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Vinícola Aurora vai em busca da reputação perdida após caso de trabalho análogo à escravidão

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – No início de 2023, a Vinícola Aurora, aos 92 anos de atividades, foi estremecida pela notícia da prática de trabalho análogo à escravidão por uma de suas terceirizadas. Foram dias difíceis, com consequências nacionais e internacionais na imagem e nos negócios da maior cooperativa vinícola do país.

“Desde o ocorrido, a Aurora passa por uma curva de aprendizado muito grande. Foi um momento triste na história da cooperativa, e ela aprendeu a responsabilidade que tem de não brincar com coisas sérias”, afirma Rodrigo Arpini Valerio, diretor de marketing e de vendas da Cooperativa Vinícola Aurora.

“A Aurora está colocando no seu DNA que essas coisas nunca mais devem ocorrer com ela ou com seus fornecedores.”

A cooperativa teve de assumir compromissos, por meio de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), de conviver com a presença de representantes do Ministério Público e do Trabalho em suas dependências, se alinhar com as práticas da Organização Internacional do Trabalho e se adaptar a novas exigências.

Além disso, estabeleceu um canal externo de denúncia para antecipar eventuais problemas na operação ou no relacionamento entre a empresa, consumidores e os demais setores da cadeia produtiva.

A Aurora quer ir além dessas exigências de adaptação após a crise. A vinícola está adotando a estratégia ESG (boas práticas ambientais, sociais e de governança), fazendo parcerias com a PUC do Paraná no desenvolvimento de projetos de compliance, programa anticorrupção e antissuborno e redução da emissão de gás carbônico durante todo o processo produtivo.

A questão cultural foi uma das grandes dificuldades no plano de ação desenvolvido com relação às práticas agrícolas. A cooperativa tem 1.076 famílias cooperadas, e cada uma com seus métodos e horários de trabalho.

A longa jornada diária que essas famílias exercem não é adequada para outros trabalhadores que atuam nas propriedades. Foi um processo difícil, mas já foi implementado, diz o diretor.

Valerio afirma que ainda há desafios, mas que todos os que trabalharam no descarregamento de uva neste ano já foram contratados com base na CLT, e o treinamento para cooperados e para fornecedores continua.

Tudo que a empresa construiu ao longo dos anos ficou abalado. Agora, é hora da reconstrução da reputação. Pode demorar, mas o que for feito terá de ter muita verdade e transparência, afirma.

A crise da Aurora veio em um momento difícil para o mercado do vinho. Externamente, a produção caiu, devido ao clima, mas os estoques estão elevados. O consumo mundial é menor, e o Brasil passou a atrair ainda mais o setor externo.

Em 2023, a produção mundial de vinho recuou 10%, e o consumo, 5%, segundo dados da OIV (Organização Internacional do Vinho).

Internamente, o Brasil vem obtendo safras de boa qualidade, como a de 2020, mas a concorrência do vinho externo coloca empecilhos para uma evolução do produto nacional. Existe, ainda, a tradicional barreira da renda do consumidor.

O Brasil também foi afetado pelo clima. Neste ano, a Aurora produziu 50,3 milhões de quilos de uva, 29% inferior ao de 2023. Em relação à média dos últimos dez anos, a redução é de 22%.

As principais vinícolas brasileiras estão na região de Bento Gonçalves (RS). A Aurora tem produção em 11 municípios. Novas regiões, no entanto, como as de Minas Gerais, de São Paulo e até no cerrado, começam a surgir.

Valerio diz que Aurora também está de olho e avaliando essas novas regiões, mas que a baixa produtividade ainda torna o vinho muito caro para o padrão brasileiro. É uma questão que a Embrapa, assim como fez com a soja, deverá resolver com o tempo, afirma.

Um hectare de videira, com um restaurante e um roteiro turístico, certamente é muito mais interessante do que a área ocupada por soja, segundo o diretor da Aurora.

O mercado de vinho é muito dinâmico. Assim como essas novas áreas podem trazer novos produtos, é preciso investir também nas regiões tradicionais.

A Aurora tem um centro tecnológico para testes de novas variedades. Espalhados por 11 municípios, os parreirais da vinícola estão inseridos em 1.076 microclimas. São 60 variedades, segundo Valerio.

O consumidor brasileiro começa a ficar exigente e quer uma bebida mais adaptada ao país. O fator econômico ainda pesa, mas muitos subiram um degrau na exigência do padrão do vinho. Outros querem um vinho mais leve e adaptado ao calor da região.

Carga tributária e importação são outros dois gargalos para o setor. A reforma tributária sobrecarrega ainda mais o vinho, e as importações dispararam nos últimos meses.

A margem de revenda do varejo no produto importado é muito maior do que no nacional, o que facilita a colocação do produto externo. A pandemia trouxe um alívio para a comercialização do produto nacional, uma vez que as fronteiras estavam fechadas, mas a concorrência do importado voltou a ser forte.

O Brasil já consegue exportar, mas essas vendas exigem muito trabalho e investimentos. Ao chegar no mercado externo é comum os negociadores ouvirem dos eventuais compradores que conhecem muito bem o país por samba, praias, Carnaval e Rio de Janeiro, mas não pelo vinho.

MAURO ZAFALON / Folhapress

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