por décadas, nossas duas economias se uniram para impedir o expansionismo comunista”, escreveu.

Lai também destacou que o sucesso da economia de Taiwan no longo prazo se baseia em relações comerciais justas, recíprocas e mutuamente benéficas. Encerrou o artigo dizendo estar confiante de que os interesses econômicos e de segurança compartilhados entre Taiwan e EUA superarão a turbulência comercial.

No começo de maio, o governo taiwanês disse ter concluído a primeira rodada de negociações tarifárias com os EUA, descrevendo o clima das conversas como “franco e cordial”. Posteriormente, o presidente afirmou que as tensões comerciais são apenas “atritos entre amigos”, em uma nova demonstração de otimismo com as conversas em andamento.

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O repórter viajou a convite do Ministério das Relações Exteriores de Taiwan

THIAGO BETHÔNICO / Folhapress

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