Estudos revelam avanços e desafios da integração entre tecnologia e saúde.
A integração entre a medicina e a tecnologia já é uma realidade. Segundo dados da pesquisa realizada pela Black Book Research, o mercado brasileiro de Registros Eletrônicos de Saúde (EHR), avaliado em aproximadamente US$ 1,5 bilhão, deve atingir US$ 2 bilhões até 2030, representando uma taxa de crescimento anual composta de 5%.
Essa integração pode ser observada na adoção de prontuários eletrônicos, no uso das plataformas de telemedicina, e no avanço de equipamentos, como os usados para identificar tipos de câncer de pulmão e outras doenças. Como reflexo, há também uma mudança de como os profissionais lidam com o cuidado à saúde.
Apesar desse movimento, a adoção da tecnologia na medicina esbarra em diferentes obstáculos, como o financiamento insuficiente para unidades menores; a resistência entre equipes clínicas, muitas vezes mal treinadas para sistemas digitais; a interoperabilidade limitada entre diferentes soluções, impedindo o fluxo eficiente de dados; e o reforço da segurança digital.
Um exemplo prático é que aproximadamente 88% dos entrevistados ouvidos pelo estudo verificaram resistência por parte da equipe clínica, situação agravada por programas de treinamento inadequados e pela escassez de profissionais de TI.
Ainda de acordo com o estudo, representantes do setor revelaram um misto de otimismo e preocupação em relação às iniciativas tecnológicas para saúde digital. A pesquisa entrevistou 203 organizações de hospitais e médicos brasileiros e 24 autoridades governamentais responsáveis por políticas de TI na área da saúde.
Tecnologia transforma a medicina, mas a prática ainda impõe limites
O levantamento da Black Book Research mostra que o maior uso da tecnologia está concentrado nos principais centros urbanos e nas maiores redes hospitalares, somando 36% dos entrevistados que relataram investimentos em recursos avançados de saúde digital, como telemedicina e diagnósticos, que incluem a abordagem junto a pacientes sobre o que é câncer de mama, por exemplo, baseados em Inteligência Artificial (IA).
Entre os entrevistados, 96% dos profissionais citaram a insuficiência de financiamento como o principal obstáculo que afeta de forma desproporcional hospitais menores e clínicas rurais. Já 97% das unidades de saúde de menor porte não possuem tecnologia necessária para participar efetivamente de iniciativas nacionais de interoperabilidade, o que limita as capacidades de troca de dados.
Para cobrir as necessidades de financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS), o gasto público em saúde deve alcançar valores equivalentes a pelo menos 6% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2030, segundo análise do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS).
Outro limite vem da necessidade de uma autoridade centralizada em saúde. Ainda que o Brasil venha caminhando para alinhar seu marco regulatório aos padrões internacionais, falhas são percebidas. Isso é confirmado pela resposta unânime dada pelos funcionários públicos entrevistados sobre a supervisão fragmentada.
O Programa SUS Digital, implementado por todos os estados brasileiros e 70% dos municípios, foi citado por 79% dos entrevistados como um passo positivo rumo à integração digital nacional, ainda que haja necessidade de avanço devido aos diferentes níveis de prontidão da infraestrutura.
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) é apontada como responsável por aprimorar a segurança de dados. No entanto, segundo 96% dos entrevistados, adiciona complexidade aos atendimentos, o que pode gerar impactos nas operações.
“A ação coordenada em relação a financiamento, clareza regulatória e interoperabilidade é essencial. O Brasil tem o potencial de se tornar um líder regional em saúde digital, desde que essas questões sistêmicas sejam abordadas estrategicamente”, afirma o fundador da Black Book, Doug Brown.
IA na medicina exige equilíbrio
O avanço da IA na medicina exige equilíbrio entre inovação tecnológica e princípios éticos. Para isso, é preciso estabelecer diretrizes e regulamentações a fim de mitigar riscos e garantir que a tecnologia seja utilizada de forma ética, segura e equitativa.
“A crescente adoção da Inteligência Artificial na medicina oferece inúmeras oportunidades para melhorar a precisão diagnóstica, a personalização dos tratamentos e a eficiência dos serviços de saúde. No entanto, sua implementação também traz desafios éticos e regulatórios que não podem ser ignorados”, aponta o artigo “Desafios e ética no uso da inteligência artificial na medicina”, publicado na revista Ciências da Saúde.
O estudo coloca a privacidade e a segurança dos dados dos pacientes como um dos principais desafios, isso porque o treinamento de algoritmos requer grandes volumes de informações sensíveis, como registros médicos eletrônicos, imagens diagnósticas e dados sobre a doença, incluindo o que causa o câncer de próstata, por exemplo.
Outro aspecto crítico, conforme o estudo, é a transparência e a interpretação das decisões tomadas pela IA. A falta de explicações pode comprometer a confiança dos médicos e pacientes, além de dificultar a responsabilização em casos de erros. Os erros, por sua vez, envolvem a questão da responsabilidade jurídica, que representa outro desafio.
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