A Epopeia da Noroeste: o papel de Araçatuba na Revolução de 1932

Em "A Verdadeira História de Araçatuba", o pioneiro e combatente Fabriciano Juncal narra como a cidade se organizou para apoiar o levante

Soldados saíram de Araçatuba para o front | Foto: Arquivo

A história da Constitucionalista de 1932, celebrada neste 9 de julho, é frequentemente lembrada pelos grandes combates nas divisas do estado de São Paulo, mas o suporte logístico e a mobilização de voluntários nas cidades do interior foram fundamentais para manter o movimento ativo. No Noroeste Paulista, Araçatuba desempenhou um papel de destaque nesse esforço, transformando-se em um importante polo de articulação local que organizou batalhões, confeccionou fardas e enviou centenas de homens para as frentes de combate contra o governo de Getúlio Vargas.

As memórias desse período foram registradas em detalhes por Fabriciano Juncal, testemunha ocular e participante ativo do movimento, no livro A Verdadeira História de Araçatuba. De acordo com os seus relatos, o sentimento de revolta na região já era latente diante da recusa de Vargas em conceder a São Paulo um interventor civil e paulista. “São Paulo sempre esteve inferiorizado nesse campo”, relembrou o autor, destacando o incômodo da população com a nomeação de interventores militares de fora do estado.

Na verdade, em todo o estado de São Paulo era grande a insatisfação com o governo provisório de Vargas, que alçara ao poder em 1930, com um golpe de Estado. Os paulistas esperavam a convocação de eleições, mas dois anos se passaram e acontecia. Além disso, exigiam uma nova Constituição e a saída imediata do pernambucano João Alberto, nomeado interventor de São Paulo.

O estopim e a organização do QG araçatubense

Quando as forças paulistas pegaram em armas, no dia 9 de julho de 1932, a ordem para estender o movimento até a Noroeste não demorou a chegar. Juncal recebeu a missão de organizar em Araçatuba o M.M.D.C. (sigla que homenageava os estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, mortos em maio daquele ano). Lideranças locais como Mário Camargo, Dario Ferreira Guarita (que hoje dá nome ao aeroporto da cidade) e o então prefeito João Arruda Brasil, hoje nome de avenida, aderiram ao movimento.

O Quartel-General foi instalado na praça Rui Barbosa, no velho prédio da antiga Câmara Municipal, segundo Fabriciano Juncal. E, a partir daí, Araçatuba se transformou no centro regional da Revolução. Era na cidade que foram organizados os concursos para oficiais, comissões para requisitar armamentos e tudo o mais que fosse necessário para o abastecimento das tropas que partiam da linha férrea.

O esforço das mulheres e os dois batalhões

A mobilização envolveu toda a sociedade civil. Juncal destacou o “maravilhoso destaque” das mulheres araçatubenses, que montaram um salão de costura comunitário para confeccionar as fardas dos soldados, trabalhando com entusiasmo e civismo. De outro lado, os homens formaram dois batalhões de voluntários e reservistas que partiram de Araçatuba: o Batalhao “4 de Julho” e o Batalhão da Noroeste.

Ex-combatentes de Araçatuba que lutaram no levante pela causa paulista são homenageados no cinquentário da Revolução Constitucionalista, em 1982 | Foto: Arquivo

O primeiro batalhão era composto por cerca de 800 homens, sob o comando de Dario Ferreira Guarita, e seguiu de trem rumo à capital paulista. Reunia a pluralidade da sociedade araçatubense da época, desde estudantes e membros da alta sociedade até industriários, comerciários, marceneiros, lavradores e boiadeiros. O grupo ficou aquartelado no Instituto do Café antes de marchar para as linhas de frente. Deste grupo faziam parte, entre outros, Aureliano Valadão Furquim, que viria a ser prefeito de Araçatuba, e Paulo Leite Ribeiro e João Vasconcelos.

O outro batalhão era formado por voluntários de Araçatuba, Penápolis, Birigui, Lins e Bauru, comandados por Antônio Cajado de Lemos. O destino do grupo, do qual Fabriciano Juncal fazia parte, era a capital paulista, mas chegando em Bauru, receberam ordem de regressar para Campo Grande, capital sul-mato-grossense. Os soldados ficaram acampados e incorporados ao 18º Batalhão de Caçadores antes de seguir para o front.

O ex-combatente Arthur Leite Carrijo em uma das homenagens que recebeu por sua participação no levante | Foto: Arquivo

Odisseia durou 87 dias

A odisseia durou 87 dias, acabando em 4 de outubro de 1932, com um saldo de mil mortos. Embora São Paulo tenha sido isolado pelos demais estados e derrotado militarmente pelas forças federalistas, o relato de Juncal imortalizou o orgulho de uma Araçatuba que não fugiu da luta e se transformou, por quatro meses, na capital revolucionária da Noroeste.

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