Chico César é desses artistas que não cabem em rótulos. Cantor, compositor, instrumentista e poeta da canção brasileira, ele construiu uma obra marcada pela delicadeza, pela força das palavras e por um profundo compromisso com a identidade, a diversidade e a emoção.
Nascido em Catolé do Rocha, no sertão da Paraíba, Chico transformou suas vivências em música e suas músicas em pontes entre o Brasil profundo e o mundo.
Neste aniversário do artista, a Novabrasil celebra sua trajetória reunindo 10 curiosidades que ajudam a contar um pouco mais sobre a história, a obra e os caminhos desse criador tão singular da nossa música.
1 – Sua história começa no sertão paraibano
Antes de conquistar palcos pelo Brasil e pelo exterior, Chico César foi formado pelas paisagens, sons e histórias de Catolé do Rocha, sua cidade natal, no sertão paraibano. O sertão, as feiras, as vozes da rua, os afetos familiares e o cotidiano nordestino moldaram sua escuta desde cedo e seguem ecoando em sua obra até hoje, seja nos temas que defende, nas melodias de suas canções ou na forma poética de contar histórias.

2 – Seu primeiro disco foi gravado ao vivo
O álbum de estreia, “Aos Vivos”, em 1995, já nasceu com personalidade: foi gravado ao vivo, em São Paulo, captando a energia, a entrega e a força interpretativa de Chico no palco. O disco apresentou ao Brasil um artista pronto, com repertório consistente, discurso próprio e uma presença magnética.
Uma curiosidade: outra artista da MPB que fez a sua estreia corajosa (o que mostra o talento e competência desses dois artistas) em disco ao vivo foi Marisa Monte, com o álbum “M“, em 1989.

3 – “Mama África” foi o ponto de virada da carreira
Lançada em 1995 no álbum “Aos Vivos”, “Mama África” foi a música que apresentou Chico César ao grande mundo inteiro. Com sua melodia envolvente e letra potente, a canção rapidamente ganhou as rádios, os palcos e o coração dos ouvintes brasileiros e até estrangeiros, transformando o artista em um dos nomes mais promissores da nossa música a partir dos anos 1990. E a história veio aí para confirmar sua permanência entre os maiores da MPB.
4 – A inspiração para “Mama África” nasceu de uma cena cotidiana
Chico César compôs “Mama África” em uma caminhada matinal por São Paulo, enquanto esperava a sua irmã chegar para visitá-lo na cidade paulistana. Observando mulheres indo trabalhar, cuidando dos filhos, enfrentando a rotina com dignidade e força, ele começou a refletir sobre maternidade, ancestralidade e resistência. Dali, nasceu a imagem simbólica da “Mama África”, que conecta o cotidiano urbano à herança africana.
Mais do que um sucesso radiofônico, “Mama África” é uma música carregada de significado. Ao falar da mulher negra, da mãe solo, da trabalhadora invisibilizada, Chico constrói uma narrativa de valorização, pertencimento e identidade. É uma canção que abraça, acolhe e provoca reflexão: marca registrada de sua obra.
Conheça a história completa de “Mama África”.
5 – O clipe de “Mama África” virou um retrato poético de sua cidade natal
Gravado em Catolé do Rocha e dirigido por Anna Muylaert, o videoclipe de “Mama África” é uma verdadeira obra de arte e um profundo documento afetivo. Em plano-sequência, Chico percorre ruas, encontra moradores, reúne crianças, amigos e vizinhos, criando uma grande celebração coletiva. O vídeo se tornou um clássico do audiovisual brasileiro e ajudou a fortalecer ainda mais a relação de amor do artista com suas origens.
6 – Um dos seus maiores sucessos conquistou o Brasil em outra voz
Embora seja uma composição de Chico César, o sucesso “À Primeira Vista” ganhou projeção nacional principalmente na voz da cantora Daniela Mercury, em 1996. A música se tornou um grande hit, atravessou gerações e passou a integrar o repertório afetivo da música brasileira. É um exemplo claro da força de Chico como compositor para além de sua própria interpretação.
Conheça a história completa de “À Primeira Vista”.
7 – Suas canções foram gravadas por grandes nomes da MPB
Depois de “À Primeira Vista”, muitas outras grandes cantoras da nossa música tornaram-se grandes intérpretes de suas canções, como:
- Maria Bethânia (“A Força que Nunca Seca”; “Onde Estará o Meu Amor”; “Saudade”…)
- Elba Ramalho (“A Prosa Impúrpura do Caicó”; “Béradêro”…)
- Zélia Duncan (“Esporte Fino Confortável”; “Tudo é Um”, ambas parcerias dos dois artistas)
- Gal Costa (“Quando eu Fecho os Olhos”)
Esse diálogo com diferentes vozes, gerações e estilos consolidou sua posição como um dos grandes compositores do país, respeitado tanto pelo público quanto pelos colegas de profissão.
8 – Sua música atravessou fronteiras e dialogou com o continente africano
A obra de Chico César sempre manteve um diálogo profundo com a cultura afro-brasileira e africana. Ao longo da carreira, ele se aproximou de países como Angola e Moçambique, onde sua música encontrou eco e reconhecimento. Essa troca reforça o caráter universal de sua obra, que fala de identidade, pertencimento e humanidade.
O décimo álbum e mais recente álbum solo de Chico é “Vestido de Amor”, que aborda profundamente o tema do pan-africanismo, do ponto de vista da diáspora.
9 – Chico César também é um artista profundamente ligado à palavra escrita
Antes mesmo de ser reconhecido nacionalmente como cantor e compositor, Chico César já cultivava uma relação intensa com a literatura, a poesia e o jornalismo (ele é formado em jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba e trabalhou na Editora Abril).
Leitor atento e observador do mundo, ele sempre tratou a canção como um espaço de escrita sofisticada, onde cada palavra carrega peso, ritmo e intenção. Essa relação com a linguagem aparece na construção de suas letras, cheias de imagens, metáforas e jogos sonoros, e também em sua atuação como escritor e cronista.
Seu primeiro livro – “Cantáteis, cantos elegíacos de amizade” – foi lançado no mesmo ano de seu primeiro disco, em 1995. Em 2016, o artista foi indicado ao Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Poesia, pelo livro “Versos Pornográficos”.
Para Chico César, música e literatura caminham juntas, fazendo de sua obra um território onde a palavra nunca é apenas complemento da melodia, mas parte essencial da emoção.
10 – Versatilidade é uma das marcas da sua trajetória
Em mais de três décadas de carreira, Chico César transitou por diferentes sonoridades, formatos e projetos. Gravou discos intimistas e políticos, urbanos e regionais, dançantes e contemplativos. Atuou como compositor, intérprete, gestor cultural e articulador de políticas públicas. Sempre fiel à própria essência, ele constrói uma trajetória coerente, inquieta e profundamente conectada ao seu tempo.
Viva, Chico César!



