Multidões foram às ruas em ao menos 23 capitais neste domingo (21) para protestar contra a PEC da Blindagem, em atos que também contaram com críticas à proposta de anistia aos condenados no 8 de Janeiro, ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). A presença de artistas impulsionou manifestações em alguns locais.
Os atos, realizados em todas as regiões do país, aconteceram logo de manhã em Brasília, Salvador, Maceió, Natal, São Luís, Teresina, João Pessoa, Belo Horizonte, Cuiabá, Campo Grande, Manaus e Belém, e ganharam tração à tarde com as manifestações em São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Fortaleza, Recife, Aracaju, Macapá e Goiânia.
Os protestos foram convocados às pressas no decorrer da semana pelas frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, ligadas ao PSOL e ao PT e que reúnem movimentos como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto).
A manifestação foi chamada em protesto contra o Congresso Nacional após a votação da PEC da Blindagem e da urgência para o projeto da anistia. Com o mote “Congresso Inimigo do Povo”, os manifestantes também exigiram a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa, entre outros crimes.
Na Bahia
Na capital baiana, o protesto em frente ao Cristo da Barra reuniu milhares de pessoas e foi encorpado com as presenças de artistas como a cantora Daniela Mercury e o ator Wagner Moura, que discursaram enquanto os presentes gritavam frases como “sem anistia”, “fora PEC da impunidade” e “fora PEC da bandidagem”. A atriz Nanda Costa também esteve no ato.
“Sem anistia, sem PEC da Blindagem. A gente está aqui em Salvador dizendo para o mundo inteiro que não aceitamos essa PEC da impunidade para os deputados federais. Não aceitamos para nenhum deputado. Estamos aqui com a frente popular conosco”, disse Daniela em cima do trio, enquanto segurava uma bandeira do Brasil.
O ator Wagner Moura também cantou, além de elogiar o julgamento da trama golpista que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro e aliados.
“Eu fiquei com vontade de falar só do momento extraordinário pelo qual passa a democracia brasileira, que é exemplo para o mundo inteiro. A gente que sempre cresceu dizendo que nossa democracia é frágil, que ela é jovem. Nossa democracia botou para ‘lenhar’ [para quebrar]”, disse Wagner Moura.
Mais Nordeste
Também no Nordeste do país, a proposta de anistia foi rechaçada por participantes do ato em Natal e em João Pessoa, que teve gritos críticos a Hugo Motta, deputado que foi eleito pelo Estado.
Em Maceió, o ato ocorreu na orla da Pajuçara e contou com participação da cantora Simone, que discursou aos presentes, que empunhavam cartazes com frases como “Sem anistia, PEC da bandidagem não!”.
“O Brasil é feito por brasileiros, e de brasileiros que o amam. Quem não estiver satisfeito com o Brasil, vá embora. Nós somos um país enorme que dá para todo mundo, agora não pode dar para bandidos”, disse a cantora.
De cima do trio elétrico, ela também cantou com manifestantes a música “Tá na Hora do Jair Já Ir Embora”, do músico Juliano Maderada, que dominou os paredões do Brasil na campanha eleitoral de 2022.
Em Teresina, os manifestantes se reuniram na praça Pedro 2º, na região central, com cartazes e discursos num trio elétrico de sindicatos, movimentos sociais e políticos. Em São Luís, os manifestantes se reuniram no centro histórico e caminharam por ruas do entorno.
Já em Fortaleza, o ato ocorreu na tarde deste domingo na praia de Iracema, em frente à estátua da Iracema Guardiã. Uma via litorânea também foi o cenário do ato em Aracaju, que reuniu o grupo contra a PEC na praia da Cinelândia.
Também houve ato no Recife, no bairro de Santo Amaro, organizado por estudantes e movimentos sociais e que reuniu milhares de manifestantes com faixas com frases como “democracia” e “sem anistia”.
Rio de Janeiro

Milhares de pessoas ocuparam a Praia de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro. Aos gritos de “Sem Anistia” e “Viva a democracia”, os manifestantes se reuniram na altura do Posto Cinco da Orla de Copacabana, para escutar os discursos de lideranças políticas e assistir aos shows dos cantores Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Djavan, entre outros.
Caetano Veloso disse, durante o ato musical, que a democracia no Brasil resiste. Segundo ele, a cultura nacional apresenta grande vitalidade.
“Não podemos deixar de responder aos horrores que vêm se insinuando à nossa volta”.
Gilberto Gil lembrou que o Brasil já passou por momentos semelhantes em sua história. “Passamos por momentos parecidos sempre em busca da autonomia, o bem maior do nosso povo”, afirmou.
São Paulo

