Dia do Hambúrguer

Do Cavalo de Gengis Khan ao Delivery: a história do hambúrguer que conquistou o Brasil - e o mundo

Existe um lanche que atravessou o tempo sobre as selas dos guerreiros mongóis, ganhou nome em um porto alemão, virou símbolo americano e, hoje, move uma indústria bilionária no Brasil. A cada 28 de maio, o Dia Mundial do Hambúrguer reúne milhões de apaixonados em torno de pão, carne e criatividade — mas poucos sabem que a história por trás desse sanduíche é muito mais rica do que o cardápio da hamburgueria do bairro sugere.

Uma história que começa antes da Alemanha

A origem do hambúrguer não tem um único endereço. Os historiadores apontam que os primeiros registros de carne moída moldada remontam ao século XIII, entre os guerreiros mongóis liderados por Gengis Khan. As tropas transportavam pedaços de carne sob as selas dos cavalos durante as longas campanhas militares. Com o peso e o movimento, a carne se desfazia em pasta e era consumida crua, moldada em esferas achatadas — uma solução prática para um exército sempre em marcha.

Séculos depois, essa prática chegou à Europa pelas rotas comerciais e influenciou o chamado “bife de Hamburgo”, um preparo de carne moída temperada que era servido nos portos da cidade alemã de Hamburgo no século XIX. Não por acaso, o nome do lanche vem de lá.

A grande virada, porém, aconteceu nos Estados Unidos. Com a significativa imigração alemã ao longo do século XIX, o bife de Hamburgo foi chegando ao novo mundo — e foi nos EUA que ele ganhou o pão, a forma definitiva e a vocação para as massas. A Feira Mundial de St. Louis, em 1904, é apontada como um dos marcos da popularização do sanduíche entre o grande público americano. Em 1921, a fundação da rede White Castle consolidou o hambúrguer como produto de fast food. O resto é história — e muito McDonald’s pelo caminho.

Por que 28 de maio?

A escolha da data não é aleatória. O dia 28 de maio foi selecionado justamente em referência à Feira Mundial de 1904, quando o hambúrguer foi apresentado como um lanche inovador e prático ao público norte-americano. Com o tempo, a data cresceu no calendário gastronômico mundial e passou a ser celebrada com promoções, festivais e eventos dedicados à arte de preparar o hambúrguer perfeito.

No Brasil, a data virou oportunidade de negócio, celebração cultural e, para muitos, quase um feriado não oficial.

O Brasil que mais pediu hambúrguer do que nunca

Os números impressionam. Segundo dados do iFood, os brasileiros pediram aproximadamente 250 milhões de hambúrgueres em 2024 — um crescimento de 207% em relação a 2023. O salto não é pontual: nos primeiros quatro meses de 2025, já foram entregues 72 milhões de unidades, alta de 12% em relação ao mesmo período do ano anterior. Só nos fins de semana, o prato movimentou o equivalente a 475 hambúrgueres por minuto em todo o país.

Há também um dado curioso sobre o comportamento do consumidor: os hambúrgueres congelados tiveram um crescimento de 237% em pedidos no início de 2025 comparado ao mesmo intervalo de 2024 — sinal de que a febre vai além das hamburguerias e chega ao supermercado e à própria cozinha.

O setor como um todo reflete essa demanda. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) indica que o food service movimenta mais de R$ 230 bilhões por ano no Brasil, com as hamburguerias entre os segmentos de maior crescimento. Até abril de 2025, mais de 2.630 novas hamburguerias foram cadastradas no iFood, com 99% delas pertencendo a pequenos e médios empreendedores.

Do smash ao plant-based: o hambúrguer que virou arte

Se antes o sanduíche era sinônimo de fast food padronizado, hoje ele é palco de experimentação gastronômica. O hambúrguer artesanal deixou de ser tendência para se tornar mercado consolidado. As maioneses industrializadas perdem espaço para versões feitas na casa. Conservas artesanais substituem produtos prontos. O cheddar ultraprocessado cede lugar a queijos maturados, como o Canastra e a Burrata. Até o pão ganhou protagonismo, com restaurantes investindo em fermentação natural e receitas autorais.

O levantamento Burguerpedia 2025, que analisou mais de 60 cardápios no país, aponta que o pão brioche ainda lidera com 49% de preferência, mas alternativas com farinhas especiais avançam. Na proteína, a carne bovina segue na frente, mas o frango ganha terreno — a diferença entre os dois caiu de seis para três vezes. E as proteínas vegetais, antes vistas como nicho, já aparecem em 10% dos cardápios.

O smash burger — aquele hambúrguer prensado na chapa para criar uma crosta crocante e bordas caramelizadas — é uma das técnicas que mais cresceram nos últimos anos. Junto com ele, vieram novos cortes, blends proprietários e até o conceito de “burger de autor”, em que chefs renomados assinem suas próprias versões.

Um negócio emocional

Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte concentram verdadeiros clusters de hamburguerias cult, onde filas nas portas são moeda de prestígio e cada lançamento vira evento nas redes sociais. A cultura do “burger drop” — em que edições limitadas são anunciadas e esgotadas em horas — mostra que o hambúrguer já opera dentro da lógica do hype, similar à moda e ao sneaker market.

O que esperar do futuro

O mercado global de hambúrgueres deve crescer a uma taxa de 5,5% ao ano até 2030, segundo projeções da empresa de pesquisa Data Intelo. No Brasil, a estimativa é de que mais de 3.400 hamburguerias artesanais estarão em funcionamento até 2028. A expansão do delivery como canal dominante de consumo, aliada ao crescimento das franquias e ao aumento de pequenos empreendedores no setor, sugere que o hambúrguer está longe de perder força.

E assim, neste 28 de maio, enquanto o Brasil celebra mais um Dia do Hambúrguer com promoções, filas e fotos no feed, vale lembrar que o sanduíche mais popular do país carrega séculos de história em cada camada. Da carne moída dos guerreiros mongóis ao blend artesanal da hamburgueria da esquina, a trajetória do hambúrguer é, no fundo, a história da própria cultura alimentar humana: prática, criativa, em constante reinvenção e sempre com um bom molho por cima.

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