Se você fizer uma pesquisa rápida na internet, facilmente vai encontrar essa frase do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância): “O leite materno é o melhor alimento que um bebê pode ter”. Aqui eu acrescento uma observação pessoal: como tudo, o que é melhor na vida ou no trabalho leva tempo e exige esforço e dedicação.
No dia 1º de agosto é comemorado o Dia Mundial da Amamentação, data criada em 1992 pela Aliança Mundial de Ação pró-amamentação com a finalidade de promover o aleitamento materno e a criação de bancos de leite, garantindo, assim, melhor qualidade de vida para crianças em todo o mundo. A data também faz parte da Semana Mundial de Aleitamento Materno, que ocorre até o dia 7 de agosto, e do Agosto dourado, mês dedicado à conscientização, proteção e incentivo ao aleitamento materno, que tem a cor dourada para representar o padrão ouro de qualidade do leite materno. A ideia é usar esse dia para falar sobre aleitamento. Então lá vamos nós.

Apesar da importância que se dá a amamentação hoje, nem sempre foi assim. Durante o Brasil Colônia, por exemplo, amamentar era visto como um ato vulgar ou inconveniente para mulheres da elite. O ato não era considerado uma boa prática para uma dama, por isso, as mulheres delegavam a amamentação de seus filhos a mulheres negras escravizadas, as chamadas amas de leite, enquanto os filhos dessas muitas vezes sofriam com o abandono e a alta taxa de mortalidade infantil.
Mas é inegável o quanto isso mudou e como o maior acesso a informação faz hoje com que muitas mulheres reconheçam a importância de amamentar seus próprios filhos, inclusive para a saúde da mãe. Segundo o Ministério da Saúde, “a amamentação oferece diversos benefícios à mulher. Amamentar reduz os riscos de hemorragia no pós-parto e diminui as chances de desenvolver câncer de mama, ovários e colo do útero no futuro. Além disso, fortalece o vínculo entre mãe e filho.”
Para o bebê então nem se fala. O leite materno não é só alimento. A enfermeira obstetra e consultora de amamentação, Iolanda Santos Lourenço, explica que “a amamentação é considerada a primeira vacina completa do bebê, é extremamente importante para o sistema imunológico, e o desenvolvimento motor da criança. Favorece também a saúde na infância, diminuindo riscos de infecção e doenças principalmente em bebês prematuros”.
Quando amamentar dói
Mas eu comecei esse texto falando que tudo o que é melhor exige esforço, e a jornalista e influenciadora digital Ana Laura Dellapina tem vivido isso na pele. Mãe do pequeno Liam de 3 meses e meio, ela tem compartilhado com os seguidores a rotina intensa de cuidados que um bebê tão pequeno exige e um dos maiores desafios pra ela tem sido a amamentação. “Chegou num ponto que eu começava a chorar só em pensar que eu ia ter que amamentar”, conta a mamãe de primeira viagem.
Ana Laura também sentiu algo muito comum que aparece em mães de bebês, crianças, adolescentes e até adultos: A culpa materna, que nada mais é do que um sentimento de não ser suficiente ou estar fazendo algo de errado, pela cobrança excessiva gerada por expectativas irreais, romantização da maternidade e pressão de ser uma mãe perfeita além de equilibrar todos os pratos, na vida pessoal e profissional. Após sentir muita dor para amamentar, Ana Laura e o marido decidiram revezar a amamentação com a mamadeira, mas aí… “Eu lembro da sensação de ver o André dar a mamadeira pra ele e me sentir incapaz, impotente. Eu pensava que ele estava tomando a mamadeira porque eu era incapaz de aguentar a dor”.
A verdade é que a experiência da amamentação nem sempre é a mesma para cada mulher. Buscar ajuda quando sente dor é sim muito importante e a Ana Laura fez isso. Passou por uma consultora de amamentação, um fonoaudióloga, buscou muita informação na internet e mesmo sabendo que estava fazendo tudo certo as dores não diminuiam. “Então eu digo que a minha amamentação foi uma renovação da minha fé, porque eu sempre fui uma pessoa de muita fé, mas eu pensava: Por que estou passando por isso, Deus? Mas foi aí que eu percebi que mesmo terminando o dia esgotada, no dia seguinte eu acordava disposta a tentar amamentar meu filho de novo, e foi aí que percebi que Deus estava comigo.”
A Ana Laura só parou de sentir dor para amamentar depois de 2 meses e meio, então todo aquele momento lindo e prazeroso da amamentação só chegou pra ela depois de mais de 60 dias. Eu posso dizer que pra mim foi um pouco parecido. Não levou tanto tempo, mas foram cerca de 40 dias. Eu tinha certeza de que eu estava fazendo tudo certo, bem orientada por boas profissionais e inclusive fazendo laser nas mamas para melhorar as rachaduras. Mesmo assim, o começo foi difícil. Eu me lembro bem das mamas inchadas e doloridas e da dificuldade em dormir com aquele leite escorrendo. Mas depois desse esforço inicial, tive uma jornada linda de amamentação de 1 ano e 8 meses com a minha filha Catarina que me fez agradecer por não ter desistido. E agora, grávida da Clara de 30 semanas, estou prestes a embarcar nessa aventura novamente, um pouco mais ciente de tudo o que me espera.

Amamentação tardia
Mas eu sempre fiquei com a sensação de que se a gente não criasse tanta expectativa romântica em cima da maternidade e não se comparasse tanto com outras mulheres, seria bem mais fácil. E isso nos leva a um outro tema: a amamentação tardia. Parece bobo, mas depois de tanto esforço que a mãe faz para alimentar a sua cria, muitas ainda se sentem julgadas se decidem continuar nessa jornada por mais tempo. Novamente segundo a Unicef, “Os bebês até os seis meses de idade devem ser alimentados somente com leite materno, não precisam de chás, sucos, outros leites, nem mesmo de água. Após essa idade, deverá ser dada alimentação complementar apropriada, mas a amamentação deve continuar até o segundo ano de vida da criança ou mais”. Ou seja, não existe um marco em que a amamentação deve cessar. Para a Iolanda, “Se for considerar de fato, nem deveria existir o termo amamentação tardia, pq o leite mantém todos os seus benéficos por todo tempo de amamentação, crianças com amamentação prolongada tem uma saúde melhor, além de ter um vínculo maior com a mamãe!”
Talvez o maior aprendizado da amamentação seja justamente entender que ela não precisa ser perfeita para ser valiosa. Algumas mães vivem esse momento com facilidade. Outras enfrentam dias, semanas ou meses de dor, dúvidas e culpa. E nenhuma dessas experiências torna uma mãe melhor ou pior que a outra. No fim, mais do que alimentar um bebê, amamentar também é um processo de aprendizado, resiliência e acolhimento. E talvez o maior gesto de amor seja permitir que cada mulher viva essa experiência sem julgamentos.

