SÃO PAULO, SP (FLHAPRESS) – Donald Trump confima a efetividade de taxas sobre o aço e o alumínio, mercado acionário procura alternativas aos EUA e outos destaques do mercado nesta quarta-feira (12).
**PUNHOS DE AÇO**
Nesta terça-feira (10), tivemos a confirmação de taxas do governo Trump que impactam o Brasil. O presidente dos EUA anunciou que prosseguirá com as tarifas de 25% sobre o aço e o alumínio de todos os parceiros comerciais, sem exceções ou isenções. A medida já está valendo.
E nós com isso? O Brasil é um dos grandes fornecedores de aço para o mercado americano. Segundo dados do governo dos EUA, em 2024:
O Canadá foi o maior fornecedor de aço, em volume, com 20,9% do total.
Em seguida, o Brasil, que compôs 16% das importações estadunidenses, com 3,88 milhões de toneladas.
Em terceiro lugar, o México, que vendeu 11,1% do que foi comprado.
Em cifras, o Brasil ficou atrás do México: receberam US$ 2,66 bilhões (R$ 15,4 bilhões) e US$ 2,79 bilhões (R$ 16,2 bilhões), respectivamente.
TROCA DE ACUSAÇÕES
Quase metade das exportações de aço brasileiras vão para os EUA. Isso coloca em risco uma boa parte da produção siderúrgica por aqui.
A parceria comercial era nutrida, sobretudo, por uma cota que o Brasil tinha para exportar aço para os EUA sem impostos extra. O mecanismo foi instaurado no primeiro mandato de Trump e extinto no governo de Joe Biden.
Entre as justificativas para os novos impostos, a Casa Branca citou o aumento expressivo de compra de aço da China pelo Brasil na visão de Trump, os brasileiros compram aço chinês mais barato para vender a produção a preços maiores para os EUA.
O Instituto Aço Brasil, que representa as siderúrgicas daqui, disse ter recebido com surpresa o anúncio e negou estar importando metais chineses para se beneficiar.
NA MIRA
As empresas mais afetadas devem ser Ternium, Arcelor Mittal e Usiminas, segundo analistas ouvidos pela Folha de S.Paulo.
A Gerdau, por outro lado, deve ser uma das menos atingidas. Menos de 10% das exportações da produção da empresa no Brasil vão para a América do Norte ela prioriza os mercados das América do Sul e Central, além de fazer investidas na Europa.
Até a conclusão desta edição, o governo brasileiro não se pronunciou sobre o assunto. O presidente Lula visitou a unidade de Ouro Branco (MG) da Gerdau ontem, mas não abordou o tema.
**METENDO O PÉ**
O dia desta terça-feira também contou com o anúncio de Trump de que dobraria a tarifa a ser cobrada para produtos com aço e alumínio do Canadá, que seriam taxados em 50%. Mais tarde, ele recuou.
Na última edição, falamos sobre como as falas do republicano afetam a confiança dos investidores em deixar seu dinheiro em ativos que consideram instáveis.
Êxodo da renda variável? Não exatamente. É fato que, em momentos de tensão, investidores tendem a sair de aplicações que consideram menos seguras.
Mas ainda existe apetite do mercado para esse tipo de ativo só não nos EUA.
– Neste ano, até o momento, o Stoxx 600, índice que reúne as ações das principais empresas europeias, cresceu 12%;
– O DAX, da Alemanha, 19%;
– O Hang Seng, que lista algumas empresas chinesas que negociam em Hong Kong, subiu 19%.
Para cravar que os investidores estão vendendo seus papéis nos EUA e comprando nesses outros lugares, seria necessário ter acesso às transações de cada um. O que fazemos aqui é olhar para dados e tentar dar sentido a fenômenos distintos que acontecem em lugares diferentes.
A MARÉ VIROU
No final do ano passado e nos dois primeiros meses deste, os índices acionários americanos estavam a todo vapor, quebrando recorde atrás de recorde nos pregões.
Isso porque o assunto do momento era o boom da inteligência artificial. As empresas que encabeçam essa transformação tecnológica estão, em sua maioria, nos EUA.
Alguns fatores interromperam a cadeia de otimismo:
Ascensão da DeepSeek e de tecnologias avançadas vindas de outros países sobretudo da China.
Tensão sobre um possível aumento da inflação, e, consequentemente, da taxa de juros. Um alto patamar de ágio em certos tipos de negociação.
Preocupações sobre o desempenho da economia e das empresas sediadas no país com as novas tarifas de Trump, uma vez que as operações devem ficar mais caras e subir os preços nas etiquetas.
Mas o revés pode durar pouco, tudo depende do que toma o holofote. O bom desempenho das ações nos EUA pode voltar quando a narrativa dominante for a IA novamente, na visão de Dirk Willer, chefe global de macroeconomia do Citi.
Aqui no Brasil assim como no mundo inteiro, há medo de uma recessão nos EUA ou de uma disrupção ampla demais na cadeia de suprimentos global.
Isso e o pior desempenho dos índices afastam (um pouco) as gestoras da renda variável por enquanto.
Os mercados têm lido essa narrativa [de Trump] como um perigoso convite a uma recessão, e não por acaso vimos taxas de juros cadentes ao longo do mês, combinadas com quedas dos principais índices de ações, diz a equipe do fundo Verde, criado por Luis Stuhlberger.
**ARRASTA PARA BAIXO**
Os tempos não são doces para a Raízen, braço produtor de açúcar e etanol e distribuidora da Cosan tudo sob a batuta do bilionário Rubens Ometto.
A empresa atingiu ontem um de seus piores patamares desde que a companhia abriu capital na bolsa de valores brasileira, em 2021 os papéis terminaram o pregão valendo R$ 1,74 cada.
