Mais um dia especial na história da cultura brasileira: há exatos 172 anos, em 13 de janeiro de 1854, nascia – na Bahia – aquela que se tornaria uma das figuras mais importantes para o surgimento do samba em nosso país: Tia Ciata.
Muito além de um nome fundamental na história do samba, Tia Ciata foi uma liderança cultural, religiosa e social em um Brasil que ainda aprendia a lidar com sua população negra na chamada “pós-abolição da escravatura”.
Sua casa, suas festas, sua fé e sua presença ajudaram a moldar não apenas um gênero musical, mas uma forma de resistência e convivência. Conheça algumas curiosidades sobre essa mulher que ajudou a sustentar as bases do samba brasileiro.
1 – Seu nome verdadeiro era Hilária Batista de Almeida
Tia Ciata nasceu em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, com o nome Hilária Batista de Almeida. O apelido pelo qual se tornaria conhecida nacionalmente viria anos depois, já no Rio de Janeiro, associado ao respeito que conquistou como liderança religiosa e cultural.
2 – Participou da fundação da Irmandade da Boa Morte ainda adolescente
Aos 16 anos, Hilária participou da fundação da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira, também no Recôncavo Baiano. A irmandade é uma das mais importantes organizações religiosas afro-brasileiras do país, formada por mulheres negras e marcada por profundo sincretismo e resistência cultural.
3 – Foi iniciada no candomblé por um africano da nação Ketu
Por incentivo do pai de santo Bamboxê Obitikô, africano da nação Ketu, Hilária foi iniciada no candomblé e se tornou mãe de santo, filha de Oxum. Como muitos afro-brasileiros da época, manteve sua fé em segredo por anos, devido ao preconceito e à criminalização das religiões de matriz africana, ou seja, ao racismo.

4 – Chegou ao Rio durante a chamada “Diáspora Baiana”
Aos 22 anos, Tia Ciata se mudou para o Rio de Janeiro no movimento que ficou conhecido como “Diáspora Baiana”, quando negros recém-libertos deixaram a Bahia rumo à então capital do país, em busca de melhores condições de vida. Muitos se estabeleceram na Zona Portuária, em bairros como Gamboa, Saúde e Santo Cristo.
No Rio, Tia Ciata trouxe uma filha, casou-se com João Baptista da Silva, funcionário público, e teve 14 filhos. Mais do que um núcleo familiar, sua casa tornou-se um espaço ampliado de acolhimento, convivência e organização da comunidade negra carioca.
5 – Tornou-se referência religiosa antes mesmo de ter seu próprio terreiro
Antes de abrir sua própria casa de candomblé, Tia Ciata seguia os preceitos religiosos na casa de João Alabá, de Omulu, considerada uma filial carioca de uma dissidência do Ilê Iyá Nassô, de Salvador. Ali, ela se tornou “Mãe-Pequena”, função que a colocava como substituta imediata do Babalorixá.
6 – Sua casa na Praça Onze virou centro cultural da “Pequena África”
Morando inicialmente na Pedra do Sal e depois na Rua Visconde de Itaúna – uma das vias que delimitavam a Praça Onze – Tia Ciata viveu por cerca de 20 anos no coração da chamada “Pequena África”, nome dado pelo cantor e compositor Heitor dos Prazeres à região que concentrava comunidades negras e quilombolas urbanas entre 1850 e 1920.
7 – Foi protagonista entre as pioneiras “Tias Baianas”
Ao lado de outras mulheres conhecidas como “Tias Baianas”, Tia Ciata foi fundamental na consolidação das tradições afro-brasileiras no Rio. Quituteira, referência religiosa e liderança comunitária, transformou sua casa em ponto de encontro, mantendo vivas práticas culturais africanas que se reinventavam na cidade.
Tia Ciata festejava seus orixás, sendo famosas suas festas de São Cosme e Damião e de sua Oxum, Nossa Senhora da Conceição.
8 – Partideira de respeito
Nas festas, suas habilidades de partideira a destacavam nas rodas de partido-alto: ela liderava com autoridade, respondendo de maneira enérgica aos refrões, além de dominar o”miudinho”, uma forma de sambar de pés juntos que exige destreza e elegância, no qual era mestra.
Logo após a cerimônia religiosa, antecedida por uma missa cristã, músicos e capoeiras amigos da casa armavam um pagode com violões, pandeiros, ganzás e muito samba. Tia Ciata promovia em sua casa, saraus com chorões e bailes amaxixados no salão da frente, sem esquecer um bom samba lá no fundo do quintal, sempre com uma cerimônia de candomblé encerrando as festividades.
9 – Sua casa foi berço do primeiro samba gravado no Brasil
Tia Ciata foi uma das principais incentivadoras do samba, ao abrir as portas de sua casa para reuniões de sambistas pioneiros quando a prática ainda era proibida por lei.
Foi na casa de Tia Ciata que nasceu “Pelo Telefone”, primeiro samba gravado da história, composto por Donga e Mauro de Almeida entre o fim de 1916 e o início de 1917. O casarão da Praça Onze recebia nomes como Pixinguinha, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, Catulo da Paixão Cearense, entre muitos outros.
10 – Seu prestígio era tão grande que enfrentou o racismo institucional
Curandeira reconhecida, certa vez Tia Ciata foi chamada ao Palácio do Catete para tratar uma ferida do então presidente Venceslau Brás. Curado, ele autorizou que as festas em sua casa acontecessem com proteção policial: um privilégio raro em um período em que rodas de samba eram proibidas e violentamente reprimidas.