Em São Paulo, a manifestação aconteceu em frente ao Masp, na avenida Paulista. Levantamento do Monitor do Debate Político do Cebrap e a ONG More in Common calculou que o público ficou entre 37,3 mil e 47,5 mil participantes. A contagem foi feita a partir de fotos aéreas realizadas em quatro horários diferentes. O mesmo levantamento apontou 42,2 mil pessoas no ato pró-anistia do 7 de Setembro. Já o Monitor do Debate Político no Meio Digital, vinculado à USP (Universidade de São Paulo) calcula que neste domingo cerca de 42,4 mil pessoas se reuniram na avenida Paulista.
Reginaldo Cordeiro de Santos Júnior é professor universitário no curso de Serviço Social e esteve na Paulista. Não mora em São Paulo, mas aproveitou que tinha um compromisso na cidade e antecipou a vinda especialmente para participar da manifestação.
“Nós estamos aqui na luta pela democracia contra a PEC da Blindagem, na luta contra todo o retrocesso do que foi conquistado em 1988. Isso é muito importante para que a juventude entenda tudo que a gente conseguiu conquistar em 1988 com a Constituição Federal. A gente precisa trazer à tona toda essa problemática que está sendo posta no Congresso brasileiro”, disse.
Professora aposentada pelo estado de São Paulo, Miriam Abramo teme pela volta da ditadura no Brasil e acredita que a PEC da Blindagem pode ser um encurtamento do caminho para que o país reviva o período.
“Estou aqui porque tenho 75 anos e eu vivi a época na qual você não tinha direitos de nada. Eu votei pela primeira vez para presidente da República quando eu tinha 40 anos e eu não quero que essa juventude espere ter 40 anos para poder escolher seu presidente novamente”, falou a professora.
O professor de artes marciais Renato Tambellini não apenas foi se manifestar como levou a filha de 12 anos, Luiza, para mostrar a ela a importância da manifestação popular e para que ela já comece a participar. Ele contou que sempre conversa sobre todos os temas com a Luiza e seu irmão.
Mais Sudeste e Sul
Além dos atos em São Paulo e Rio de Janeiro, o Sudeste contou com manifestações em Belo Horizonte e Vitória. Na capital mineira, ela ocorreu na região central, na praça Raul Soares, também com presença de artistas a cantora Fernanda Takai, da banda Pato Fu.
Já em Vitória, o ato foi feito em frente à Assembleia Legislativa. No Sul, manifestantes se reuniram na Boca Maldita, no centro de Curitiba, mesmo com uma chuva intermitente no início da tarde deste domingo.
Gritos de “sem anistia” e camisetas com frases como “Congresso Inimigo do Povo” eram comuns entre os participantes. “Sem anistia, sem perdão, quero ver o Bolsonaro na prisão”, gritaram no protesto.
Em Porto Alegre, o protesto promovido por movimentos de esquerda reuniu manifestantes no viaduto do Brooklyn, que seguiram até o Monumento ao Expedicionário. Já em Florianópolis, o ato ocorreu na região da ponte Hercílio Luz.
Distrito Federal

No Centro-Oeste, os manifestantes de Brasília se concentraram pela manhã em frente ao Museu da República, na Esplanada dos Ministérios, de onde seguiram em caminhada até a sede do Congresso. Os participantes ergueram cartazes contra a anistia dos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro e contra a PEC da Blindagem. Uma das faixas dizia “Câmara da vergonha”.
Também havia um boneco inflável de Bolsonaro, retratado de forma pejorativa, com as mãos manchadas de sangue. Participaram da manifestação na capital federal parlamentares da esquerda, como o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ) embora a própria sigla tenha dado 12 votos a favor da PEC da Blindagem.
Milhares de pessoas marcharam na Esplanada dos Ministérios. A passeata ocupou as seis faixas do Eixo Monumental.![]()
Sob sol forte, a multidão seguiu em marcha atrás de um pequeno trio elétrico, após uma batalha de rimas e discursos de lideranças políticas do Distrito Federal (DF).
O trajeto de cerca de 1,5 quilômetro foi até a frente do Congresso Nacional, onde o cantor e compositor Chico César encerrou o ato cantando alguns de seus sucessos. O ato ocorreu das 9h às 14h.
Com o mote “Congresso Inimigo do Povo”, os manifestantes gritavam “sem anistia”; “queremos Bolsonaro na cadeia”, pedindo o cumprimento da condenação do ex-presidente a 27 anos e três meses de prisão. Os cartazes traziam ainda dizeres como “sem bandidagem”, em referência a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) apelidada pelo ato de “PEC da Bandidagem”, também conhecida como PEC da Blindagem ou das Prerrogativas. Segundo a proposta, a abertura de processos judiciais contra parlamentares precisará ser aprovada pela maioria das próprias casas legislativas.
Mais Capitais
Em Cuiabá, um pequeno ato foi realizado na praça cultural do CPA 2. No final da tarde, manifestantes se reuniram em Goiânia, na praça universitária, para o protesto.
Já na região Norte do país, manifestantes foram às ruas em Belém e em Manaus. Na capital do Pará, o ato teve início às 9h no Theatro da Paz, na praça da República, e reuniu grupos de esquerda, estudantes, políticos e artistas locais.
Assim como em outras capitais, Jair Bolsonaro, condenado pela trama golpista, também foi criticado por manifestantes, já que a proposta de anistia “ampla, geral e irrestrita” tem como objetivo também livrar o ex-presidente da condenação.
Em Manaus, o ato foi marcado por uma caminhada entre as avenidas Getúlio Vargas, no centro, e Sete de Setembro.