Hoje, seria necessário que a empresa fosse três vezes maior, em patrimônio, para o pagamento de sua dívida, segundo o estimado por um levantamento da consultoria Elos Ayta a pedido da Folha.
Entenda: para compreender o quão fundo o pé de uma empresa está na areia movediça, usamos a relação entre a dívida bruta e o patrimônio líquido ou seja, quanto do que ela tem está comprometido com o pagamento do que deve.
Esse índice atingiu 317,04% no quarto trimestre de 2024, no caso da Raízen.
O valor, além de recorde, equivale ao triplo da mediana de empresas do mesmo setor.
↳ A companhia é uma joint venture, ou seja, uma união de duas outras para realizar um projeto específico. Aqui, as matronas são Cosan (também de Ometto) e Shell (petroleira britânica).
Os números, divulgados no balanço dos últimos três meses de 2024:
– R$ 64,7 bilhões é a dívida bruta da Raízen;
– R$ 54,8 bilhões, a dívida líquida;
– R$ 9,4 bilhões foi o prejuízo do ano passado.
A empresa está gerando R$ 9 de lucro operacional a cada R$ 100 de dívida bruta, abaixo da taxa Selic, hoje em 13,25%. Isso faz com que credores cobrem juros mais altos, já que a companhia não demonstra boa capacidade de pagamento.
Nem sempre a relação lucro/dívida sozinha é o suficiente para medir a saúde financeira de uma empresa. Contudo, mesmo na comparação com outras do setor de combustíveis listadas na B3, a situação da Raízen preocupa só fica na frente da Braskem.
Como chegamos aqui? Uma combinação de dois fatores:
– Depois de ter aberto seu capital e ganhado uma grana, a empresa fez um ciclo de investimentos importante. Contraiu muitas dívidas na expectativa de ganhar dinheiro e manter uma alavancagem saudável. Mas
– os juros aumentaram, o que tornou as dívidas cada vez mais difíceis de liquidar. Daí foi ladeira abaixo.
Durante um evento em fevereiro, Rubens Ometto, empresário por trás da Raízen, disse que juro alto deixa o empresariado brasileiro vagabundo. Veja o posicionamento completo aqui.
**DEPENSA CHEIA**
Inflação talvez seja a palavra que você mais leu nesta newsletter, e não é à toa: quando ela está alta demais, impacta a vida de todos de grandes empresas à feira de rua.
E é por isso que o governo Lula tem procurado formas de segurar o aumento dos preços dos alimentos. A alta reduz o poder de compra das famílias e agrava os índices de reprovação do mandato.
A nova ideia que chegou à Folha fresquinha, recém-saída das mesas do Ministério da Agricultura (Mapa) e do Desenvolvimento Agrário (MDA)é ampliar o poder de compra de alimentos pelo governo federal, em nome de reduzir a especulação, a inflação e a escassez de produtos.
Como? Há uma estatal chamada Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), responsável pelas políticas de abastecimento e segurança alimentar do país.
Uma das principais mudanças previstas no novo texto diz respeito à PGPM (Política de Garantia de Preços Mínimos). Ela dita o preço mínimo de produtos agrícolas, deixando os produtores rurais menos vulneráveis às oscilações do mercado.
O novo projeto de lei determina que o governo pode pagar até 30% acima do preço mínimo para comprar os produtos, como forma de criar estoques estratégicos.
Hoje, a Conab só pode comprar os itens de um produtor agrícola quando vendidos no preço mínimo determinado. O PL quer abrir espaço para que a estatal aumente suas provisões.
↳ O governo federal mantém um estoque dos produtos mais importantes para a alimentação dos brasileiros, como arroz, feijão e milho. Essa é uma forma de evitar que eles faltem nos supermercados, por exemplo.
↳ Também servem como forma de tentar controlar os preços: se o arroz fica caro demais, o governo pode liberar um pouco do armazenamento para tentar abaixar os valores pelo aumento da oferta. Algo parecido acontece no Japão, e você pode ler sobre o tema clicando aqui.
DIFERENTES SAÍDAS
Uma vez armazenado, há várias formas de o produto sair das mãos do governo:
Indústrias e comerciantes podem comprar os alimentos por meio de leilões públicos, para revenda no mercado;
Agricultores familiares e cooperativas também podem acessar alguns programas de compra direta;
Órgãos públicos e projetos sociais também recebem estoques para distribuição de alimentos.
Não agradou todo mundo. A FPA (Frente Parlamentar Agropecuária), dona da maior bancada do Congresso, reagiu mal à proposta. Ela apontou dois motivos para a discordância:
Os gastos maiores com a compra de provisões pode pressionar os recursos para o Plano Safra, que já estão escassos, na sua visão;
Para os parlamentares, a proposta subverte o conceito de estabelecer um preço mínimo e abre margem para corrupção e desvio de função.
**O QUE MAIS VOCÊ PRECISA SABER**
Tá chegando a hora. Receita Federal divulga regras do Imposto de Renda 2025. Veja aqui os prazos e quem precisa declarar.
Não adianta Trump gritar, pois aprendi a não ter medo de cara feia…disse Lula. O presidente ainda expressou o desejo de ser respeitado em negociações internacionais.
Suspensa. Anac paralisa operações da Voepass por falta de segurança. Em agosto do ano passado, um voo operado pela companhia caiu e matou 62 pessoas em Vinhedo.
Fique alerta. Prejuízo com golpe financeiro subiu a mais de R$ 10 bi ano passado. Os dados são do rombo no setor bancário, que também recaem sobre os clientes.
LUANA FRANZÃO / Folhapress
