Papa Francisco cita Petrópolis e deseja conforto às famílias das vítimas

Imagens de drone das áreas de deslizamento de encosta em Petrópolis, em decorrência das fortes chuvas que atingiram, a região serrana do Rio de Janeiro

O Papa Francisco voltou a citar a tragédia em Petrópolis, no Rio de Janeiro, e de Madagascar, na África, país atingido por tempestades tropicais e ciclones.

O pontífice desejou conforto às famílias das vítimas e também a todos que estão ajudando nos trabalhos de resgate.

A declaração ocorreu depois da tradicional oração do Angelus, na Praça de São Pedro, no Vaticano. Na última sexta-feira, o Papa enviou uma mensagem ao bispo de Petrópolis, Gregório Paixão Neto, em que lamenta e reza pelas vítimas da tragédia.

Esperança

Em meio à essa grande tragédia em Petrópolis, o domingo foi marcado por um motivo de esperança.

A bebê Ana Alice nasceu em um ponto de apoio montado pela prefeitura de Petrópolis. A mãe da criança, Giovana Cerqueira, foi no início da manhã à escola Paroquial Bom Jesus para encontrar a família e começou a sentir as dores do parto.

A equipe médica que atuava no local examinou a gestante e chegou a acionar a Defesa Civil, mas a ambulância não chegou a tempo. Após o nascimento, mãe e filha foram levadas pelo Samu para o Hospital Alcides Carneiro, em Corrêas. As duas estão bem.

 

Tragédias marcam família

Os desastres causados pelas chuvas são tão recorrentes na região serrana do Rio que provocaram duas mortes em diferentes gerações da família de Nadir Eler de Lima. Nesta quinta-feira, 17, a aposentada de 72 anos enterrou sua filha Cecilia Lima Fiorese, de 40 anos, uma das vítimas da maior chuva nos últimos 90 anos na cidade de Petrópolis e que foi agravada pela ação insuficiente dos governos nas áreas de risco. Em 1971, Nadir havia sepultado sua mãe, Cecilia Eler de Lima, em função de um deslizamento de terra na cidade, também causado pelas chuvas. Separadas por 50 anos, duas mortes causadas pela chuva na mesma família.

“Minha mãe não fala sobre o que aconteceu. É muito doloroso ver que a filha dela morreu da mesma forma que a mãe tinha morrido”, diz a irmã de Cecília, a servidora pública Camilla Fiorese, de 37 anos. “Somos uma família cristã. Cremos que minha irmã está melhor, com Deus, na eternidade. E isso é muito mais aceitável para a gente. Minha mãe só está conformada por isso”.

Cecília, que ganhou o mesmo nome da avó, trabalhava como gerente na Clínica Oral Unic na Rua Tereza, uma das mais movimentadas de Petrópolis. A administradora de 40 anos estava feliz da vida porque tinha conseguido um trabalho em sua área de formação depois de vários anos. Ela tinha o diploma de Administração Hospitalar. Nos últimos meses, com o desemprego trazido pela pandemia, ela foi até motorista de aplicativo. Nesta sexta-feira, 18, ela completaria um mês no emprego novo. Estava no auge, de acordo com os familiares.

Foi o ex-marido, o comerciante Alessandro Dutra, que chegou primeiro ao consultório após o deslizamento. Desespero. Pegou uma moto emprestada, mas ainda não consegue explicar como passou onde ninguém passava. Mesmo com um cenário de guerra, tinha esperança de encontrar ainda viva a mãe de seu filho, Pedro, de 6 anos. “Estou com a perna presa”, disse Cecilia para um dos funcionários que escapara. “Peraí, vou buscar ajuda”. Silêncio. Dos cinco funcionários, apenas Cecília não escapou. Ela havia subido para o segundo andar para pegar um café minutos antes do desabamento.

Alessandro e Cecília ainda eram casados no papel, mas não estavam mais juntos. Os dois tinham um relacionamento amigável e faziam tudo pelo filho. Nesta quinta, Alessandro seguiu orientação do psicólogo e contou para Pedro o que houve. “Eu não podia falar que ela viajou sabendo que ela não ia voltar. Falei que ela está com o Papai do Céu”. Segundo o pai, o menino entendeu, mas preferia que a mãe tivesse continuado “fazendo Uber”.

Nesta quinta, a família voltou ao local da tragédia para tentar “entender a dinâmica que aconteceu”. O Estadão conversou com eles à tarde, no momento em que tentavam compreender e refazer os últimos momentos da parente. Camilla se espantou com a quantidade de lama. “Se ela estivesse na frente da clínica, ela não teria sido atingida”, diz Alessandro.

A cena trouxe à memória da família o que houve há quase 50 anos atrás. Tentar entender o presente trouxe a dor do passado. Depois de alguns dias de chuva ininterrupta, em 25 de novembro de 1971, um deslizamento de terra na Rua Bernardo de Vasconcelos, no bairro Cascatinha, atingiu em cheio a casa de Cecilia Eler de Lima. Quando saiu no corredor, a senhora de 55 anos morreu soterrada. Ela estava sozinha na única casa que foi atingida pelo deslizamento.

Depois da reconstrução da casa, Nadir ainda vive no mesmo endereço. A região não foi prejudicada pelas chuvas desta semana. Os moradores explicam que os temporais costumam atingir pontos diferentes, localizados. Em 2011, por exemplo, quando mais de 900 pessoas morreram na região serrana do Estado, o local mais atingido na cidade foi o distrito de Itaipava.

Sempre que chove, Nadir fica agoniada. Camilla trocou a cidade serrana por Brasília há 21 anos. A família já sugeriu que a mãe se mudasse, mas ela não quer sair do lugar onde nasceu. Nadir vai fazer 72 anos na próxima segunda-feira, dia 21.

 

Agência Estado

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